XX
Eduardo Valladares e Maria Luiza, na impossibilidade de fallar-se, viam-se apenas. Triste correspondencia era essa escripta com lagrimas de dois corações que se deviam estar inflorando, n’aquella sazão, em jubilosas primaveras. Não acontecia assim, porém.
As cartas de Maria Luiza principiavam por palavras de resignação e fechavam com outras d’esperança; as de Eduardo Valladares tinham longo prefacio de desalentos e terminavam com assomos de mal contido desespêro.
Demoremo-nos um momento a medir a profundeza de dois abysmos.
Maria Luiza, alma que se desatara em perfumes e amores ao sôpro virginal do primeiro affecto, conhecia de sobra os despenhadeiros que lhe estava cavando um amor desventuroso, e resignadamente se deixaria despenhar só para não arrastar na queda outra alma que vivia sob o influxo d’uma estrella commum.
Por isso, com o coração despedaçado, aconselhava a medicina da resignação e deixava entrever diluculos d’esperança através de uma chuva de lagrimas que não podia reprimir.
Os vestigios das lagrimas choradas desvelariam a um espirito desassombrado o segredo que o coração de Maria Luiza com tamanho empenho recatava; bastariam para eloquentemente denunciar os soffrimentos crueis que ella procurava dissimular trocando em flores o orvalho dos seus olhos.
Eduardo Valladares, moralmente sobreexcitado, lia as cartas e, diga-se a verdade, encontrava n’ellas um como refrigerio ministrado por mão do anjo da guarda; por momentos se tranquillisava com as esperanças a que o estava convidando o ánimo apparentemente tranquillo de Maria Luiza.
Durava apenas momentos, como dissemos, a acção benefica da leitura. Após aquelle instantaneo repouso, rugiam de novo as mesmas tempestades e era então o revolver se no mesmo leito de Procusto, em desesperadora ancia. O que elle claramente via n’esses angustiosos momentos era o infernal dilemna que comprimia a sua vida entre dois estiletes rubros de fogo maldito:—Succumbir ou rebellar se.
Succumbir era amortalhar se na batina do sacerdote; dilacerar o coração, dia a dia, hora a hora; despenhar em abysmo insondavel as mais formosas visões do céo da sua mocidade; separar-se d’ella, da mulher adorada, para nunca mais aspirar o perfume dos seus labios, e não só separar-se mas tambem infelicital-a; e depois passar sereno e tranquillo, aconselhando esperança, por entre os que se ajoelhassem para beijar-lhe a fimbria da batina. Rebellar-se era ter de fugir, levando para toda a parte o remorso de haver envenenado a tranquillidade do lar paterno; era ter de abandonar o anjo que na linguagem dulcissima do Céo lhe pedia que ficasse; era dar á sociedade o direito de insultar as suas dores mais santas; era finalmente faltar á promessa, que fizera, de esperar resignado o momento em que chovesse do Céo o refrigerio que só o Céo podia ministrar em tão difficil conjunctura.
Ficou pois; como havia promettido.
Approximam-se as férias do Natal de 1852 e Eduardo Valladares denunciou vontade de não vir ao Porto, pretextando trabalhos escholares, especialmente o de redigir duas dissertações.
É que se não via com a coragem precisa para abeirar-se de sua mãe sem revelar os segredos que lhe corroíam o coração, sem lhe dizer que tudo quanto parecia sujeição voluntaria era sacrificio de victima impotente, e sem lhe attribular para sempre as horas que á boa senhora corriam remançosas ao lado do marido.
Em meado de dezembro, n’uma quinta-feira que amanhecia radiosa como para descoalhar as neves que alvejavam nas agulhas das serranias, especialmente no Gerez, Eduardo Valladares deixou-se ir, de rua em rua, absorto nos pensamentos que lhe preoccupavam o espirito.
Ao desemboccar no Campo de Sant’anna, sahiu-lhe ao encontro um seminarista seu condiscipulo, um tal Mendonça, natural de Guimarães, talento contubernal de homens devassos nos alcouces bracharenses, brigão de emboscadas nocturnas, que seguia a carreira ecclesiastica para acobertar com a batina as ulceras d’uma alma devastada pelo vicio.
A approximação d’este sujeito façanhoso, que apregoava, chanceando-se, as repugnantes aventuras de sua chronica, entediava sobremodo Eduardo Valladares, o qual pensava, ao vêl-o, na maneira por que a sociedade costuma encarar o padre que sacrifica a propria felicidade aos pés de Deus, e o padre cujos dedos empeçonhados da lepra do crime devem macular a alvura do amicto.
Eduardo Valladares pensava n’isto e conhecia que a sociedade não levantava entre um e outro barreira que pudesse distancial-os, para que a lama, levantada na passagem do mau padre, não fôsse salpicar a face do sacerdote exemplar.
Esta distancia conservava-a Eduardo Valladares no seu espirito, que é unicamente onde se pode distinguir vicio e virtude quando é uso confundil-os e tomal-os um pelo outro só para se não castigar o vicio nem premiar a virtude.
N’aquella dolorosa introversão do seu espirito, via se Eduardo Valladares já sacerdote, offerecendo todos os dias a Deus no calix do sacrificio a vida que lentamente lhe arrancavam e, como se isto não fôsse provação de sobra, via-se tambem exposto aos chascos da sociedade que insulta um raro exemplo de virtude, quando elle apparece, por estar habituada a encontrar a torpeza, a cada hora, nas praças como nos templos.
Corroendo a arvore sacrosanta do evangelho, regada pelo suor dos virtuosos cultores e mimosa dos cuidados d’elles, descobria o ominoso áspide, o verme da reacção, que contramina a obra piedosa e envenena com a baba immunda os fructos que puderam ser opimos, damnificando a colheita. Quando apparece o modêlo das verdadeiras virtudes evangelicas, quando surge, de longe a longe, um Frei Domingos do Amor-Divino, a sociedade, na maxima parte, repelle-o e vitupera-o e apedreja-o irreverentemente.
No dia em que o religioso carmelita sahira a mendigar de porta em porta para a viuva e para os quatro orphãos, não muitos, como já dissemos, foram os corações que se abriram ao benefico influxo d’aquelle espectaculo edificante. Muitos o repelliram com desamor e remoques d’esta laia:
—Que peça para um, que já não é pouco. A gente não tem obrigação de sustentar as familias dos frades pobres e devassos...
E Frei Domingos sahia, com a sua velhice e com a sua humildade, chamando mentalmente o medico divino para o coração empedrenido.
O seminarista de Guimarães abeirou se de Eduardo Valladares com rude familiaridade:
—Ó homem! estava longe de te encontrar aqui! Tão recatado vives, que não ha pôr-te a vista senão á hora da aula! Ora dize-me uma coisa. Tu levas isto a sério ou usas de santimónias de Tartufo?
O filho do bacharel fitou com admiração o de Guimarães e ponderou entre delicado e digno:
—Não comprehendo, como desejava, a referencia da palavra isto. Tens a bondade de m’a explicar?
—Isto, replicou Mendonça desfechando uma gargalhada, isto, é a alienação do direito de ser homem, que a sociedade nos quer impor, a nós, os que seguimos a vida ecclesiastica; isto, é a investidura ridicula da batina; isto, é a tonsura com que nos cerceiam os cabellos emparelhando-nos aos scelerados que estigmatisavam nos logares publicos; isto, é este assentamento de praça na milicia sagrada, que não pode deixar de ter as liberdades de todas as milicias...
—E isso, o que tu disseste, replicou Eduardo Valladares, é a linguagem desbragada do soldado que veste as armas, não para militar pela causa que jurou, mas unicamente para ter direito á pilhagem...
—Santimónias de Tartufo, bem dizia eu! Olha que nem tu nem eu havemos d’enriquecer com a pilhagem. E d’ahi, pode ser que tu chegues a fazer casa... Quantas missas tencionas dizer por dia?
Eduardo Valladares ia denunciar o asco que lhe estava causando aquelle falar licencioso, quando um maltrapilho, que passava, bateu familiarmente no hombro de Mendonça e apostrophou:
—Ó homem! eu dormi quatro horas e tu não havias de dormir muitas mais! Perdi tudo... A sorte negou-se, e deixou-me a tinir!
Eduardo Valladares foi seguindo seu caminho, sobremodo entendia da approximação d’aquelle repulsivo caracter. O de Guimarães e o maltrapilho ficaram conversando e revendo provavelmente as paginas ascorosas da historia d’uma noite passada em qualquer espelunca de jôgo.
O filho do bacharel foi seguindo sempre pelo Campo de Sant’Anna adeante e, transposta a egreja de S. Victor, sentou-se no caminho desfrequentado a olhar para o arvoredo que ao de leve ondulava na encosta do Bom Jesus. Ahi, n’esse cogitar em si mesmo, passou duas horas que tanto tiveram de tribulação como de doçura. N’aquelle seu ermar havia um misto d’esperança e desespêro, que praza a Deus que os que hoje se julgam felizes nunca possam comprehender.
O leitor, que se defrontou já com o perfil respeitavel de Frei Domingos do Amor-Divino, ponha os olhos no reverso da medalha, n’este seminarista de Guimarães, que já cem vezes ou mais deve ter levantado com mãos impuras o calix que Frei Domingos offerecia a Deus todos os dias, e depois volte a pagina e leia o capitulo seguinte para restituir á sua alma as doçuras religiosas que os labios de nossa mãe coáram aos nossos ouvidos quando nos ensinaram as primeiras orações.