Segunda carta do snr. Alexandre da Conceição ao author

Ill.mo amigo.

Uma declaração antes de mais nada: Agradeço ao seu bom senso e á sua lealdade o ter-me feito a justiça de não vêr uma allusão pessoal e indelicada no esboço que fiz do estudantinho ocioso e devasso, que detesta a geometria, com o falso pretexto de que os talentos originaes e impetuosos se não podem sujeitar ao jugo affrontoso do calculo. Não podia lembrar-me de si quando tentava aquelle esboço, primeiro: porque seria isso uma grosseria incompativel com a minha educação; segundo: porque o aprecio muito como escriptor e como poeta; terceiro: porque o estimo deveras como amigo e como homem, pois que lhe reconheço o talento, a elevação do caracter, o amor ao estudo e a dedicação ao trabalho.{96}

Posto isto como mordaça aos malevolos ou aos futeis, e não como elogio com que eu queira pagar-lhe as finezas que me dirigiu na sua carta e que eu lhe agradeço com a plena consciencia de que as não mereço senão á sua amizade e não á sua critica esclarecida, entro na replica ao seu folhetim, sobre o qual temos muito que conversar.

Com o seu espirito alado e inquieto de folhetinista toca o meu amigo na sua ultima carta n'umas poucas de questões, qual d'ellas mais importante, que eu lhe não posso levantar todas, porque me não sinto com competencia para tanto, porque me não sobra tempo e porque isso tomaria proporções assustadoras para a redacção e para os leitores d'este jornal, que não póde ser condescendente commigo até ao ponto de arriscar a sua boa reputação.

Creio que o meu amigo leu a minha primeira carta um pouco preoccupado, ou que eu, por falta de aptidão e uso, expuz confusa e desastradamente o que tinha na mente dizer-lhe. Opto pela segunda hypothese, por me parecer a mais racional e por estar mais de accordo com os factos e com o conceito em que eu tenho os meus merecimentos litterarios, cuja pequenez no entanto recommendo a commiseração do seu espirito ás vezes tão finamente epigrammatica. Assignar-se meu discipulo!... Eu, seu mestre!... Em que? Não lhe perdôo a graça e obriga-me a praticar alguma inconveniencia, se a repete: envio-lhe o Serret pelo correio, pois que não tenho a consciencia de poder ensinar-lhe{97} regularmente mais cousa alguma; e não me discuta isto, que não soffre discussão seria.

Vou pois vêr se condenso em dous ou tres periodos umas idéas mal expostas no meu primeiro folhetim e que o meu amigo ataca, porque as tomou pelo que ellas não são, mal entrajadas como ellas se lhe apresentaram.

A minha sincera admiração pelas mathematicas nunca me cegou o entendimento até ao ponto de eu não vêr mais nada fora d'ellas, de suppôr que abaixo das mathematicas tudo é futil e inconsistente e acima d'ellas tudo sonhos e illusões. Creio que ha salvação possivel fóra da minha igreja, e que para divisar uma face á verdade não e absolutamente indispensavel saber dirigir um equatorial para a estrella 2151.ª da Popa do Navio ou para a alpha do Centauro. O que digo e sustento, em quanto o meu amigo me não convencer do contrario, é que o estudo das mathematicas e a familiaridade com os seus methodos seguros, ou pelo menos cautelosos, de raciocinio, não póde por fórma alguma ser prejudicial ao desenvolvimento de qualquer das nossas aptidões intellectuaes, e que sendo a litteratura e em geral a arte um dos muitos caminhos que levam o espirito humano ás atlantides do ideal, é licito acreditar que tudo o que tenda a elevar-nos o espirito, a robustecer-nos a alma e a esclarecer-nos o entendimento ha-de tambem desenvolver-nos as faculdades poeticas e o sentimento artistico. Este o argumento à priori, como se diz na logica. O argumento{98} à posteriori está nos exemplos, que lhe citei na minha primeira carta, de grandes mathematicos que foram tambem homens de muita imaginação e de muito enthusiasmo, sendo estas mesmas qualidades as que os tornaram grandes mathematicos. Responde a isto o meu amigo com a sua theoria dos mathematicos-artistas e dos mathematicos-executantes, theoria que, a meu vêr, se póde formular do seguinte modo: Ha mathematicos seccos de espirito, estereis de imaginação e baldos de todo o senso artistico, logo foi a mathematica que os fez mirrhados e massadores. Se ha grandes mathematicos com imaginação e sentimento, esses são espiritos por tal fórma privilegiados que resistiram ás influencias esterilisadoras dos numeros e do calculo.

Afigura-se-me sophistica esta sua argumentação, porque a ser verdadeira teremos de classificar de esterilisadora a influencia de todas as outras sciencias, incluindo a litteratura, e de massadores todos os primeiros litteratos do mundo, todos os nossos escriptores de mais segura e duradoura reputação; por exemplo: Garrett, que para manejar a lingua patria com aquella graça, facilidade e atticismo, que nós todos lhe admiramos, havia de folhear e compulsar muito bacamarte classico e soporifero; Alexandre Herculano, que para escrever aquelle poema do Eurico teve forçosamente de deletrear muita somma de pergaminho safado e roido, muita chronica bolorenta, muito livro indigesto; Antonio Feliciano de Castilho, Camillo Castello-Branco,{99} Theophilo Braga e alguns outros, que para subirem ás alturas, onde nós hoje os contemplamos com admiração, tiveram indispensavelmente de estudar e de meditar muito livro somnolento, e nem por isso lhes ficou lá o espirito, nem o talento, nem a graça, nem a espontaneidade; muito pelo contrario, foi ahi, n'essas monumentaes semsaborias da nossa litteratura classica que elles se robusteceram em graça, em talento e em originalidade.

Um mathematico cabeçudo e massador é tão massador como um jurisconsulto caturra e formalista, como um medico charlatão e pretencioso, como um padre fanatico e obscurante, como um professor ignorante e embirrento.

As caturrices dos jurisconsultos, o charlatanismo dos medicos e a ignorancia dos padres não podem provar nada contra a poesia da jurisprudencia, contra a grandeza da medicina ou contra a sublimidade da religião.

Parece-me, pois, senão demonstrado, pelo menos não destruido pela sua argumentação, que, em principio, o estudo das mathematicas não faz nem póde fazer mal algum ao gosto litterario ou á aptidão poetica.

Deixe-me dizer-lhe ainda: É convicção minha, e creio que de muito boa gente, que o espirito moderno deve á vulgarisação dos estudos mathematicos as mais solidas e as mais brilhantes das suas conquistas.

Não lhe fallo já da civilização material do nosso{100} seculo, para cujas maravilhas a mathematica cooperou com a melhor parte: quero fazer-lhe notar sómente a benefica influencia dos estudos mathematicos no espirito scientifico do nosso tempo. A mathematica não inventou por certo nenhuma theoria physiologica, não ditou nenhum tratado de direito publico, não descobriu um unico corpo simples ou a composição de qualquer corpo composto, não acrescentou um só versete aos Evangelhos; mas tem, pela benefica influencia dos seus methodos, do seu genio rigoroso e justo, do seu espirito verdadeiramente scientifico ajudado a expulsar das outras sciencias muito espantalho com fóros de verdade; muitas tolices com ambições de acertos, muitas hypotheses absurdas e lorpas com reputação de principios incontestaveis. E com isto tem ganhado todas as sciencias, incluindo a moral, que deve ao espirito logico e robusto das sciencias exactas, aquella austeridade de principios, aquelle stoictsmo de conclusões, que são as feições caracteristicas da philosophia contemporanea; com isto tem ganhado a litteratura, que se despe d'aquelles modos scismadores e langorosos, d'aquelles ares meditativos e lunaticos de virgem pallida e incomprehendida para se tornar em esposa forte e affectuosa, que nos consola nas amarguras, que nos alegra nas tristezas e que nos robustece nos desalentos, que nos melhora, que nos eleva, e que nos instrue. É porque a poesia ainda se não compenetrou bem d'estas verdades, que ella está representando na sociedade o papel secundario que representa.{101} Como explica o meu amigo este palpavel desamor da opinião publica pela poesia? Não nota que a sociedade contemporanea não quer que lhe fallem em versos; e que os não lê e que vira a pagina do jornal ou do livro onde os versos lhe appareçam? A culpa d'este desamor deve imputar-se por inteiro á sociedade ou aos versos?... É a sociedade que está acima dos versos, ou a poesia acima da sociedade? Ha depressão no sentimento moral e artistico da sociedade ou ha abaixamento no nivel intelectual da poesia? Eu creio que a culpa, posto que lhe caiba em parte, cabe menos á sociedade do que á poesia. Isto porém é uma questão para largos desenvolvimentos, e eu não quero terminar esta minha carta, que já vai escandalosamente massadora, sem lhe levantar outras duas questões que o meu amigo toca no seu folhetim.

A que chama o meu amigo impiedade?... Ás conquistas do espirito analytico do mundo moderno, á reforma, á revolução de 93? Á philosophia raccionalista, ao livre exame, aos direitos do homem? Á critica historica, á exagese biblica, a toda esta febre de investigações que trabalha a alma do seculo XIX e que lhe faz bater apressado no pulso o sangue riquissimo da vida? Chama a isto impiedade, ou entende por impiedade uns ralhos de sachristia em que andam ahi envolvidos os irmãos das confrarias? Chama impio ao catholico mr. Thiers, que deixa ir pela agua abaixo o poder temporal de sua santidade, e orthodoxo ao actual bispo de Orleans que se arreda de mr. Littré como de{102} um leproso? Diga-me o que seja para si impiedade, que eu tenho visto abusar-se tanto da palavra e da idéa que ella representa, que me não admira vêr appellidar de impio qualquer dia o proprio cardeal Antonelli ou até o snr. marquez d'Avila e Bolama.

O meu amigo parece tambem pensar que o seculo XVIII foi immoral por excesso de sciencia nas mulheres, e impio—volta a terrivel palavra!—por excesso de philosophia nos homens. Mas onde é que está isto demonstrado? Em Chateaubriand, que se esqueceu de metrificar o Genio do Christianismo, unica qualidade que falta ao livro para poder ser recitado ao piano? Mas quando e onde é que a sciencia e a philosophia fez mal a alguem e principalmente a uma sociedade? Quando e onde é que fez bem e elevou e moralisou e instruiu a ignorancia, o absurdo, o preconceito, a rèvèrie? Mas então voltemos aos cilicios, aos jejuns, aos conventos, á inquisição, á idade media. Nego com toda a força das minhas convicções, nego com todos os insignificantes recursos da minha intelligencia que a immoralidade tão apregoada da sociedade franceza do seculo XVIII tenha nascido no palacio de Rambouillet; nego que a impiedade—não me deixa esta maldita palavra!—do tempo dos encyclopedistas, seja o resultado do amor pela philosophia. São absurdas taes supposições perante os principios, são illegitimas perante os factos, são calumniosas perante o meu pouquissimo conhecimento da historia.

Agora a questão magna do seu folhetim, a educação{103} da mulher. Sobre este ponto sinto dizer-lhe que nem comprehendo como o meu amigo, cujo bom senso e intelligencia eu tanto aprecio, não quer para a mulher a maxima instrucção, que dá em regra, a maxima elevação moral; não, para todas as mulheres, a instrucção professional de que precisa o medico, o jurisconsulto, o estadista, o engenheiro, o professor de universidade, mas esta instrucção geral, completa e solida, que dá aos espiritos a maxima amplitude de vistas, ao entendimento a maxima robustez, á alma a maxima grandeza moral, ao coração a maxima bondade, pela comprehensão do direito, pelo sentimento profundo do dever.

Quer o meu amigo para a mulher uma instrucção rosada e transparente como uma meditação suspirosa de Lamartine; não lhe quer ensinar da historia senão o sufficiente para que ella se não faça beata, pelo horror aos seus similhantes, ou Lucrecia Borgia, por imitação ou por amor aos envenenamentos; não lhe quer ensinar astronomia porque receia que ella ande pelos bailes a perguntar aos cavalheiros que a comprimentam ou ás amigas que a abraçam, qual seja n'esse momento a declinação austral do planeta Saturno ou em que phase está o quarto satellite de Jupiter! Eu, francamente, não lhe sei responder a isto. Se o meu amigo tivesse dito, clara e cruamente, que quer a mulher como nossa mãi Eva, ignorante como uma barroza de capucha de pardo, entendia-se; era um systema ou uma convicção, a que eu tributaria todos{104} os respeitos que me merecem as convicções sinceras; mas dizer-me que quer para a mulher uma certa meia instrucção, que não vi que désse nunca mais que petulancia, mau senso e bacharelice ás mulheres que a possuem, porque lhes excita a curiosidade sem lh'a satisfazer, porque as não deixa na completa ignorancia, que as obriga á modestia do silencio, nem lhes dá á instrucção regular que produz a sensatez, dizer isto é estar a fazer versos quando se trata de formular claramente um principio, e responder com a aria final da Traviata ao X de uma equação algebrica. Não posso pois acreditar na solidez das suas convicções sobre este ponto, e peço-lhe que, antes de me replicar, se me quizer dar tal prazer, leia o admiravel livro de Ernesto Legouvé—Histoire morale des femmes. Se elle o não convencer, eu perco as esperanças de o levar a fazer melhor juizo dos beneficios da instrucção e do espirito da mulher.

Creia-me

muito seu amigo,

Braganca, 7 de fevereiro de 1872.

Alexandre da Conceição.{105}