Resposta do author ao snr. Alexandre da Conceição
Meu bom amigo:
Fez-me a honra de replicar amavelmente ao ultimo d'estes despretenciosos folhetins que tenho publicado no Jornal do Porto sob o titulo de Cartas do Inverno, e eu apresso-me a responder-lhe para inteira conservação das nossas relações amigaveis e litterarias.
Sahiu o meu amigo pela honra do seu convento, levantando umas ligeiras insinuações com que eu não esperava offender a mathematica e muito menos melindrar um só mathematico.
Enganei-me, e em boa hora me enganei, porque a sua carta significa para mim uma honra, posto que immerecida, bem vinda, e porque me apraz digladiar com luctador assim digno como leal.{84}
Foi seu proposito mostrar que a mathematica não póde deixar de ministrar á litteratura o vigor logico do raciocinio, quer dizer, o machinismo scientifico de que se serve o homem para chegar ás convicções profundas. E cita o meu amigo uma pleiade d'homens illustres que foram ao mesmo tempo grandes mathematicos e grandes poetas, uns titães celeberrimos que se levantaram a uma altura a que não poderam chegar os gigantes da fabula.
Falla-me de Galileu, de Kepler e de Laplace. Não me falle d'esses, que foram os poetas da mathematica, que viveram embriagados no lyrismo da sciencia, e que por uma privilegiada intuição souberam deletrear as bellezas infinitas da epopêa dos astros. Não me falle dos grandes genios da astronomia, sciencia quasi divina, porque estuda o céo.
Herschell, cuja vasta intelligencia passou pelo baptismo da musica, antes de se remontar ás eminencias olympicas, tem no firmamento um epitaphio eterno para o qual não ha honras nem grandezas comparaveis. O rei Jorge III, que lhe fez mercê d'uma pensão da trezentos guineus e de uma vivenda no burgo de Slough, quasi concedeu um galardão irrisorio ao homem que devia ter o céo por tumulo e Uranus por epitaphio. Estas são as aguias audazes que roçaram as azas pela tela azul do firmamento, visitando os archipelagos de mundos, que, na phrase do materialista Buchner, infinitamente distantes uns dos outros, povoam o immenso deserto das alturas. D'esses não fallava{85} eu, porque os respeito tanto, quanto me é vedado conhecel-os. Fiquem estes e outros mathematicos para logo; fallemos por agora da mathematica.
Eu não nego nem discuto que a mathematica seja um instrumento da verdade; assumpto é esse estranho á minha competencia e ao meu intento. Se o fizesse, poder-me-hia encostar a talentos sobremodo abalisados;—a Hobbes que escreveu contra a certeza da sciencia que se tinha á conta de mais certa; ao padre Castel que falla n'este diapasão: «Em geral estimam-se muito ás mathematicas. A geometria tem verdades nebulosas, objectos vagos, pontos de vista vaporosos. Por que dissimulal-o? Tem paradoxos; apparencias de contradicção, conclusões de systema e de concessão, opiniões de seitas, conjecturas e paralogismos»; a Buffon, finalmente, que ponderou que as verdades mathematicas se reduziam a entidades d'idéas, e eram baldas de realidade. Se eu lançasse mão d'esta arma, movido de proposito ou convicção, responder-me-hia o meu amigo com numerosas e respeitabilissimas opiniões tendentes a encarecerem a verdade mathematica. Alardeariamos sciencia, mas não passaria a cousa d'uma cegarrega causticante para o leitor e para nós.
Não combati o estudo da mathematica nem combato; cada um estuda o que quer ou o que póde. Peço vista ao meu folhetim que despertou a sua replica. Não aconselhei tambem a leitura da mais edificante novella de preferencia ao mais arido compendio d'arithmetica. O que eu fiz foi penitenciar-me publicamente{86} do meu desamor aos numeros e, como eu sou d'uma sinceridade rude, permitti-me dizer que dormiria mais descansado o somno da morte, se minha filha, em vez de assignalar a minha sepultura com uma lousa numerada, levasse frequentes vezes ao meu cómoro um ramo de flôres. Isto é o que o meu amigo não póde nem deve discutir, apesar da sua vasta intelligencia, que eu aprecio na devida conta. É licito a cada um dizer como quer ser sepultado. O meu testamento, no que respeita a esta disposição, é publico.
Os estudantinhos que o meu amigo conheceu com o espirito derrancado pela leitura de romances de má doutrina e peor linguagem, não são uma creação do seu espirito. Eu tambem os conheci, e ainda conheço muitos, infelizmente. Ora esses nem têem amor á litteratura nem á sciencia. São uns vadios, que andam malbaratando as economias dos paes e pegam no compendio para pretexto de passeio até ao lyceu, e n'um romance para engalharem o somno, espavorido com a excitação da saturnal.
Eu sei que não escureceu o seu animo a idéa de se referir á minha pessoa. Faço-lhe inteira justiça e correspondo á sua amizade. Todavia algum leitor menos benevolo poderia ver n'isso uma allusão encapotada. A esse, não a si, digo eu que, não tendo merecimentos litterarios para reivindicar, não estou disposto a desapossar-me da unica qualidade boa que, como homem, me pertence,—o amor ao trabalho. Os meus amigos conhecem-n'a e respeitam-n'a. Sinto-me{87} então contente, e mais ainda quando, ao romper da manhã, vejo do meu gabinete, ao tempo que nem fumegam as casas visinhas para a refeição matinal, a canceira com que um moinho de vento proximo vai rasgando o nevoeiro com os seus quatro braços alvejantes. A essa hora, quando ainda não martelam as officinas nem estrondea na rua o pregão dos bufarinheiros, os unicos trabalhadores que estão despertos, é o moinho e sou eu. Basta isto.
Uns estudantes ha ahi, e sempre houve, que desestimam as sciencias exactas, mas que são grandes em differentes ramos d'estudo. Esses só sahem incolumes do exame de geometria,—quando sahem—depois de longo soffrimento para domarem temporariamente a inclinação natural do seu espirito d'elles.
Lembra-me citar-lhe um que tenho á conta de grandissimo poeta;—é Gonçalves Crespo, o author das Miniaturas.
Bom é que haja sempre aptidões diversas; só assim poderá florescer um estado.
Os que como o meu amigo começaram por poetar gentilmente e acabam «por combater as influencias do romantismo futil e estouvado» são raros.
Felicito-o sinceramente pela perseverança com que procura expurgar os velhos habitos, os quaes se me não afiguram tão nocivos como o meu amigo suppõe, antes, a meu vêr, eram mais um titulo de respeito para a opinião que geralmente se fórma da sua intelligencia.{88}
Alguma cousa porém lhe ficou dos seus passados amores com as letras, a despeito das mathematicas,—foi o estylo que naturalmente resalta da sua penna com estimavel donaire.
Não perdeu tempo nem trabalho, e muito mais se conseguiu, como acredito, alliar as louçanias da phrase aos conhecimentos d'um mathematico estudioso.
Voltemos porém aos mathematicos.
Em duas classes os divido eu; mathematicos-artistas e mathematicos-operarios.
Os primeiros, aquelles de que o meu amigo me fallou, são os que entenderam em assumptos de telhas acima, os que procuraram a poesia da mathematica nos mundos que pendem sobre as nossas cabeças e que estão narrando a gloria de Deus, no dizer da escriptura.
Um só defeito tiveram alguns d'elles, a meu vêr. Foi o ensoberbecerem-se tanto com a gloria n'aquelle seu adejar nos páramos do céo, que julgaram Deus uma cousa ociosa e superflua. Subiram tão alto, que se lhes afigurou impossivel haver alguem que os sobrepujasse.
Lalande proclamava que tendo estudado o céo não encontrara por lá vestigios de Deus. Laplace dizia a Napoleão que se no seu systema de mechanica celeste não tinha fallado de Deus, era só porque não urgira d'essa hypothese.
São maneiras de vêr.
Á segunda classe dos mathematicos, taes como eu{89} os distingo, pertencem os executantes, os que não sabem da sciencia mais do que o que está n'uns compendios sobremodo aborrecidos; d'uns que não dispensam a esponja para os seus calculos, porque a esponja lhes absorve os erros frequentes; que se apresentam com a vã magestade de regulos em sciencia e fazem do radio uma especie de ferula com que martelam na lousa para intimidar os alumnos que andam perdidos na abstrusidade da explicação do professor; finalmente d'uns que zombam de todos e de tudo o que não fôr a mathematica que elles versam, e que nada acham prestadio tirante a sciencia dos numeros. Estes são os que eu detesto, porque matam muita aptidão nascente com grandes doses de pastelão algebrico, como ia acontecendo ao Garrett, se elle não tivesse o bom senso de lhes fugir com o seu talento.
Estes taes podem ser equiparados na profundidade da sciencia, não pelo que toca a extensão, a uns homens obscuros, mais prestimosos e menos inchados que elles,—os guarda-livros. Uns praticam a mathematica dos lyceus, os outros a das casas bancarias. Praticam-n'a todos os dias; por isso desempenham correntemente as operações arithmeticas que lhes commettem. Mais nada.
«A algebra, disse o adoravel Garrett, é bom contraveneno para os empeçonhados de poesia; mas hade ser dado com geito e tento. Quiz-me fazer engulir doses muito grandes, não me pôde o estomago com ellas.»{90}
Ora eu estava empeçonhado, mas não me pôde o estomago com as doses do contraveneno, e como para chegar á poesia da mathematica era preciso desbravar a semsaboria dos prologomenos, fiquei sem conhecer os mathematicos do quinto andar e desandei pela porta fóra. Esta distincção que eu faço entre mathematicos, parece que tambem a fazia o Chateaubriand. Sempre é bom valer-se a gente de authoridades. Dizia elle no Genio do Christianismo:
«Todavia não será talvez difficil pôr d'accordo os que declamam contra as mathematicas e os que as preferem a tudo o mais. Esta differença d'opiniões vem do erro commum, que confunde um grande com um habil mathematico. Ha uma geometria material que se compete de linhas, de pontos, de A+B; com tempo e perseverança, um vulgarissimo espirito póde entrar por ella dentro com galhardia.
«É então uma especie de machina geometrica que executa de per si operações complicadas, como a machina arithmetica de Pascal. Nas sciencias, o ultimo que chega é o que melhor se instrue; eis-aqui porque qualquer collegial do nosso tempo esta mais adiantado que Newton em mathematicas; esta é a razão, porque tal que hoje é tido á conta de sabio será acoimado de ignorante pela geração futura. Azoinados com os seus calculos, os geometras-machinas teem um desprezo ridiculo pelas artes de imaginação; sorriem de compaixão quando se lhes falla de litteratura, de moral, de religião; conhecem, dizem elles, a natureza. Não{91} será para adorar-se a ignorancia de Platão, que chama á natureza uma poesia mysteriosa?»
Ha uma applicação da mathematica, que, com quanto se me não afigure poetica, não merece que se maldiga, porque é util: a geodesia. Essa professa o meu amigo, e tanto não me parece poetica a convivencia com o jalão e a fita metrica, que foi capaz de emmudecer a lyra das suas Alvoradas. Um tio meu, que passa por engenheiro distincto, Frederico Augusto Pimentel, conserva na sua bibliotheca muitos volumes de boa litteratura, que adquirira em estudante, mas eu quando o visito em Braga ou o encontro a braços com o pantómetro ou annotando o seu livro Manual do apontador.
Com referencia a mathematicos disse o que tinha a dizer.
Reportemo-nos agora a outro ponto da sua carta.
Deus me livrara, ainda que me fosse possivel, de fazer leituras d'astronomia a mulheres.
Estou d'accordo com Rossely de Lorgues, que fixa a origem da impiedade no reinado em que as mulheres, a conselho de Fontenelle, estudavam Euclides e discutiara Newton e Leibnitz, á roda de Maupertuis, no jardim das Tulherias.
Ora estas sabenças d'alto cothurno, que se conversavam nas cêas do barão d'Holbach e nos jantares de madame de Tencin, levaram a mulher franceza ao desvergonhamento, a que só póde ser cauterio a verdadeira{92} religião; não a religião das missões e dos missionarios, mas a religião de Deus.
O proverbio popular desconfia da mulher que sabe latim; eu desconfio da mulher que sabe mais do que latim. Quero instrucção para a mulher, grito por ella; mas ha-de ser uma instrucção rosada, loura, como as mais formosas tranças, casta, pura, limpida.
Para isso era preciso fazer compendios especiaes, delicados e prudentes. Da historia de Portugal, por exemplo, seria conveniente dramatisar as legendas dos heroes que se sacrificaram pela patria. Teem as mulheres imperiosa necessidade de conhecel-os, para soprarem ao animo dos filhos as primeiras sementes do amor nacional. Agora as negruras d'umas rainhas e d'uns principes, que mancharam a nossa historia, bom seria que ellas as não soubessem nunca. De mathematica desejo eu que as mulheres saibam correntemente as quatro operações elementares. É o que minha filha ha-de saber, e afigura-se-me que o marido de minha filha abençoará algum dia a discrição com que eu a hei-de educar.
É debalde que o meu amigo me aconselha n'este ponto. Cada um governa o que é seu, e eu, a despeito do seu claro entendimento, meu caro Conceição, não lhe hei-de ensinar a ella a «historia, que é a epopêa da humanidade», mas unicamente da historia o preciso para ella não aborrecer a humanidade.
Não quero que a pobresinha entre no mundo pela porta do tedio.{93}
Eu não entrei, porque, quando examinei os quadros negros, tinha a alma educada para o sentimento do bem pelos amorosos conselhos de minha mãi. Isto não é dizer que a maxima erudição seja a maxima desmoralidade. Não; eu quero que a instrucção seja para quem a póde professar, e que se estude quando se deve estudar.
É meu proposito que minha filha não ande pelas salas a fazer discursos de varia historia ás meninas da sua idade.
Os livros que eu escrevo, como ella os ha-de lêr um dia, não levam doutrina que a faça corar de pejo, por usar o nome que lhe lega o author d'aquellas novellas.
Não fallemos mais de minha filha, que dorme no berço os sonhos auriluzentes da primeira infancia. Não quero passeal-a na imprensa, depois de a ter roubado ás caricias de sua mãi.
Aqui tem, meu caro Conceição, o que se me offerece dizer-lhe.
Peço-lhe que me releve uma ou outra falta que tenha commettido, e creia-me sempre,
amigo dedicado e sincero discipulo,
Porto, 1 de fevereiro de 1872.
Alberto Pimentel.{94}
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