XVII

Estamos em novembro de 1852.

Na alameda da Mãe d’Agua respira-se no ar balsamico a suavidade d’uma primavera perpétua.

Após dias de cerrada invernia, mostra se no formoso céo do norte este sol esplendido de Portugal, que é a delicia de nacionaes e extrangeiros.

Esperava-se por um dia alegre e sereno para remoçar o espirito, cansado da monotonia da chuva.

D. Maria d’Assumpção tinha falado n’um passeio ao Bom Jesus logo que o tempo estiasse; as meninas Machados receberam, por escripto, participação do alvitre e applaudiram-n’o sobremodo.

Lampejaram n’um domingo clarões de formosissima aurora; deu-se rebate e preparou-se alegremente o rancho.

João Nicolau subiu a montanha abordoado á sua bengala de canna da India, galhofando com ares de sincero e expansivo contentamento. Eduardo Valladares parecia, ao contrário de todos, entre concentrado e triste. O avô olhava para elle de soslaio e dizia de si para si:—«Lá vae o rapaz com a maldita poesia!»

D. Maria d’Assumpção, que de sobra conhecia as angustias do neto, pensava compadecida:—«Pobre martyr!»

Maria Luiza reprimia no coração dolorosas tempestades, e desabrochava nos labios um sorriso que daria fel bastante para muitas lagrimas.

Cêrca do meio dia, Eduardo Vallares e Maria Luiza puderam encontrar-se na Mãe d’Agua.

Foi dolorosamente triste o mudo dialogo d’uns olhos que, n’um momento de silencio, resumiram as mais pungentes expansões.

Olharam-se, e não puderam articular uma unica palavra. Decorreram alguns momentos que valiam seculos d’angustia. O filho do bacharel Valladares pôde alfim dominar a commoção que lhe estrangulava a voz na garganta.

—Esperava por este momento anciosamente, disse elle. Escrevi-te, procurei no écho da tua alma um allivio para os meus infortunios, mas escrever-te não bastava. Era preciso ver-te, ouvir-te, escutar-te. Ha dois mezes que eu abafo no coração a procella do desespêro. Oh! Dá-me um raio d’esperança para eu não morrer, dize-me ao menos que me amas para que eu tire das tuas palavras a coragem que me falta. Ha dois mezes que eu esperava a hora de poder escutar a tua voz como a alma condemnada aos tormentos do purgatorio deve esperar o momento de subir, expurgada das suas culpas, á bem-aventurança do Céo. Oh! isto é horrivel, meu Deus!

A pobre menina tremia agitada pela convulsão dos nervos, e sentia fugir-lhe a voz e a vista.

—Dilacera-me o remorso, continuou elle com violenta commoção—dilacera-me o remorso de ter acorrentado a tua alma angelica ao poste da minha desgraça. Sacrifiquei a tua alegria, a tua tranquillidade, o teu futuro, a tua vida ao egoismo do meu coração. Amar-te não bastava? Quiz tambem ser amado, e despenhei-te, anjo innocente, das paragens remançosas onde te libravas descuidosa e tranquilla. Quiz tambem ser amado e impuz á tua alma o sacrificio de exgottar o calix da amargura ao tempo que o teu amor dulcificava os filtros celestiaes que me embriagavam. Perdôa-me, oh! perdôa-me, por que o meu amor era immenso, indomavel, e eu preferia morrer, a ver desfeita a minha esperança, a ver desabar o meu sonhado paraiso...

—Se te perdôo! murmurou maviosamente Maria Luiza. Perdôa-me tu, que é por mim que tu soffres...

—Ah! interrompera a elle de golpe. Pois é certo que me perdôas? Que importa então que imponham á minha alma um futuro que ella não pode acceitar! O escravo, o humilde, o servo de gleba ha de erguer-se soberbo da riqueza da sua alma, e repellir a mão que ao mesmo tempo empresta um futuro que nos repugna e exige como hypotheca a felicidade de duas existencias consubstanciadas n’uma unica. Irei trabalhar para onde a sorte me levar; procurarei em toda a parte o que me vendiam aqui a trôco de lagrimas, mas terei no meu coração a dulcissima alegria da esperança, da esperança que me queriam roubar para me garantirem a felicidade material da vida, como se a vida sem a esperança não fôsse uma ironia cruel e deshumana! Irei, é preciso fugir...

—Fugir! fugir! Dize antes que me queres roubar a consolação de compartilhar as tuas angustias. Fugir e deixar-me sósinha, entregue á minha saudade, á minha desventura, ao meu desespêro! Dize antes...

—Cala-te, por alma do anjo que morreu beijando-te, cala-te. Peço-t’o eu.

—Fugir! E querias assim despedaçar as ternas cadeias que nos prendem um ao outro, só para alimentares no coração a esperança de reatal-as um dia?

—Perdôa-me, que eu fui cruel, porque me enlouqueceu a dôr. Não te ver, não te ouvir! E poderia eu viver? Iria morrer longe de ti, anjo do meu coração, sem ouvir na hora derradeira, á beira do meu leito, o murmurio das tuas orações...

—E depois, com que profundissimas dôres não irias despedaçar o coração estremoso de tua mãe! com que maldito tormento não irias infernar a velhice de teu pae e levar a desgraça á serenidade alegre da tua casa!

—Comprehendo a nobreza da tua alma, anjo. Agradeço-te por mim, por minha mãe, por meu pae, por Deus. Ficarei. Acceitarei resignado o sacrificio que me impõem e appellarei para a Providencia, que vela por todos os desgraçados. Juro-te que serei submisso.

—Obrigada. Pertence-me metade das tuas afflições e como poderia eu luctar com o destino se me faltasses tu a dar-me alento nas horas attribuladas da nossa commum desventura?

—E has de soffrer tu, santa do martyrio, que merecias a felicidade na terra? E hei de eu ser teu algoz, eu, que te amo até á loucura? E hei de eu ser teu algoz e sacrificar a tua alma immaculada, exigindo que soffras, que chores, que morras na lenta agonia dos desgraçados, só por que eu tambem agoniso, e choro e soffro? E não ha de Deus escutar-nos e não ha de o céo condoer-se das nossas afflicções! Oh! sinto na minha alma a labareda maldita do inferno!...