V
Visconde de Castilho
Estamos tratando do estylo e ainda o não definimos siquer. Emende-se a tempo o descuido, e aproveitemos a definição d'um grande estylista portuguez que nos vai preleccionar com maior clareza do que as regrinhas pretenciosamente concisas d'uns compendios de bem fallar que por ahi apparecem.
O estylo é na opinião de Camillo Castello-Branco «a concepção das idéas, manifestada em formulas visiveis e transmissiveis; é a luz exterior reflectida da luz interna. É ainda, em sentido menos lato, a escolha harmoniosa das palavras, congruentes á elevação ou simplicidade do assumpto. Que e mais o estylo? E a physionomia distincta da obra, do author, do assumpto, do paiz e do seculo. É, finalmente, o que ahi ha menos material na arte de escrever.»{50}
Anda visivelmente por isto a doutrina de Emilio Deschanel, e a verdade, que eu anteponho a todas as philosophias nebulosas, não fica tambem muito longe da definição de Camillo e da these do escriptor francez.
Todo isso é o estylo.
O estylo é o homem na sua dupla existencia. Temol-o provado, pelo que respeita á physiologia, e continuaremos a proval-o. Pelo que prende com a pessoa moral basta ler simplesmente um conto de Antonio de la Trueba, intitulado O estylo e o homem.
Fallemos levemente da formosa historieta do contista hespanhol.
Trueba recebe um dia uma carta que o chama urgentemente a Navalcarnero. Dá-se pressa em partir; parte.
Ao chegar a Mósteles, um cabo da guarda civil, commandante do posto, exige-lhe o passaporte.
Não se muníra Trueba de documentos officiaes, e contenta-se com dizer o seu nome.
O cabo, que tem na algibeira os Contos campesinos, duvida da identidade do viajante.
Antonio de la Trueba quer sahir-se d'estes apertos, e appella para um expediente extremo.
No correr do dialogo insinuára o cabo que Antonio de la Trueba devia de ser um homem de bem, porque o estylo é o homem; mas que se via obrigado a vedar-lhe a passagem até obter uma prova da sua identidade.{51}
«Pois se o estylo é o homem—replicou Trueba—deixe-me recolher á casa da guarda onde escreverei um conto. Está costumado a lêr os meus livros; reconhecerá o homem no estylo.»
O alvitre foi aceite.
Trueba escreveu o conto, que era simplesmente a historia interessante da sua inesperada jornada, historia admiravel de sentimento e singeleza.
O verdadeiro conto está n'essa narrativa. O guarda ouviu attento, e, terminada a leitura, disse apenas estas palavras:
—D. Antonio de la Trueba, póde partir.
Na opinião do author dos Contos campesinos tres cousas ha que teem uma physionomia unica,—a letra, o rosto e a alma.
Procurem disfarçal-as; o observador intelligente ha-de sempre conhecel-as. A mascara ha-de cahir perante a observação,—ou véle o espirito ou cubra as faces, tanto importa. O estylo é o homem,—a alma é o temperamento, o que não se palpa é o que se vê, o eu subjectivo e o eu objectivo. Por isso o estylo é mais perfido do que a onda,—atraiçôa.
A alma é a luz; o corpo a lampada. O estylo é o reflexo que parte da chamma e que ao atravessar o candelabro mostra a transparencia do crystal ou o espelho scintillante do ouro.
Que o estylo era o paiz, o clima, mostramol-o no capitulo antecedente, porque o homem, como os rios, reflecte a côr do céo sob que nasceu.{52}
Diremos tambem, e de passagem, até onde o estylo é o seculo.
A França do seculo XVIII está claramente representada nos romances licenciosos de Duclos e de Crebillon, filho, como nos quadros eroticos de Fragonard e Boucher.
Em Portugal os poetas e os historiadores do seculo XVI eloquentemente revelam a época de maior esplendor que jámais atravessou a patria, assim como os annaes da Accademia real de historia bastam para pregoar, em suas declamações fatuas e vans, a decadencia da litteratura portugueza que veio depois a receber alento do grande espirito do marquez da Pombal.
«Chaque siècle a son tour d'esprit», disse Fontenelle, e a historia nos está provando que Fontenelle não mentiu.
Emilio Deschanel ponderou que «se o estylo era o homem, a litteratura era a sociedade.»
Outra verdade profunda, outra illação da historia, que não só se deprehende da litteratura propriamente dita, senão que tambem se está revelando n'essa outra litteratura de pedra chamada architectura.
Para o nosso caso, os monumentos são tão eloquentes como os livros.
Já Victor Hugo notou, no romance Notre Dame, que o Paris de Luiz XV estava em Saint-Sulpice, o Paris de Luiz XVI no Pantheon, e o Paris da republica na Escola de Medicina.
Em Portugal, tambem o snr. Alexandre Herculano{53} observou que a Batalha era um poema de pedra e Mafra uma semsaboria de marmore,—que uma era grave como o vulto homerico de D. João I e que a outra representava uma geração effeminada que se fingia gente.
Todavia promettemos logo ao principio ir apontando as excepções que fossem occorrendo, e ao proverbio de que o escriptor encarna o seculo em que viveu,—não nos esqueceremos de contrapôr que as fabulas de Florian são de 1792 e que em 93 Légouvé dava no Theatro-francez uma tragedia pastoril. Offenbach é um exemplo do nosso tempo; depois da guerra com o estrangeiro, depois dos dias sangrentos da communa, recomeça tranquillamente as suas operetas.
Temo-nos desviado por atalhos que partem do nosso caminho, mas que não seguem a direcção que tomamos.
Continuemos o nosso estudo sobre temperamentos, e fallemos hoje d'um escriptor, justamente laureado, poeta d'amenidades e branduras, cantor da natureza e do amor.
É claro que fazemos referencia a Castilho, cujo temperamento exuberantemente se está espelhando nos seus livros.
Escreve o author da Chave do enigma fallando da sua infancia:
«Fadada vinha pois, segundo cuido, aquella creança só para poeta, e poeta unicamente de branduras.»{54}
Vendo-se ainda nas recordações longiquas do passado, continúa:
«Foi a infancia do innocente, que eu ainda me recordo bem de ter conhecido, rosada, chilreada, alegrissima como quasi todas as auroras. Mas os penates do seu berço haviam sido na cidade, e os passaros cantores não se criam e educam bem senão pelas amenidades tranquillas e scismadoras d'esses campos.»
A infancia bucolica de Castilho preparou-lhe a alma para os eternos florecimentos com que ainda hoje toda se expande em cadencias e perfumes. Nem siquer lhe faltou no paraiso dos primeiros annos uma creança amiga que lhe inundasse o coração com os alvores matinaes do santo amor da puericia. A sua indole, dil-o elle, «foi-se compondo com duas religiões que a final se reduzem a uma só: o culto das gemeas e eternas amantes universaes,—a natureza e a mulher.»
Um dia appareceu n'este céo azulado e crystallino d'uma infancia suavemente idyllica, a primeira nuvem presaga de tempestade. O que aconteceu elle vol-o dirá, que ninguem melhor o pode dizer: «De repente outra doença, mais terrivel que a primeira, e menos esconjuravel do que ella, não paga com martyrisar-me, não contente de balançar-me por um fio largos mezes entre a vida e a morte, me atira vivo para um sepulchro. Eu respirava: mas os bellos olhos, idolatras das flôres e de Amalia, e vangloria de minha{55} mãi, não sabiam se ainda havia no céo o sol de Deus!»
Privado de contemplar as paisagens dos seus primeiros amores, começou a saudade a reproduzir-lh'as na visão interior, a rememoral-as a toda a hora, a contornal-as no horisonte infinitamente suave d'um paraiso perdido.
A fatalidade tinha-o atirado para um sepulchro, é certo, mas o sepulchro d'um poeta tem sempre flôres.
Era recendente a urna espessa em que lhe ficava cerrada a infancia. Mas pelas estrophes perfumadas do passado recompoz Castilho os poemas inebriantes do futuro; pelos aromas da infancia adivinhou a primavera invisivel da mocidade.
Pouco era o que tinha aprendido, mas de muito lhe serviu para o que viria saber. Onde lhe faltava a visão, porque as palpebras tinha-as para sempre fechadas, ahi lhe acudiam os olhos de seus irmãos, que viam por elle, ahi o soccorria a lição dos poetas bucolicos com que foi creado, ahi lhe entrava a flux pela alma e pelos ouvidos o dulcissimo conhecimento da natureza que idolatrava. Assim se fez e educou poeta ao murmurio placido do Mondego e do Tibre, de que não estava menos proximo. O rouxinol, privado de vista, tambem canta, como sinta os perfumes da primavera e a melopêa da corrente suspirosa. De musicas e aromas se formou a sua alma, por isso não ha ahi melhor poeta do amor, da melancolia, das flôres, das aves e das creanças.{56}
O livro Primavera caracterisa-o perfeitamente; estão n'elle todas as branduras lymphaticas do seu teraperamento, todas as doçuras ineffaveis da sua alma. Uma vez só, como já dissemos em outro lugar, cahiram as boninas da sua lyra campestre sacudidas pela rajada violenta das paixões. Os Ciumes do bardo e a Noite do castello representavam um esforço ao qual se devia seguir, como a claridade da manhã após a negrura da tormenta, todos os idyllios suavemente elegiacos que dedilhou depois. Ha d'estas contradicções na vida dos escriptores, e nós, que voluntariamente nos obrigamos a apontar as excepções, não podemos deixar em silencio a seguinte, que é flagrante.
Gomes Goelho, já gravemente doente, escrevia, n'uma hora de dolorosos soffrimentos, uns versos scintillantes de verve peninsular, que desmentem completamente o genero caracteristico do finado escriptor.
A poesia de que venho fallando destina-se á Grinalda e, por obsequio de Nogueira Lima, transcrevo as tres primeiras quadras:
Ai, quem me dera em Sevilha,
Onde a travessa hespanhola
Sob a elegante mantilha
As negras tranças enrola.Na arcada da sé formosa
Vêl-a entrar, tal como a sonho;{57}
Entre coquette e piedosa,
Rosto, entre grave e risonho.Mergulhar na agua benzida
A mão pequena e elegante
E entre a turba, alli reunida,
Distinguir o olhar do amante.
A vida de Castilho tem sido o caminhar empós idéas generosas, principios nobres e santos, quaesquer que sejam, com o peito cheio de serenidade, ou o recebam hymnos ou chufas, ou o acclamem «Poeta» ou lhe gritem «Utopista». Não ha presentemente em Portugal homem que mais tenha sido aggredido e que mais razões tenha para ser respeitado. As vagas que se levantam no esforço de quererem submergir a sua corôa litteraria, batem d'encontro ao throno em que a patria já collocou, e para sempre, o cantor da Primavera, e refervem, e espumam e, finalmente, desfazem-se.
Elle, a cujos ouvidos resoam incessantemente as musicas da alma, não ouve siquer o acachoar das aguas impuras que não chegam a macular-lhe as plantas. Está embevecido na sua poesia, no seu sonhar perpetuo, nas suas dôces affeições.
Um dia, desceu do solio litterario e entrou á escóla, levando comsigo a alegria, a musica, o amor{58} pelo estudo. Cercaram-no umas creanças pallidas e concentradas, que lhe faziam dó, e essas creanças, volvidos dias, amavam-se entre si, estimavam o mestre, já não riscavam os seus livros, e do intimo de suas almas immaculadas abençoavam o poeta cego e velho que lhes enchera de poesia o recesso humido e soturno da escóla. Mas levantaram-se as vagas, e referveram, e espumaram. Castilho recolheu-se ao ninho querido onde o estavam convidando as amenidades de todos os dias. As multidões gritavam «Utopista» e as vozes esmoreciam no ar. Não lhe deixaram fazer da escóla-cemiterio, cheia de escuridade e tristeza, a escóla-floresta gorgeada, alegre e festiva. Conseguiram que elle depozesse o livro da primeira communhão espiritual, mas não lhe poderam arrancar do peito o amor que elle ainda conserva á escóla, ás creanças e á legião dos seus poetas romanos com os quaes se entende muito melhor que com os impertinentes conservadores do velho ensino. Arrancaram-lhe das mãos o cathecismo preceptor, é certo, mas não lhe poderam empolgar a lyra das branduras predilectas. E recomeçou a cantar os seus idyllios, a suspirar as suas dôces elegias, pedindo aos seus amigos que o deixassem morrer com as mãos postas sobre as cabeças de seus filhos e com a lyra encostada ao coração.
Não quer outra indemnisação em quanto fôr do mundo; depois que a morte arrefecer a escuridão dos seus olhos, pouco é, e de poeta, o que elle deseja para si:{59}
«Depois que entre os abraços delirantes
De todos os que amei, findar meus dias,
Sepultai-me n'um valle ignoto e fertil.
Para marcar da sepultura o sitio,
Sobre o cadaver, que vos foi tão caro,
Mangeronas plantai, cuja verdura
Em roda fechem variados lirios.
Na raiz funda de soberba olaia
Pouse a minha cabeça, e o tronco amigo
Sobre mim curve a copa florecente.
Mil piteiras unidas, ostentando
Na hastea vaidosa as flôres amarellas,
Em quadrado não grande me defendam
Das incursões das cabras roedoras.
Em meu tronco se escreva este epitaphio:Foi poeta amador da natureza:
D'entre as sombras ancioso a procurava,
Qual terno amante a bella fugitiva.Sobre isto pendurai sonora flauta,
Que se revolva á discrição do vento.
Não cerque os ossos meus, não mos ensombre
Nem teixo nem cypreste; arvores quatro
Quizera só no meu jardim de morte.
N'um canto a laranjeira graciosa,
Que mescla util e dôce, a flôr e o fructo:
N'outro a figueira sob as amplas folhas
Modesta occulte seus nectareos mimos:{60}
Defronte um pecegueiro em fructos mostre
Que amavel é pudor, quando enche faces
De pennugem subtil inda cobertas:
No ultimo canto... (a escolha me confunde)
Plantai no ultimo canto uma ginjeira,
É a arvore da infancia até na altura;
D'esta por sua mão colhe um menino
A mui ridente baga, e ri de ufano.
Alguns tempos depois que a fria terra
Meus restos encerrar, á minha olaia
Vós, meus amigos, vós dareis meu nome,
Pois de mim se nutriu, e eu serei n'ella.»
Envelhece o homem mas sobrevive o poeta. O seu temperamento tem prevalecido o mesmo e já se tornaram em sazonados pomos de abundante outomno as flôres odorosas da septuagesima primavera. A sua alma conserva-se tranquilla, cheia de luz como o céo da Grecia, sob o qual poetou o seu Anacreonte, perfumada como os pomares tiburtinos do seu Horacio.
O temperamento de Lopes de Mendonça era prophecia da fatalidade a que devia succumbir; o temperamento de Castilho assegura-lhe viver poeta e morrer, como o cysne da tradição fabulosa, ainda poeta.{61}