III
J. C. Vieira de Castro
Se o leitor entrasse na sala do parlamento portuguez durante as mais animadas sessões da legislatura de 1865 a 1866 e ouvisse trovejar do alto da tribuna uma voz sonora, cheia, precipitando-se em inflexões caprichosas e febris, que para logo denunciavam certa irritabilidade fogosa e violenta, facilmente adivinharia, sem o descortinar, um orador de temperamento nervoso-sanguineo, em plena virilidade, ebrio da gloria, que, de triumpho em triumpho, o impellira até ás regiões do olympo parlamentar.
Na sessão do dia 13 de Janeiro de 1866, por exemplo, em que se discutia o projecto de lei sobre a liberdade de imprensa, apostrophava o orador a que nos referimos:{26}
«É licito perguntar com um notavel estylista da França: «Que temem os governos da imprensa livre?»
«A guerra da discussão? Mas ao contrario lhes deve lisongear o seu amor proprio, e a sua dedicação patriotica, porque lhes rasga vastos plainos ás victorias de suas doutrinas e de seus principios!
«Guerra de injuria? Pois soffram-n'a, que é para isso que são homens publicos. Se pelas eminencias do poder não houvesse senão estradas de flôres, de triumphos e de victorias, aonde estariam as provas da sua abnegação e do seu merito? E tanto lhes havia de doer a injuria que lhes arrancasse um grito contra a liberdade?
«Guerra de epigramma? Mas diz Pelletan, e diz bem, que os homens de estado devem ser fortes de coração e de cabeça, não ter a sensibilidade de nervos d'uma petite-maitresse, e fazer mesmo a epiderme robusta para as affrontas!
«Guerra de calumnia? Mas os governos teem ao seu lado a magistratura judicial e a magistratura popular para afogarem as calumnias nas gargantas dos calumniadores! Fiemo-nos da magistratura e da sua vigilancia. Ella é como a mulher de Cesar; está acima de toda a suspeita. E aproveito a primeira occasião do meu discurso em que posso render a esta classe a minha mais profunda homenagem de respeito e culto. Com a franqueza do meu caracter o digo, senhores; quando desalentadamente atiro com os olhos para tanto rebaixamento moral da minha patria, com orgulho vejo{27} e com orgulho contemplo as togas da nossa magistratura ainda impollutas com os seus sacrarios ao lado!»
Mezes antes, na sessão de 19 de novembro de 1865, o mesmo orador propunha uma mensagem de sentimento ao parlamento inglez pela morte de lord Palmerston, e discursava sobre a proposta:
«Verdadeiros heroes... e perdôe-me a memoria de José Estevão se eu penso que os ha, e perdôe-me ella ainda mais se é exactamente, comparando-os aos rochedos no oceano, que elles me parecem maiores e mais sublimes!
«Penso assim, e quando por muitas vezes hei meditado n'aquella celebrada imagem d'esse grande e inspirado orador, sempre me tem parecido que o mais digno de admiração n'aquelle atrevimento oratorio, é a modestia sublime de José Estevão. É que para mim no confronto dos heroes com os rochedos, não perdem aquelles por nenhuma sombra. Bem sei que se a irregularidade ás vezes monstruosa da sua estructura póde ser um defeito para a arte; é ella tambem, e sempre, o involucro esculptural das almas fadadas para as grandes tempestades, e dos corações baptisados desde o primeiro dia na onda dos grandes martyrios! Os rochedos, os heroes topetam com as nuvens que teem por cima; lambem-lhes os pés as vagas da opinião humilhada e abatida, e além cançada de se espedaçar contra elles; e estendem os seus braços, que não vergam nunca, aos naufragos cuspidos já quasi exanimes d'essas vagas, como se fossem elles os destinados pela{28} impassibilidade da sua força, pelo seu contacto com a luz immensa, e pela sua proximidade da praia, a retemperarem a tibieza dos fracos, a reaccenderem o entendimento dos desesperados, e a apontarem o porto de salvação e das novas esperanças aos que a resaca do primeiro commettimento ia prostrando e sorvendo no pégo!
«Tudo isto era tambem José Estevão, e porque se arreceasse aquella sublime modestia de que uma vez lh'o conhecessem, por isso elle dizia mal dos rochedos!
«E depois os rochedos não cahem nunca! E são tambem assim os heroes; nem cahem quando morrem!
«Os heroes morrem de pé!
«Morrem de pé!
«Foi assim que morreu lord Palmerston. E tanto foi assim que elle morreu, que expirando aos oitenta e um annos de idade, a Inglaterra correu desvairada ao seu jazigo, accusando aquella morte de prematura para o seu partido e para o seu paiz.»
Quando o sceptro da eloquencia tribunicia resvalou das mãos inertes de José Estevão, era opinião geral da gente portugueza que tarde, ou talvez nunca, uma nova palavra, de tal modo ardente e scintillante, despertaria os echos adormecidos da camara electiva.
Mais d'uma penna authorisada manifestou publicamente que a phalange gloriosa dos oradores parlamentares portuguezes tinha morrido na pessoa de José{29} Estevão. Tenho sobre a minha banca um livro de Ricardo Guimarães, Narrativas e episodios da vida politica e parlamentar, que fornece uma prova do que vimos dizendo.
«Quem lhe herdou—escreve o author do livro citado fallando de José Estevão—o primado da palestra familiar, que elle exercia desaffrontado de rivaes?
«Por ora é elle herança jacente como o é, e será—Deus sabe porque tempo!—o sceptro dourado da eloquencia de que não poderam despojal-o em vida os mais possantes emulos, sceptro que ainda hoje pousa sobre o tumulo do orador, insignia indisputada d'aquella realeza do genio.»
Isto escrevia e publicava em 1863 Ricardo Guimarães; em 1865 entrava no parlamento José Cardoso Vieira de Castro.
Não é intento nosso fazer apreciações ou discutir personalidades. Todavia cumpre dizer que a entrada de Vieira de Castro nas lides parlamentares desabrochou no horisonte politico os primeiros alvores d'uma esperança. Vieira de Castro não era ainda o successor de José Estevão; promettia sel-o, depois d'um longo tirocinio parlamentar que lhe proporcionasse um pleno conhecimento dos mais reconditos segredos da eloquencia tribunicia. Vieira de Castro, ebrio dos triumphos que lograra na carreira universitaria, vinha cheio de mocidade e de inexperiencia, e abandonava-se aprazivelmente aos arrebatamentos da sua organisação e da sua idade, julgando de si para si que a melhor lente{30} para estudar os intrincados problemas da administração era o prisma dourado da sua phantasia ardente.
Palavra facil, copiosa, scintillante, ageitando-se ás sinuosidades da replica, sem se desviar do curso natural das idéas, tinha-a elle, como José Estevão.
A vida academica de Vieira de Castro, repleta de episodios pittorescos, aos quaes a opinião publica do paiz, mormente a dos homens de letras[4] não foi indifferente, inoculou nova seiva no espirito já de natural fogoso e opulento do author da Pagina da Universidade. D'aqui, aquelle desabotoar incessante de vigorosos florecimentos na alma do futuro orador parlamentar, aquelle espanejar incessante de flôres variegadas e mimosas que elle espalhou ás rebatinhas nas paginas da Biographia de Camillo Castello-Branco.
N'este livro a imaginação de Vieira de Castro levantou-se em vôos alterosos e successivos. Era o phrenesi da aguia que pela primeira vez bate as azas nos páramos infinitos.
Cada pagina é um jardim; todo o livro é uma primavera. Mas o que é verdade é que a biographia de Camillo Castello-Branco está por fazer, apesar de elle mesmo nos ter dado em muitas das paginas dos seus preciosos livros, como as Memorias do carcere, No Bom Jesus-do Monte, e outros, á similhanca de Garrett,{31} copiosos apontamentos para se escrever a verdadeira noticia de sua vida.
Este defeito, que a maioria da opinião notou na Biographia de Camillo Castello-Branco, era ainda o senão que o mesmo tribunal encontrava nos seus formosos discursos de estreia parlamentar. A opa tribunicia não logrou abafar os impetos da eloquencia asiatica de Vieira de Castro. Os seus discursos todos se emmaranhavam em ramagens phantasiosas, em filagranas de caprichoso labor, ora alongando-se para cima como os leques ondulantes da palmeira, ora escondendo as violetas gentis da eloquencia nos taboleiros relvosos de um jardim oratoriano.
Era preciso desbravar trabalhosamente estes apertados labyrinthos de vegetação esplendida, para se encontrar a idéa que se estava affrontando sob os innumeros recamos d'uma chlamyde roçagante.
Eis-aqui a razão porque Vieira de Castro se não podia medir ainda com a estatua gigantesca de José Estevão.
Os outonos da idade haviam de ir pouco e pouco mondando aquellas exuberancias de vegetação litteraria, e então appareceria o pensamento com toda a sua lucidez no meio d'uma delicada moldura como apparece uma paisagem entre duas arvores em flôr, no alto d'uma estrada.
É esta a meu vêr a grande distancia que temporariamente separava Vieira de Castro de José Estevão. De resto era congenere a eloquencia,—o temperamento o mesmo.{32}
Na sessão do dia 4 de abril de 1865 procurava Vieira de Castro defender-se da censura que um deputado imputára á camara por se comprazer a cada momento em frequentes e estereis luctas de palavra.
O claro entendimento do novo deputado segredou-lhe que era elle mesmo o verdadeiro alvo de similhante accusação, e levantou-se para declamar.
São logo do principio do seu discurso estes periodos. «Demasias da palavra? Demasias da palavra tinha-as tambem o padre Antonio Vieira, no pulpito da igreja de Nossa Senhora da Bahia, quando interrogava a Deus; e as nações pasmadas diante das prodigiosas catadupas da eloquencia do oratoriano, hesitavam em pensar se fallava pelo seu verbo um inspirado do céo, ou um desvairado da terra.
«E já que estou na igreja, abro o livro que encontro sobre o altar. Aqui sim, aqui, na primeira pagina, não ha demasias de palavra, porque este primeiro versiculo soube dizer na mais bella e sublime de todas as phrases escriptas o maior e o mais estupendo de todos os milagres creados: Dixit Deus: fiat lux, et lux facta est.
«Santas demasias da palavra, que são como as demasias do sangue, ou no corpo de Catão, ou na liteira de Cicero, ou no sudario do Salvador!»
E aqui estava o seu espirito a trahil-o e a arremessar para o ambito da camara abadas de flôres que ao mesmo tempo lhe serviam de imputação e de gloria. E aqui estava a primavera a bracejar frondes e a{33} engrinaldar-se de festões quando mais a accusavam de perdularia e formosa.
O orador havia porém de modificar-se como o escriptor se modificou. Nos ultimos opusculos de Vieira de Castro o estylo não se enredava já nos antigos dedalos, mas era formoso, gentil e magistralmente modelado; a linguagem derivava fluente, correcta e portugueza de lei. Todavia o temperamento do escriptor estava patente. Todos os seus livros, todos os seus escriptos, antigos e modernos, dão testemunho da exaltação cerebral das organisações nervosas e da extrema actividade dos vasos sanguineos no colorido vivo, animado e brilhante da sua penna.
Mas infelizmente o orador não teve ensejo de se modificar.
Uma grande catastrophe ainda recente despenhou este homem do alto das suas esperanças e dos seus triumphos. Foi ainda uma dolorosa consequencia do seu temperamento como denunciam estas palavras de Julio Machado, escriptas horas depois da catastrophe:
«Temperamento ardente, caracter inquieto e febril, denunciára muitas vezes, logo ao entrar da vida, a violencia das suas paixões e o enthusiasmo exaltado d'ellas. Magoas de coração, ambições quebradas, feridas do orgulho, esperanças illudidas, fortuna exhausta, crenças mortas, figuravam-se-lhe ser doenças da alma a que não era dado resistir, e não podia tolerar os miseraveis que se sujeitavam a ir vivendo cada um com o seu mal.»{34}
Ou ainda estas:
«Todavia, não sei dizer-lhes como, não sei dizer-lhes porque, elle proprio o não sabe talvez, perdeu tudo e principiou a desmoronar o castello que erguera. Caracter fugaz, e sempre um pouco louco, parecia ter gosto ás vezes em vêr desabar o edificio da sua felicidade e da sua gloria. Não era resultado do acaso nem carencia de habilidade, era falta de paciencia, phrenesi nervoso, estonteamento febril.»
O temperamento de Lopes de Mendonça levara-o á loucura e da loucura á morte; o temperamento de Vieira de Castro arrastára-o ao carcere e do carcere ao desterro.
Ambos sobreviveram á sua ruina, ambos viram escrever-se o epitaphio que a posteridade lhes destinava, ambos sonharam os sonhos côr de rosa das imaginações ardentes, ambos dormiram nos braços da gloria as dôces horas da embriaguez terrena, ambos entraram nos salões luxuosos da vida aristocratica, e ambos cahiram, quando o horisonte se lhes afigurava dilatar-se para os deixar respirar mais livremente.
Ambos viveram finalmente, porque um está no tumulo e outro no exilio.
Eu conheci Vieira de Castro n'uma noite de festa.
Era ainda feliz.
Dous annos depois d'essa noite, despenhou-se. Emquanto o processo estava affecto aos tribunaes, não fallaria d'elle, mas hoje, que já a posteridade começou para o homem d'outr'ora, não duvidei aproveitar{35} o seu nome que pertence á historia do passado, e a historia é indefesa para todos.
Não offendi a sua memoria, não ri da sua desgraça. Inscrevi o seu nome n'este pequeno catalogo de escriptores nacionaes, que estamos estudando physiologicamente.
Dos nervosos-sanguineos temos fallado que farte; occupar-nos-hemos d'outros temperamentos que estão convidando a nossa analyse.{36}
{37}
[4] Vêr—José Cardoso Vieira de Castro, antes e depois do seu julgamento, por seu irmão Antonio Manoel Lopes Vieira de Castro, pag. 19 e seguintes.