IV
Camillo Castello-Branco
«O verdadeiro talento, como o vismara, borboleta das Indias, toma a côr da planta sobre que vive», escreveu Stendhal. Seria difficil resumir tão profunda verdade em mais formoso conceito.
É conhecido até onde a critica moderna tem estudado a influencia do clima sobre o espirito do homem. Montesquieu e Herder levaram ao exagero a theoria climatologica. Proudhon contrapõe reflectidamente á doutrina de Herder: «Todo o systema descança sobre o fatalismo geographico, chimico e organico; sol, clima; planicies e montanhas; rios, lagos e mares; d'onde se deduzem successivamente, por cada latitude e meridiano, a flora e a fauna, depois o homem; finalmente, a sociedade e sua historia. Nada{38} temos a censurar; sómente perguntaremos o para que servem então a liberdade e o progresso, e o para que nos aproveita a intelligencia?»
A objecção é sensata. Emilio Deschanel não vai tão longe como Herder, sem todavia rejeitar a theoria, e tanto não vai tão longe, que escreve estas palavras: «Esta doutrina de Hippocrates, de Platão, de Aristoteles, d'Eratosthenes, de Varrão, de Montesquieu, de Voltaire, de Rousseau, de Herder, tem sido aceite e continuada em nossos dias com muita distincção. Tornou-se a base da critica naturista, que é a critica natural levada ao extremo. A terra, segundo esta doutrina, é a prophecia da historia. Dize-me d'onde vieste, dir-te-hei quem és. E reciprocamente, sabendo quem tu és, dir-te-hei d'onde vieste.»
Caminhando mais terra a terra, ser-nos-ha facil reconhecer que ha no homem, na lingua, na litteratura, na arte, e até na religião um reflexo da natureza que lhes foi berço,—reflexo que a ausencia do torrão natal e a identificação com um novo clima póde attenuar, no homem, consideravelmente. O que é certo, e tem sido muitas rezes notado, é que, por exemplo, as linguas do Norte se distinguem pela rudeza das articulações das linguas do Meio-dia incomparavelmente melodiosas; que as litteraturas septentrionaes teem uma riqueza de pensamento que se póde contrapôr á riqueza de sensibilidade das linguas meridionaes; que a musica do Norte é magestosa, grave, solemne, ao passo que a musica do Meio-dia é caracterisada{39} pela variedade das inflexões, pela harmonia, e pelo sentimentalismo.
Cumpre notar,—aproveitando uma observação de Deschanel,—que umas vezes e pela similhança e outras pelo contraste que o clima se reproduz na litteratura. «Ideal de belleza,—diz elle,—ideal de fealdade, que importa! Na religião dos negros, o diabo, dizem, é branco. E isto, pela mesma razão que na religião dos brancos—dos brancos que acreditam no diabo—o diabo é preto. Porque é que os poetas latinos, quando querem pintar a graça e a belleza das mulheres, lhes dão mais vezes cabellos louros do que cabellos pretos? É porque entre elles, em Italia, quasi todas as mulheres teem cabellos negros.—Reciprocamente, quando os poetas celebram a miudo as bellezas morenas, logo se adivinha que são do Norte, clima das bellezas louras.»
Isto é realmente verdade. Diz o proloquio: «Só se deseja o que só se não tem.»
Já deixamos dito que Emilio Deschanel não leva a influencia do clima até ao fatalismo geographico. A sua Physiologia não é uma theoria absoluta, uma demonstração didactica, como elle mesmo diz, mas simplesmente uma causerie sobre a litteratura e sobre a arte. Nós, que procuramos seguir o caminho de Deschanel, não podemos acreditar que seja a terra a prophecia da historia, mas firmemente cremos que todo o homem tem muito do seu paiz como a flôr tem muito do sitio onde desabrochou. E depois o homem,—como{40} notou Lamartine—é planta até certa idade, e a alma tem as raizes no solo, no ar e no céo que lhe formaram os sentidos. D'aqui a absorpção dos fluidos que andavam espalhados no ambiente da patria.
Não será difficil estudar-se na nossa litteratura o temperamento predominante dos portuguezes. Dous livros nos caracterisam perfeitamente,—Os Lusiadas e a Menina e moça. Fomos sempre o povo das saudades e da vida concentrada do mar, que o mesmo é dizer tambem da saudade.
Longe, por esse azul dos vastos mares,
Na soidão melancolica das aguas
Ouvi gemer a lamentosa Alcyone,
E com ella gemeu minha saudade.
Muita da nossa melhor litteratura são chronicas de viagem e poemas d'amor. Nós, a nação que formamos a monarchia á sombra da cruz, herdamos, no vasto espolio que recebemos de Roma, a lyra melancolica de Virgilio, que foi o poeta mais christão do paganismo e de quem disse Victor Hugo
Il chantait presque á l'heure ou Jèsus vagissait.
Depois a mesma indole da lingua, cujos numeros são d'uma saudosa melancolia, como notou Garrett,{41} as perturbações subitas da atmosphera, o aspecto suavemente triste da natureza, a solidão do navio, do bivaque e do claustro, deram-nos este caracter sombrio que nos distingue, predispozeram-nos para o temperamento nervoso-melancolico que é o predominante.
O nosso clima favorece as molestias intestinaes—d'aqui o mau humor, a hypocondria, o azedume, a satyra, que está perfeitamente representada em Bocage.
Ao contrario, os gregos, cujo céo era todo alegria e esplendores, tinham uma palavra propria para designarem o seu estado normal—Eucolos, o que diz simplesmente,—ter bons intestinos.
A França representa na civilisação moderna o papel de mediadora e interprete; notou-o Edgar Quinet.
Pela sua posição topographica communica com a Italia e com a Allemanha, e creou tambem uma phrase para designar as influencias beneficas que recebe d'esta communicação—en belle humeur; por outro lado está ligada aos paizes de Calderon e Camões, d'onde lhe sopram as auras murmurosas que pozeram em vibrato a lyra plangente de Lamartine.
A meu vêr, um dos maiores escriptores da Europa, que mais salientemente deixa vêr a influencia do seu clima natal,—é Camillo Castello-Branco. Basta lêl-o, nos seus numerosos volumes, para se conhecer o temperamento portuguez.
É que Camillo Castello-Branco é primeiro que tudo um escriptor nacional. Nos seus romances anda o idylio{42} triste, suave, sublime de doçura e pungimento a par da satyra envenenada, da critica mordaz, do epigramma lacerante. Os seus livros, como os quadros de Rembrand, teem a magia do claro-escuro que caracterisa a escóla hollandeza.
É facil encontrar n'elles Moliere a par de Millevoye.
A educação de Camillo Castello-Branco devia influir gravemente no seu temperamento como aconteceu com Rousseau. São do livro No Bom Jesus do Monte estes pequenos quadros retrospectivos da sua primeira vida:
«Tinha eu nove annos e era orphão.
«Dous mezes depois d'este desamparo, com o tenro coração fistulado de saudade, a desbordar de lagrimas, e os ouvidos ainda resoando-me á alma o estertor da agonia de meu pai, é que eu, pela primeira vez, entrei no sanctuario do Bom Jesus.»
Ainda do mesmo livro:
«Devo ajuizar da minha precoce sensibilidade, recordando que, dous mezes antes, entrei, por noite alta, na sala onde meu pai estava amortalhado, sem mais companhia que quatro cirios de chamma azulada. Ajoelhei sem orar. Afastei da fronte do cadaver o capuz do habito, e beijei-lh'a. Puz tambem a bocca nas mãos glaciaes; senti um frio de que ainda o coração me guarda a memoria: o frio do ambiente dos mortos. A meu lado, ninguem. A irmã que eu tinha, alguns annos mais velha, encerrara-se com a sua dôr e{43} com o seu terror de cadaveres. E eu estava alli, destemeroso das sombras que desciam dos angulos do tecto á penumbra do clarão oscillatorio das tochas.»
Camillo Castello-Branco trabalha como trabalhava Mozart,—para vencer as rebeldias do seu temperamento. O trabalho é, para elle, ao mesmo tempo, toxico e remedio.
D'aqui o numero prodigioso das suas obras. N'estes ultimos tempos teem-se aggravado os padecimentos habituaes de Camillo Castello-Branco. Mas ainda assim que prodigiosa fecundidade a sua!
Ha um anno tem publicado quatro livros, e já estão traçados tres novos romances que são Celestina, Scenas da tragedia humana e Infanta capellista.
É condão dos homens de letras o desentranharem-se em flôres do espirito quando o corpo mais se nega por enfermiço. Assim foi tambem Garrett, que já em 20 de setembro de 1838 escrevia para o Porto, a seu irmão:
«Ha muito que devo resposta á tua de 13 de agosto e terás attribuido a demora talvez a outros motivos, sendo unicamente que não tenho saude para nada, e que o escrever sobre tudo me mata. Não tanto em cousas de meu gosto, e em correspondencias com os meus amigos,—mas tendo de roubar aos padecimentos corporaes e amofinações d'espirito os proprios momentos que a natureza exhausta pedia para socego,—fico incapaz até para o que aliás me daria gosto e ainda allivio.»{44}
Era-lhe rebelde a saude, fatigava-o o escrever, e aquelle grande espirito estava sempre moço, sempre acordado, e publicava, depois da data d'esta carta, o Frei Luiz de Sousa em 1844; em 1845 as Flores sem fructo e o Arco de Sant'Anna; em 1846 a Philippa de Vilhena e as Viagens na minha terra; em 1848 a Sobrinha do marquez e, para dizer tudo, foi depois de 1838 que nos deu os mais delicados livros da sua gentil bibliotheca.
Camillo Castello-Branco sente-se tambem doente, e ainda assim vou jurar que renunciaria á vida se o privassem de escrever os seus romances admiraveis de verdade, de analyse, de côr local, o que é, a meu vêr, um dos quilates mais preciosos do seu talento.
Lê-o a gente, e acredita-o, e commove-se por mais que se lembre que está lendo uma novella.
O segredo d'este prodigio ha-de morrer com Camillo Castello-Branco. Só elle sabe temperar a verdade com a ficção de modo que não offenda, por falta de naturalidade, os mais exquisitos paladares. É que a verdade, como sabem, nem sempre é verosimil.
Ouçamol-o a este proposito:
«Um meu amigo, que tinha conhecido muitos amigos infelizes, e tinha lido as minhas novellas, disse-me assim uma vez:
«—Tenho observado que vossê inculca verdadeiras todas as suas historias.
«—E vossê duvída?
«—Duvido porque as acho verosimeis de mais.{45}
«—Isso é um absurdo, com o devido respeito. Pois, se as minhas historias fossem impossiveis, seriam mais possiveis?
«—A pergunta formulada d'esse modo é irrespondivel; mas o que eu queria dizer não é o que vossê entendeu.
«—Faça favor de se explicar.
«—Lá vou. A verdade é ás vezes mais inverosimil que a ficção. O engenho do romancista concatena os successos com tanta logica e coherencia que o espirito não póde negar-lhes a naturalidade. As occorrencias advem tão harmoniosas, os successos filiam-se e reproduzem-se tão espontaneamente, que o leitor póde, sem desaire da sua critica, pensar que o romancista é muitissimo mais correcto que a natureza. Ora agora, o modo como as cousas reaes se passam, os disparates que a gente observa, o desconcerto em que anda a previdencia do homem com o resultado phenomenico e sempre ordinario das realidades, isso, meu amigo, é o que os torna inverosimeis e inacreditaveis, se vossê ou eu as contarmos com a simplicidade e nudez de que ellas se vestiram aos nossos olhos. Sei eu acontecimentos que relatados, como eu os presenciei, seriam incriveis, e compostos com a mentira da arte seriam as delicias do leitor, que julga só verdadeiro o que é possivel ter acontecido. D'onde eu concluo que a arte é muito mais verosimil que a natureza, e que os seus romances são inacreditaveis por isso que são verosimeis.»{46}
É este inquestionavelmente o grande segredo dos romances de Camillo Castello-Branco, o serem muitas vezes, para não dizer quasi sempre, mais verosimeis que a verdade.
O que é certo é que não ha ahi author que seja mais lido, mais gostado, mais popular até. A razão d'isto já fica acima apontada,—é que Camillo Castello-Branco é, pelo seu temperamento, um romancista verdadeiramente nacional.
—Eu já nem temperamento tenho! dizia-me elle outro dia. Creio que sou uma degeneração de todos os temperamentos.
Ah! perdão, meu presado mestre, eu que tenho lido os seus ultimos livros e que os estou agora dissecando sobre a minha mesa de physiologista, acho que elles são extremamente eloquentes, sobejamente verdadeiros.
A prodigiosa imaginação de Camillo Castello-Branco augmenta-lhe tambem a gravidade dos seus padecimentos; é ainda o romancista a fazer-se um romance para si mesmo.
D'isto não tem elle culpa, que é tambem uma consequencia do seu mesmo temperamento. A excitabilidade nervosa de certas organisações leva-as muitas vezes a verem os acontecimentos pelo prisma da sua imaginação pessimista. É assim que o snr. Alexandre Herculano que, a meu vêr, tem o mesmo temperamento, escrevia inspirado pela revolução de 1836 umas formosas paginas, esplendidamente exageradas, que{47} fazem lembrar as Ruinas de Volney e o Livro do povo de Lamenais.
Depois de fallarmos de Camillo Castello-Branco parece-nos ocioso estudar o mesmo temperamento em escriptores differentes, um dos quaes seria, se o houvessemos de fazer, o snr. Latino Coelho, cuja feição peninsular resalta dos seus escriptos politicos, cheios de verve, de mordacidade, de energia nervosa.{48}
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