Carta do snr. Alexandre da Conceição ao author
Ill.mo amigo.
Na ultima das suas Cartas do Inverno[5], nas quaes o meu amigo tratou, com a sua habitual delicadesa d'estylo, a interessante questão do temperamento d'alguns dos nossos mais populares escriptores, vem lá uns piparotes á mathematica e aos mathematicos que eu não posso deixar passar sem reparos.
Saio pela honra do meu convento. Proponho-me demonstrar-lhe que as chamadas sciencias exactas não são tão destituidas de riquezas poeticas como o meu amigo apregôa e muita gente acredita, e que nas litteraturas de todos os tempos e de todos os paizes—veja que ambições de erudição as minhas!—não ha{74} concepções nem mais grandiosas nem mais sublimes do que nas mathematicas.
Combatendo-lhe a sua antipathia pela sciencia das quantidades, tenho ainda em vista atacar o preconceito, entre nós infelizmente vulgarissimo, de que o estudo das mathematicas esterilisa a imaginação, mata o sentimento artistico e torna o espirito pesado e sorna como a quarta pagina do Times.
Não ha com effeito estudantinho de lyceo que tenha lido, em traducção mascavada, os Tres Mosqueteiros ou a Menina do 4.º andar, que se não julgue victima da mais cruel das tyrannias paternas quando se lhe impôe a obrigação de estudar um poucochinho do Manso Preto ou do Sousa Pinto.
Conheci no meu tempo d'estas victimas imberbes do romantismo fazerem gala de serem reprovados em mathematicas elementares, para se darem ares de Esproncedas em promessas, de Byrons em projectos, de rapazes esperançosos, de moços cujo talento se não podia amoldar, pela grandeza e pela impetuosidade, aos estreitos limites da arithmetica, da algebra ou da geometria.
É verdade que depois estes interessantes mocinhos demonstraram ter na mesma conta da arithmetica tudo o que os obrigasse a duas horas de trabalho sério, e iam a final, cobertos de rapozas e inutilisados physica e moralmente pela devassidão e pela ociosidade, parar aos corredores das secretarias d'estado, ás ante-camaras dos ministros ou ás salas de espera{75} dos influentes eleitoraes mendigando um emprego publico, onde podessem emfim applicar a sua actividade gasta nos prostibulos, nos cafes e nos passeios publicos.
Assim como ha porém intelligencias com aptidão singular e admiravel para a comprehensão das sciencias exactas, ha tambem boas e prestadias intelligencias, e d'esse numero é a do meu amigo, que tomam á conta de repugnancia invencivel pela mathematica o que n'essas intelligencias é apenas amor e enthusiasmo por outra ordem de verdades. O Julio de Castilho dizia-me em Lisboa, com aquelles seus ares candidos e virginaes de pintor biblico da renascença, que não comprehendia como eu, que fazia versos, conseguira encarar nas mathematicas sem ficar logo alli empedrado de horror. Elle, como o meu amigo, quando lhe disseram que havia de estudar arithmetica, parece que escreveu uma apologia apocalyptica do suicidio e que esteve meio resolvido a ir esconder o seu asco aos numeros no fundo do Tejo. Deixe-me fallar-lhe ainda de mim para demonstração d'uma verdade acima enunciada. Eu quando principiei a estudar mathematicas tinha o espirito azedo e derrancado com a leitura d'uns detestaveis romances francezes que por ahi andam na mão de todos os meninos e meninas. Aterrado com o desimaginoso estylo do 1.º tomo do Francoeur disse de mim para mim, para me desculpar da propria mandriice, que o meu talento não nascera para digerir taes bagatelas e alistei-me galhardamente{76} na numerosa ala dos mergulhadores, meus condiscipulos e consocios na guerra ao estylo do filho espurio da grande actriz Lecouvreur, segundo contam as más linguas. O resultado d'este meu incipiente mau gosto litterario foi perder o anno, poupando assim o snr. Pinto d'Aguiar ao trabalho de me premiar a loureirice com tres rapozas, vêr com muita inveja e muito desgosto de mim proprio parte dos meus condiscipulos alcançar com a approvação o premio dos seus esforços, ir para ferias grandes com uma cara tola de homem que se reconhece inutil e mandrião aos proprios olhos, e, por sobre tudo, apresentar-me a meu pai, que tanto me estremecia, com a consciencia de lhe ter roubado perto de trezentos mil reis, que fui tirar ao patrimonio sagrado de minhas irmãs, sem receber d'elle uma reprehensão, o que era o peor de todos os castigos.
Senti-me deveras e profundamente abjecto diante de mim mesmo.
Em outubro voltei ao Porto e comecei a estudar regularmente n'esse anno e nos que se seguiram, até completar a minha educação profissional. Nunca porém me pude vêr livre completamente dos maus habitos adquiridos na convivencia da mocidade imaginosa e revolucionaria, que me fôra companheira das tolices do primeiro anno. Ainda hoje estou combatendo essas influencias de romantismo futil e estouvado que nos tem para cá vindo nos enxurros da litteratura franceza.{77}
O precioso tempo que gastei a fazer versos e folhetins, com que nem eu nem as letras ganhamos pouco nem muito, podia tel-o empregado bem melhor a estudar conscienciosamente o que hoje me vejo obrigado a compulsar de novo, para não exercer a minha profissão do mesmo modo que fiz o papel de poeta e de folhetinista.
Com a propria experiencia pois lhe afianço que o estudo das mathematicas nem esterilisa a imaginação nem atrophia o sentimento artistico. Deixe-me dizer-lhe mais: Das grandes manifestações do espirito humano só a musica me tem causado tão intimas sensações de contentamento, de felicidade interior e de enthusiasmo como as que experimentei com as mathematicas, apesar de as haver estudado superficialmente e de apenas lhes ter entrevisto a sublimidade e a elevação. Lastimo-o se nunca sentiu os jubilos intimos, o puro contentamento que se apodera de nós quando chegamos á posse plena d'uma verdade mathematica. É então que se comprehende bem que o homem não vive sómente de pão mas de verdade. Sente-se a gente orgulhoso d'este orgulho fidalgo de pertencer á nobre familia dos seres que tirou do fundo do seu espirito taes sublimidades.
E depois, meu amigo, que idéa se ha-de fazer da arte, se fôrmos apregoar que as sciencias exactas, que é onde a verdade mais luminosa se apresenta, são inimigas irreconciliaveis da poesia? Em que conceito se ha-de ter a litteratura, se se acreditar que ella odeia{78} o rigor logico dos raciocinios, a actividade energica e regalada do espirito, os exercicios olympicos da intelligencia? Victor Hugo diz no prefacio de não sei qual dos seus livros que a algebra é uma poesia. É um acerto isto. Diz-se tambem que as mulheres da Africa dão a comer aos filhos coração de leão para os tornar robustos e corajosos. O coração do leão para o espirito é o estudo das mathematicas. Não ha nada mais sadio nem mais nutritivo.
É uma atmosphera de verdade onde a alma humana respira a pleno peito o ar da vida. É a agua lustral que nos lava dos preconceitos da educação, e que nos levanta o entendimento áquella altura d'onde se não podem já enxergar umas certas cousas mesquinhas e tolas que ahi andam ataviadas com os ouropeis da phantasia, e que são tão futeis e tão ridiculas, como os interesses que sustentam.
Nas sciencias mathematicas ha sobre todos um ramo, com o qual, no meu entender, não póde competir nem em grandeza nem em sublimidade poetica nenhuma outra ordem de conhecimentos humanos; é a Astronomia. Galileu, Kepler, Newton e Laplace são poetas de mais alto cothurno que Homero e Shakspeare e Goethe e Victor Hugo. Não grite á d'el-rei contra a blasphemia litteraria; olhe que é verdade isto que lhe digo. Se tirar aquelles grandes vultos da sciencia a imaginação, o enthusiasmo, a intuição prophetica da verdade, as allucinações do ideal, este exaltado lyrismo que o amor sofrego da verdade produz{79} nas intelligencias privilegiadas, se lhes tirar todas estas qualidades de espirito que fazem os grandes poetas, reduz-me aquelles homens á craveira vulgar de quatro mathematicos mais ou menos obscuros, mas não m'os eleva nunca á altura de espiritos creadores, de genios, de poetas finalmente.
Que litteratura ha no universo que possa sustentar as pretenções de possuir uma obra litteraria capaz de se medir em grandeza de concepção e em sublimidade de idéas com a theoria da attracção universal de Newton ou com a hypothese sobre a formação dos mundos de Laplace?
Que nome senão o de poeta quer o meu amigo dar a um homem como Leverrier que encontra um planeta desconhecido e nunca visto por olhos humano na ponta da sua penna, fechado no seu gabinete de trabalho? Diga-me: se fosse millionario não pagaria por bem maior preço os calculos originaes de Leverrier do que o autographo mais precioso do Dante?
E não me diga que esta poesia da sciencia só é accessivel aos espiritos iniciados n'ella. Reuna em volta de si duas ou tres mulheres de talento e de gosto litterario, lêa-lhes o melhor trecho do Hamlet, o melhor canto do Inferno, a melhor composição da Lenda dos Seculos, e depois faça-lhes uma exposição singela do systema dos mundos, narre-lhes a historia da descoberta da velocidade da luz ou conte-lhes o prodigioso romance do apparecimento no mundo da sciencia do planeta Neptuno, e verá qual das cousas as deixou{80} mais allucinadas, se a poesia dos versos ou da palavra, se a poesia dos mundos ou da sciencia.
Em si, que é um espirito serio e estudioso, não quero eu vêr no seu horror as mathematicas mais do que um gracejo de folhetinista; mas é que nós padecemos d'uma profunda doença social que se revela muito n'esse desprezo pelos estudos serios, n'esse fastio pela verdade singela, pela logica vigorosa e pelos methodos de raciocinio verdadeiramente scientificos. Nutra-me o espirito publico de conhecimentos exactos, de methodos seguros de raciocinio, e ha-de vel-o não se contentar tão facilmente com os sonhos com que o andam por ahi embalando os especuladores da causa publica, todos estes prudentes da occasião que trazem os principios chumbados ao marmore da rotina, que teem a consciencia adstricta á gleba dos empregos publicos, e toda a alma enfeudada aos preconceitos da opinião do maior numero. Olhe que é seria esta questão. Dê-me á França mais mathematicos e menos romancistas, mais arithmetica e menos versos, e Sedan é impossivel e os incendios de Paris serão irrealisaveis. A victoria é o resultado da superioridade dos vencedores; mas a superioridade dos vencedores suppõe a inferioridade dos vencidos.
O espirito serio e pratico da nova Allemanha havia de mais tarde ou mais cedo derrotar o genio romantico e futil da França contemporanea. Era uma guerra fatal aquella com um resultado previsto ha muito. Pergunte por isto ao snr. Pedro d'Amorim Vianna,{81} que talvez o encontre disporto a dizer-lhe umas cousas sublimes que elle sabe, apesar de saber tambem mathematica como poucos.
E, já que tem a felicidade de ter uma filha, meu amigo, ensine-lhe a admirar Soares de Passos, e em Soares de Passos a poesia O Firmamento, cuja inspiração elle foi beber a um dos ramos d'essa vasta sciencia dos numeros, que muita gente suppõe arida e esterilisadora como um livro de conta corrente. Depois nutra-lhe o espirito com o alimento sadio e robusto das verdades scientificas; leve-a pela mão aos grandes templos da vida moral; ensine-lhe a historia, que é a epopêa da humanidade; ensine-lhe a geologia, que é a historia da terra; ensine-lhe a astronomia, que é o poema heroico do universo. Diga-lhe que por baixo da lousa fria do tumulo, onde lhe mandar esparzir rosas de saudade, ha apenas os restos inertes d'uma cousa grande, que é o homem; a alma d'esse homem, essa, que a não procure n'esses restos, mas no proprio espirito d'ella, na memoria das suas boas acções, na recordação, que ella deve ter sempre viva da sua dedicação á familia, do seu amor ao trabalho, da sua paixão pelo estudo, da sua coragem nos revezes, da sua modestia nas alegrias, do seu respeito á virtude, da sua aspiração ao bem, do seu culto ao bello, das suas qualidades como esposo, como pai e como cidadão, pois que n'essa recordação na alma ingenua d'uma filha vai a melhor immortalidade a que um homem honrado pode aspirar.{82}
Creio que abusei muito da sua paciencia, não abusei? Que quer?... custou-me ouvir-lhe dizer mal das mathematicas.
Não torne, olhe que eu estou de atalaia, e então ai da sua paciencia.
Até lá e sempre creia-me
seu amigo e admirador,
Bragança, 22 de Janeiro de 1871.
Alexandre da Conceição.{83}
[5] As paginas antecedentes sahiram com este titulo em folhetins do Jornal do Porto, de dezembro de 1871 a março de 1872.