II
A. P. Lopes de Mendonça
Ha phrases que envolvem uma prophecia, conceitos despretenciosos que parecem sahir do intimo da alma como um presentimento que de repente assalta o escriptor no remanso do gabinete.
A pag. 324 das Memorias de litteratura contemporanea, de Lopes de Mendonça, encontro eu estas palavras:
«Ha vocações, que reproduzem os prodigios das sibyllas antigas. Prophetisam involuntariamente sobre a tripode, e deixam-se arrastrar pelo enthusiasmo das suas proprias palavras. O joven poeta não cantava, sómente para que as turbas se deixassem commover pela harmonia dos seus cantos: cantava porque lhe ardia no peito um fogo devorador, porque a sua alma{18} ébria e palpitante, lhe accendia a imaginação, e como lhe intimava que traduzisse aos outros a magia dos seus sonhos, o fervor dos seus desejos, o esplendido irradiar da sua esperança.»
É certo que os verdadeiros talentos, as almas privilegiadas para a gloria e para o martyrio, reproduzem os prodigios das sibyllas e prophetisam involuntariamente.
Lopes de Mendonça escrevendo as Memorias d'um doido prophetisava tambem.
Aquelle immenso talento, febril, audaz, infatigavel, sabia que as organisações como a sua resistem corajosamente a lucta social até perderem a vida ou a razão.
Mauricio, o seu heroe, é o que geralmente se chama um doudo sublime,—que pensa, que joga, que ama, que aborrece, que porfia, que se sacrifica, que obedece fatalmente á excitabilidade do seu temperamento.
«Arremessado aos quatorze annos no tumulto da capital,—escreve Lopes de Mendonça—tivera de se sustentar, como Rousseau, do trabalho machinal do copista, e na estreiteza e improbas fadigas de tal profissão, póde entregar-se ao estudo. Lendo avidamente a historia, sobretudo a historia moderna, já a sua intelligencia penetrára em todos os problemas da politica, e a acção dos acontecimentos que se succediam com uma variedade propria das quadras revolucionarias, amadureceu a sua precoce experiencia.»
Tal era Mauricio, tal era Lopes de Mendonça. O{19} verdadeiro artista tanto quer á sua obra, que procura animal-a com a parte psychologica da propria individualidade.
D'aqui o encontrar-se frequentemente o author reproduzido no heroe.
A politica, a idéa fixa e a maxima aspiração de Lopes de Mendonça, que transpirava sempre nos seus livros e nos seus folhetins, não podia ser indifferente a Mauricio.
«Mostrára a sua vocação,—continúa Lopes de Mendonça—escrevendo alguns pamphletos, cheios de energia, e de vivacidade pittoresca. Lançára-se na critica implacavel de medidas que elle suppunha timidas e incompletas, porque reconhecera a distancia que o separava dos mediocres vultos, que dirigiam os negocios publicos.
«Apreciando, pelo que lêra, o que devia ser um homem d'estado, via os que governavam desperdiçando as fôrças d'uma situação excepcional em questões de mesquinha influencia, e nas intrigas, que manchavam todas as obras, grandes ou pequenas, da politica.»
Está claramente photographada n'estes periodos a ancia, a febre, a aspiração, o espirito de justiça e verdade, a coragem, o esforço, a persistencia de Lopes de Mendonça.
Queria elle,—aquelle espirito poderoso—que sahisse da espuma da revolução a verdadeira liberdade politica como tinha sahido—Venus moderna,—a verdadeira liberdade litteraria.{20}
E propunha-se os graves problemas da administração, e planeava as grandes medidas que correspondem ás grandes necessidades d'um paiz, e queria levantar sobre as bases da justiça e da moralidade todo o edificio do regimen liberal, e queria realisar em si o ideal perfeito e quasi impossivel d'um homem d'estado, e queria apartar do centro da acção politica as pequenas individualidades que prejudicam a marcha dos acontecimentos no interesse da patria, e ao mesmo tempo mantinha digna e corajosamente a revolução litteraria que se havia iniciado, e escrevia os seus livros, e sustentava durante onze annos o folhetim da Revolução de Setembro, e cumpria os encargos litterarios da academia real das sciencias de que era socio e bibliothecario, e versava os trabalhos parlamentares na legislatura de 1855, e desempenhava o magisterio, e queria saber, precipitar o tempo para adquirir o que só o futuro lhe podia ensinar, e lidava, pensava, trabalhava, para ter de sobreviver á ruina da propria intelligencia.
Cavou a si mesmo o tumulo, onde o contemplamos alguns annos meio vivo, meio cadaver.
«Lia, annotava,—escreve Julio Machado—commentava todos os livros, lidando desde o romper da manhã, dormindo duas horas apenas, e lastimando essas duas horas perdidas.
«Andava preoccupado, andava triste e inquieto. Haviam-lhe mentido todos os seus oraculos d'outr'ora, e já não acreditava mesmo em si proprio. Tornou-se-lhe{21} tudo escuro em redor. Não tinha uma venda nos olhos, mas principiou a tel-a na alma. Os seus amigos inquietaram-se do estado em que o viram. A extrema actividade de espirito perturbou-lhe a acção cerebral, mas a lealdade do seu caracter generoso nem então se desmentiu; imaginava-se rico, altamente collocado, offerecia-nos dos seus haveres, e instava para que aceitassemos.
«No breve intervallo que mediou da revelação d'esse estado á sua reclusão, comprou livros por toda a parte, muitos livros, todos os livros que encontrou. Mas, a essa hora já estava perdido.
«As faculdades da sua intelligencia haviam-se adulterado e estalaram como as cordas d'um instrumento[2].»
Estava irremediavelmente perdido,—estava louco; tinha morrido para a familia, para a sociedade, para a patria, e todavia vivia ainda em Rilhafolles. O seu estylo cadente, cheio, fogoso, elegante, a par da sua linguagem ás vezes incorrecta, denunciava para logo um temperamento nervoso-sanguineo.
A exaltação dos pensamentos, as scintillações differentes e successivas, a variedade febril dos tons, a riqueza caprichosa do colorido, a escolha variada dos assumptos, e até as mesmas imperfeições revelavam ao physiologista litterario a organisação de A. P. Lopes de Mendonça.{22}
Nas Memorias d'um doudo, tudo é febril, tudo escalda, tudo denuncia o homem.
Lopes de Mendonça era realmente uma organisação de artista que participava da vivacidade cerebral do temperamento nervoso e da animação caracteristica do temperamento sanguineo. Era um escriptor modelado pela definição em que Emilio Deschanel procura daguerreotypar o artista: «Temperamento rico, sensibilidade ardente, imaginação fecunda, ao serviço d'um coração generoso, d'um bom senso delicado e d'uma razão elevada.»
Elle mesmo, o infeliz Lopes de Mendonça, apreciando um escriptor contemporaneo, definia o artista:
«Todo o segredo d'esta excitabilidade intellectual reside, não nos poupamos a repetil-o, em que é artista, completa e essencialmente artista. A sua razão philosophica, é mais d'uma vez desvairada pelos caprichos da sua phantasia. E todavia, o escriptor é logico, é racional e concludente, em cada uma das posições que alternativamente occupa. Hoje, reflectido e maduro, elevado ás austeras e mornas regiões do homem de estado, apresenta os mais sensatos alvitres, expõe os problemas com a mais fina e lucida critica, e corta os obstaculos, resguardando e salvando os interesses, percebendo todas as conveniencias, pesando todos os conflictos da opinião, e apalpando o terreno social como dextro e instruido estrategico.
«Ámanhã, desempedido e solto n'uma questão puramente litteraria, n'um ponto moral ou metaphysico,{23} vê-o-heis enthusiasta d'um brilhante paradoxo, comprazer-se em destruir as idéas recebidas, em ferir as convicções consagradas, e fazendo taboa rasa do criterium publico, pôr os recursos do seu talento ao serviço da sua impressão instantanea[3].»
Eis-aqui Lopes de Mendonça, segundo as suas mesmas palavras; eis aqui o artista. A sua vida foi uma serie de congestões, um incendiar-se lentamente nas labaredas que lhe requeimavam o coração e o cerebro. Tinha sonhado com a gloria, algumas vezes a entrevira, era festejado, era querido, tinha ganhado os primeiros lugares, tinha entrado nas primeiras salas, e elle, que tinha resistido á lucta, á insomnia, ao trabalho, sentiu-se desfallecer quando a lava da ultima congestão seccou, e para sempre, os louros da sua corôa.
Em toda a sua vida houve apenas um momento de tranquillo repouso,—foi o ultimo. Julio Machado, fallando da extrema dedicação da esposa de Lopes de Mendonça, escreve com a mimosa delicadesa que lhe é peculiar: «Um dia, ultimamente, elle sorriu-lhe. Os medicos disseram que ia salvar-se talvez. Ia salvar-se, ia. Ia morrer!»
Não havia já o crepitar das chammas, porque d'aquella volcanica combustão restavam apenas as cinzas d'um cerebro; o sopro da morte espalhou-as.
Acabou-se tudo.{24}
Alli agonisou nos braços da esposa carinhosa, esquecido da sociedade que mais d'uma vez o acclamára festivamente e que mais d'uma vez o apunhalára na couraça onde resvalaram todos os golpes dos detractores impotentes.
Julio Machado escreve ainda no seu ultimo e interessante livro—Da loucura e das manias em Portugal, fallando dos doudos de Rilhafolles:
«Lá esteve um, famoso e illustre, o mestre do folhetim em Portugal, e sua esposa alli foi todos os dias vêl-o e fazer-lhe companhia,—colhendo no céo a palma do combate terrestre e vendo sorrir-se para ella e abraçal-a meigamente aquelle ente querido, que havia representado um dos primeiros talentos d'esta terra, e que parecia, lucidamente, dizer-lhe com a vista que deve um dia ser feliz na eternidade a alma que n'esta vida teve dedicação pelo infortunio!»
Do homem que a fatalidade arrojou para os abysmos da loucura resta apenas um epitaphio;—pouco é, e transitorio. Mas de Lopes de Mendonça, do escriptor todo fogo e todo alma, todo colorido e sentimento, resta alguma cousa mais duradoura que o seu epitaphio,—os seus livros, nos quaes o physiologista poderá estudar largamente a vida impetupsa d'um temperamento nervoso-sanguineo.{25}
[2] Trechos de folhetim, pag. 128.
[3] Memorias de litteratura contemporanea, pag. 328-329.