XVI

O bacharel Valladares escreveu a Manuel Rodrigues da Silva e Abreu solicitando a graça de allumiar com bom conselho a estrada em que o inexperiente estudante arriscava os primeiros passos da sua mocidade.

O bibliothecario de Braga, coração sem mancha e intelligencia distinctissima, acolheu o moço com a amenidade de tracto que lhe era peculiar. Eduardo Valladares, terminadas as aulas, subia ordinariamente á bibliotheca onde o velho amigo de seu pae estava labutando em azafama continua, e sobremodo se deliciava á sombra d’aquella arvore vetusta meio tombada para o chão.

O auctor d’este livro reiteradas vezes teve a felicidade de, na sala da bibliotheca bracharense, ouvir a palavra sempre fluente e amena de Rodrigues Abreu. Infundia respeito ver levantar-se aquelle busto venerando, coberto de cans, d’entre montões de livros a que elle chamava a sua familia. Uma vez bibliothecario, empenhou-se afanosamente pela causa da bibliotheca. Não se cansou de pedir os indispensaveis melhoramentos materiaes, dos quaes o primeiro era inquestionavelmente maior espaço para a conveniente arrumação de preciosos livros que jaziam a monte. A sua voz clamou no deserto e nem a palavra auctorisada de tão respeitavel varão nem repetidos artigos da Revista Universal Lisbonense lograram obter despacho favoravel.

Como se este constante e baldado empenho não fôsse canseira de sobra, Rodrigues d’Abreu entregava-se a trabalhos de bibliotheconomia e chegou a publicar sobre este assumpto um opusculo que denominou Novidades bibliotheconomicas.

Para daguerreotyparmos o homem, que já hoje é da historia, aproveitemos os traços caracteristicos que nos offerece o sr. Soares Romeu Junior: «... Era alto de estatura, rosto claro e comprido, nariz proeminente, olhos escuros e a fronte espaçosa, coroada de alvissimas cans.»

Do escriptor diremos apenas que trasladou o Eliezer, de Florian, a versos portuguezes, dos quaes o leitor pode avaliar o sabido quilate pela apreciação que de tão notavel obra fez no Panorama[5] o sr. Alexandre Herculano.

Consagradas estas poucas linhas á memoria de Rodrigues d’Abreu, prosigamos em a nossa narrativa.

Eduardo Valladares refez o seu espirito, nas horas feriadas de canseiras amorosas, em proficua leitura que lhe ministrava Rodrigues d’Abreu. Se levantava os olhos dos livros era para os fitar na imagem radiosa que lhe flammejava auroras no coração; e como quer que os livros substanciosamente doutrinarios tenham o seu tanto de agri-doces, Eduardo repousava da leitura nas amenidades do amor.

O bibliothecario bracharense, quando escrevia ao bacharel Valladares, costumava dizer-lhe: «O teu filho é uma perola, mas receio pela felicidade d’um espirito que, em tão verdes annos, tamanhos merecimentos revela. Já que me arvoraste em medico espiritual, direi que o seu temperamento requer brandura.»

No fim do anno lectivo de 1851 a 1852, Rodrigues d’Abreu abraçou jubiloso o estudante que sahia premiado das aulas preparatorias.

Decorrido tempo, no fim de setembro de 1852, Eduardo Valladares subiu á sala da bibliotheca evidentemente sombrio, a ponto de inspirar sobresalto ao seu velho e dedicado amigo.

—Recebi ordem terminante de meu avô para me ir matricular no Seminario, e o meu coração não pode resistir ao supplicio que esta resolução lhe impõe, disse com accento melancholico Eduardo Valladares.

Na casa da rua do Carvalhal ouvia-se a esse tempo a voz atroadora de João Nicolau clamando:

—Amanhã vae o rapaz matricular-se no Seminario. Lá o Rubicon do lyceu, vencido está. Agora vamos a vêr como se sae da theologia, que sempre é coisa mais séria...

—É pois chegada a occasião de reflectires maduramente, respondia D. Maria d’Assumpção. D’esta decisão depende o futuro de teu neto, e não deves ser precipitado. É conveniente pensar.

—Já pensei e tornei a pensar. Está dito, está dito. Vae matricular-se no Seminario.

—Sondaste lhe porventura a vocação? Quem sabe se lhe repugnará o futuro que tu despoticamente lhe preparas, homem?

—Despoticamente! Essa agora é muito boa! Pois é despota quem faz um beneficio?

—Não digas beneficio. De quem ha de vir a ser tudo o que nós temos, pouco ou muito, senão d’elle ou dos paes?

—Quem sabe o que Deus fará, mulher? O que é que nós temos? Algumas propriedades em Braga e uma quinta em Vianna! Olha a riqueza! E se vier uma doença prolongada não havemos de gastar quanto fôr preciso? Lá do Sebastião tenho pena, por que não é mau rapaz, á parte o ter desembarcado em 32 com não sei quantos outros mindelleiros que vinham estropeados a ponto de mal poderem com a arma ás costas! Por isso é que mandei vir o rapazinho, e já que o pae m’o confiou posso pôr e dispôr á minha vontade.

—Reflexiona, homem de Deus, reflexiona.

—Mas que destino queres tu que se dê ao rapaz? Pensas que temos dinheiro para o mandar a Coimbra? Olha que um patrimonio fica em conta, mas uma formatura compra-se a peso d’ouro. E demais a mais fica-nos aqui debaixo da vista, e pouco será o que houvermos de gastar em livros. Está decidido. Amanhã vae matricular-se no Seminario.