XV

Sebastião Valladares fez egualmente reparo na partida precipitada do filho e consultou o coração da mulher, que por ser de mulher e de mãe devia adivinhar e lançar luz sobre o que aos olhos do bacharel se afigurava mysterio. D. Adozinda serenou o ánimo do marido com estas placidas palavras:

—Desvarios nem o genio lh’os tolerava, nem os podia ter que lh’os não soffria meu pae. Quando Deus quer, temos amores, e não vejo n’uns amores dos dezeseis annos sombra de tempestade que possa inquietar-nos.

—Talvez seja isso, respondeu o bacharel. Olha que receio todavia por este rapaz, cujo temperamento, por demasiadamente ardente e delicado, se me afigura perigoso. O nosso filho tem grande inclinação á poesia e, como se não bastasse versejar, dá indicios de vir a sentir como verdadeiro poeta. Ha certas almas que, em vez de se repartirem pelo mundo exterior, tiram de si mesmas, á semelhança do pelicano, a seiva com que alimentam a propria vida. Ora o Eduardo, que me parece ter nascido fadado para eguaes destinos, precisava de ter a seu lado um conselheiro mais eloquente e menos severo que teu pae.

—Dizes bem.

—Até já me lembrei d’escrever ao Rodrigues, que é meu amigo desde a emigração, e que tem coração e intelligencia de sobra para mentor d’um espirito febricitante.

São precisas algumas palavras d’explicação. Sebastião Valladares, natural de Vianna, havia completado o curso universitario quando, perseguido por suas idéas politicas, teve d’emigrar em 1828. A esse tempo contava elle vinte e cinco annos e tinha, sacrificado o coração, nas aras do amor, á senhora que, annos depois, desposara. João Nicolau de Brito possuia uma quinta, sombreada de copado arvoredo, á ourella do rio Lima; foi ahi que o bacharel Valladares vira, em dezembro de 1827, a formosissima dama bracharense, e foi d’ahi que se amaram.

Compellido a emigrar, Sebastião Valladares vizinhou em Rennes de Almeida Garrett e de Manuel Rodrigues da Silva e Abreu. Ahi, nas angustias do destêrro, se estreitaram os laços que os deviam prender toda a vida. Em 1832 voltaram á patria os saudosos emigrados: Manuel Rodrigues da Silva e Abreu era nomeado official do governo civil de Braga; Almeida Garrett voltava á politica e á litteratura; e Sebastião Valladares casava e abria banca d’advogado no Porto.

João Nicolau era affeiçoado á causa absolutista e n’isto vae a razão da sua entranhada sympathia por José Agostinho de Macedo. Aos ouvidos do proprietario bracharense soavam continuamente aquelles dois enthusiasticos versos da Viagem extactica:

No meio do clarão veio no throno

Cercado d’esplendor Miguel Primeiro.

João Nicolau apenas consentiu no casamento quando as instancias da esposa, estremosa pela filha, e o caracter decisivo da lucta civil não lhe permittiram resistir por mais tempo. Quando porém admittiu á sua presença o bacharel, disse-lhe de sobr’ôlho carregado:

—Pode levar minha filha, se a quizer sem dote. Não sou rico e os meus padecimentos obrigam-me a despesas constantes; não posso desviar o que tenho. Em eu morrendo, e minha mulher tambem, levem tudo, que tudo lhes pertencerá então.

Com o decorrer do tempo foi-se diminuindo a distancia respeitosa que separava sogro e genro, a ponto de João Nicolau tomar sob sua responsabilidade a educação do neto.

Postas estas explicações, voltemos ao anno de 1851 em que se passa este caso que vimos historiando.

Sebastião Valladares conservava com os seus dois amigos e correligionarios os estreitos laços d’amizade vinculados ao coração nas horas melancholicas do exilio. Almeida Garrett escrevia-lhe frequentes vezes. O bacharel, quando abria as cartas assignadas por João Baptista, costumava dizer:

—Os amigos que se adquirem na desgraça são os verdadeiros.

Manuel Rodrigues da Silva e Abreu estava a esse tempo exercendo o cargo de primeiro bibliothecario da Bibliotheca de Braga[4]. Dos tres amigos era o bacharel Valladares o menos favorecido da fortuna, mas não era o menos venturoso. Recusou sempre a protecção que os seus amigos lhe offereciam, nomeadamente Almeida Garrett. Costumava dizer o bacharel:

—Trabalho todo o dia para viver, mas adormeço á noite tranquillo, e vivo escondido do mundo. O Garrett, tanto o Garrett politico como o Garrett litterato, tem soffrido que farte. Não lhe invejo a sorte.

Tres annos depois, em 1854, expirava o reformador da litteratura portugueza; e só então, cerrado o tumulo, principiava a ser julgado como devia, no tribunal da posteridade, o que tanto merecera da patria e tamanhas injustiças colhêra na sua esplendida carreira.