VI
Julio Cesar Machado
A photographia é o folhetim da optica, assim, como o folhetim é a photographia da litteratura. Depois que se accendeu a febre dos jornaes, introduziu-se a moda já agora generalisada dos albuns, e a photographia e o folhetim invadiram o mundo, correram de mãos dadas, de polo a polo, porque se o folhetim é a reproducção dos acontecimentos, começada e concluida n'um instante, a photographia é a copia ligeira das pessoas, consummada em cinco minutos, n'um atelier elegante. Quem tem pretenções a fazer-se conhecido e respeitado das immensas ramificações de seus descendentes, retrata-se a oleo e deixa-se exhibir na sala nobre da familia, pendente d'uma lona, de casaca ou de farda, como se estivesse em perpetuo baile.{62}
Quem deseja escrever um livro para a posteridade segue o moroso processo dos retratos a oleo, senta-se pacientemente á banca todos os dias, corrige, emenda, annota, do mesmo modo que o pintor se inclina para a tela, aperfeiçoando um traço, avivando o colorido, corrigindo o contorno, trabalhando para o futuro, n'uma palavra. Mas quem se vai retratar para satisfazer um pedido, para brindar um amigo, para estar presente a uns olhos queridos com a firme tenção de mais tarde substituir o cartão pela propria pessoa, contenta-se com a photographia, que é um retrato incompleto, mas que é todavia um retrato.
Do mesmo modo, quem se senta á mesa de trabalho para traçar um esboço dos acontecimentos, para consignar as impressões do espectaculo d'hontem em quanto se faz horas para o baile d'hoje, e se pensa no passeio d'ámanhã, quem não quer historiar os factos mas unicamente estenographal-os, deixa fluctuar a penna na corrente do folhetim, dando um sorriso á bailarina nova, atirando um punhado de flôres ás alegrias do povo, orvalhando de lagrimas a saudade d'um athleta que cahiu, e sahe depois, de casaca e luva côr de perola, quando chega a carruagem, sem pensar siquer em que, procedendo d'outro modo, poderia ir ao capitolio mais depressa do que á sala esplendida e perfumada que o espera.
A missão do folhetim é pois photographar, apanhar os acontecimentos d'um só jacto e coloril-os com a luz que resalta do foco interior. Camillo Castello-Branco{63} escrevia uma vez a respeito de Julio Cesar Machado: «Bem sabe elle como é rapido o photographar, e bem sabemos nós que não devemos pedir-lhe mais que o esboço das cousas, aperfeiçoado depois pelo sexto sentido do talento.»
Em Portugal, o folhetim começou grosseiramente no «Almocreve das petas» e no «Barco da carreira dos tolos» como notou Rebello da Silva. José Daniel, que comprehendeu o espirito proeminente da época, procurou fazer a critica dos acontecimentos e das pessoas do seu tempo, provocando o riso, com a graça saloia e com a chufa grosseira, que era muita vez um respiraculo intencionalmente aberto ás combustões da inveja e do odio.
Era o embryão do folhetim, preparado á portugueza velha e pautado pelos modêlos da Eufrosina de Sá de Miranda e do Fidalgo aprendiz de Francisco Manoel de Mello. O verdadeiro folhetim, tal como nós hoje o conhecemos, «a critica ligeira, risonha e fugitiva que borboleteia ao de leve por cima das flôres» como disse tambem Rebello da Silva, veio de França junto com os primeiros albuns que de lá recebemos, ao tempo que Julio Janin era moço, e de Hespanha dentro de uma caixa de charutos, expedidos pelo dono do estanco onde Marianno Larra os costumava comprar.
Garrett, que estudou lá fóra as mais notaveis evoluções da litteratura moderna, foi o primeiro que trouxe para Portugal o folhetim francez, amaneirado, elegante, chic. O mesmo não aconteceu ao snr. Alexandre{64} Herculano, que estudou tambem na escóla do estrangeiro durante o tempo da emigração, mas cujo temperamento era adverso ás amenidades da litteratura ligeira. Á hora em que o snr. Herculano trabalhava na mente o plano das suas lucubrações historicas, descia o futuro visconde d'Almeida Garrett do seu cubiculo de Ingouville, onde escrevera o Camões, e flanava distrahidamente pelas margens do Sena.
Era isto—Garrett, o flaneur; Herculano, o philosopho.
Garrett foi na litteratura, como na sociedade, o verdadeiro flaneur. Borboleteou de genero em genero, dramatisou, romanceou, poetou, folhetinisou n'uma palavra, mas folhetinisou soberba, esplendida, admiravelmente. Garrett era porém o folhetinista do livro; faltava em Portugal o folhetinista do periodico. O temperamento de Garrett vedava-lhe o acompanhar quasi diariamente as lucubrações jornalisticas. Gostava de folhetinisar no seu gabinete, entre flôres e crystaes. Estava-se pedindo um homem robusto, febril, enthusiasta, que escrevesse os seus folhetins sobre a banca d'um escriptorio, nú de moveis e ornatos, com infatigavel energia, em quanto esperava o prélo impaciente. Esse homem appareceu,—foi Lopes de Mendonça. Durante muitos annos exerceu elle brilhantemente o folhetim,—o folhetim que se compromette a apparecer todas as semanas, a fallar de tudo embora haja completa escacez de assumptos, a ser alegre, espirituoso e profundo, apesar de se dar ares de leviano. O incendio{65} d'aquella poderosa imaginação crepitou, deslumbrou e finalmente extinguiu-se. Então appareceu em Lisboa um rapazinho da provincia, cheio de mocidade e esperança, que se estreou na litteratura offerecendo-se para traductor do Gymnasio. Os horisontes que elle sonhava eram lucidos como o céo da primavera. Em redor de Julio Cesar Machado tudo eram sombras, difficuldades, obstaculos. Mas elle era feliz porque sonhava com a esperança. Não basta ser feliz para o ser verdadeiramente. É preciso, e n'isto está tudo, amar a felicidade.
Se elle quizesse vencer d'um impeto todos os estorvos, enlouqueceria. Mas o seu temperamento lymphatico permittia-lhe esperar, e saber esperar é inquestionavelmente a primeira condição para vencer. Os seus nervos eram de natural submissos; impaciencia não a teve nunca. Por isso foi feliz. Soube namorar a felicidade. Quando a critica invejosa e proterva lhe sahia ao caminho, lá lhe vinha uma sombra á alma, mas as tristezas d'estes temperamentos são dolorosamente suaves. Passava a nuvem;—sonhava de novo com a esperança.
Eu sou realmente amigo de Julio Machado, e sei que elle me estima deveras. Quando penso na vida d'elle, lembro-me de mim, e perdôem-me este orgulho.
O author dos Contos ao luar entrou no mundo sósinho; seu pai deixou-o muito novo quando desceu ao tumulo. Eu fui um pouco mais feliz, mas o braço de meu pai, cansado de trabalhar toda a vida, só com extrema difficuldade poderia nortear a minha educação pelos mares que a sua alma affectiva me queria aplanar. Os mestres de Julio Machado foram os seus primeiros amigos. Eu tambem me quero lisongear d'essa honra. Foi a amizade de José Estevão que lhe franqueou as columnas da Revolução de Setembro. Eu encontrei tambem no principio da minha carreira um jornalista sobremodo honrado, o snr. Cruz Coutinho, que recebeu os meus primeiros ensaios nas columnas do Jornal do Porto, e me animou a proseguir. Ambos ganhamos pela penna o primeiro pão da vida. Do meu passado, conservo saudosas lembranças; Julio Machado compraz-se tambem em rememorar os seus primeiros annos que lhe sorriem ainda gratos através da penumbra do passado. Ambos nos destinavamos a um curso superior, e ambos ficamos no mundo sem carta de bachareis. Foi realmente uma pena; eu se fosse doutor era com certeza mais gordo,—mais feliz, pelo menos.
Qual seria a barreira litteraria diante da qual empedrou o estudantinho da Durruivos? Não sei; o latim de certo não foi, que esse ensinou-lh'o o padre Paulo, de quem elle falla nos Quadros do campo e da cidade.
A esphynge da latinidade tambem me não amedrontou a mim; conservo ainda saudades do Virgilio e do Horacio, e estimo sinceramente o snr. Dantas que foi meu mestre.
O meu pesadelo foi a mathematica, ah! foi a{67} mathematica sim. O Garrett queixava-se d'um mathematico de Coimbra, o snr. Honorato, que foi causa d'elle se ficar poeta. E o mais é que o snr. Albuquerque, do lyceu, é um homem de intelligencia e d'estado, duas qualidades que eu respeito e admiro em qualquer homem.
Mas eu já tinha no corpo a peçonha da poesia; aborreceu-me o Serret, errei um problema, esmoreci, e fiquei como estava. Aconteceu que não pude ser mathematico, e que me deixei ficar litterato. Um mathematico de menos e um litterato de mais,—eis tudo o que aconteceu.
Em razão d'esta minha inimizade com a mathematica, hei-de recommendar a minha filha, quando ella crescer, que tapete de boninas e esconda entre plantas o quadrado da minha sepultura. Eu, que não vivi bem com a arithmetica, não quero que ella se vingue de mim, quando me seja impossivel sacudir a lousa com os funebres algarismos que para logo denunciam a milicia dos mortos.
N'este horror á mathematica sou ainda discipulo de Camillo Castello-Branco que escrevia a Faustino Xavier de Novaes: «Teremos nós sepultura com lagea!? Conta com um cômorosinho de terra, e umas papoulas na primavera, e uma taboa preta com um numero branco. A arithmetica ha-de perseguir-me além da morte!»
Agora estou eu reparando que me tenho desmandado em confidencias, e que amanhã ha-de gritar a{68} maledicencia que eu fiz, que aconteci, que me quiz nivelar com Julio Machado. Não ha tal; previno o commentario. Basta dizer-lhes que ha sete annos,—era eu uma creança,—li pela primeira vêz, na Foz, as Scenas da minha terra e que me demorei longo tempo diante da dedicatoria d'esse livro que Julio Machado offerece a sua mãi, não sabendo se havia de applaudir mais o escriptor se o filho. Elle era então já um talento feito e eu, desprovido dos seus valiosos dotes, ainda era uma creança. Applaudi-o então, applaudo-o hoje e applaudil-o-hei sempre.
Mas era d'elle que vinhamos fallando,—era do seu temperamento que queriamos fallar.
Ah! feliz temperamento o seu, que se revela na suavidade dos seus folhetins, na doçura dos seus contos, na tranquillidade do seu animo.
O temperamento de Julio Machado está no Pedrinho dos Contos ao luar, na Marcolina das Scenas da minha terra, no Romance d'uma alma, das Historias para gente moça. São tristezas suaves,—deliciosas tristezas!
Elle, que foi o successor de Lopes de Mendonça, deve inquestionavelmente ao seu temperamento o ter arrostado ha longos annos com a improba canceira do folhetim sem desanimar, sem ficar vencido.
Escreve tranquillamente, por isso se não tem gastado. As viagens são uma tendencia do seu espirito. É ainda o folhetim em acção o que elle quer. Mas não vai viajar de afogadilho, não pensem, como se lhe fosse{69} na pista a policia ou o cholera. Nada d'isso. Para ir a Paris e para chegar a Londres gastou dous mezes.
Quando parte, não diz a ninguem onde estão os seus papeis importantes para o caso de não voltar. Nada d'isso. Parte alegremente,—para Italia; cantarolando com o Junca; para Hespanha, em trajo de touriste, em communidade de aventuras com o conde d'Obidos.
Nunca se lembrou que lhe ia acontecer desgraça pelo caminho. Ao contrario, pensa que a natureza o espera com um sorriso e um bouquet. É elle mesmo quem nol-o diz:
«De mais a mais, não sou de uns certos, que tudo pesam e scismam antes de se proporem a sahir da sua terra, e até cuidam que o barco se ha-de perder, simplesmente pelo facto de os levar; eu, ao contrario, cuido que por eu ir n'elle é que o barco se não perderá.»
Accusam-n'o de desleixado na linguagem. É um defeito. Quem o não tem? E muitos dos que lhe atiram a pedra estão tambem no caso de ser apedrejados.
Bem desleixado se deixou ser o Garrett nas Viagens, que é o folhetim mais folhetim que se tem feito entre nós, e todavia o Garrett ha-de viver mais tempo do que os seus criticos. O folhetim não se está a pregar e a repregar como as mulheres de trinta annos. Ah! não, o folhetim tem a graça e a desenvoltura de uma donzellinha. Namora-o a flôr; basta-lhe o perfume. Tudo o que faz é «ao acaso, tudo a brincar, tudo{70} para entreter», segundo uma expressão de Julio Machado.
Quando elle publicou os Contos ao luar, sahiram-lhe ao encontro os grammaticões, os nossos graves grammaticões—que graça!—por haver attentado contra a virtude da syntaxe, começando o seu livro por uma conjuncção copulativa.
Era certo que elle havia escripto—«... E depois, eu não sei bem porque chamei ao meu livro Contos ao luar!» Que elle, o phantasioso contista, tivesse aceitado a sequencia d'um sonho interrompido, d'um devaneio cortado pelo fremito d'uma vaga, que quizesse dar aos seus contos o vago do luar, não comprehendiam os grammaticões. Lá estavam as reticencias que substituiam as palavras, mas não eram reticencias o que elles queriam, eram palavras, palavras, unicamente palavras.
Os grammaticões são como os diccionarios;—o que mais têem são palavras. E os defensores da inviolabilidade da grammatica em vão açularam a critica, e os apostolos da conjuncção morderam-se, e o livro teve tres edições, para dizer tudo d'uma vez.
Já que me referi n'outro lugar ao Romance de uma alma quero acrescentar que basta este conto para caracterisar physiologicamente Julio Cesar Machado,—um conto adoravel, dôce e triste, um devaneio de phantasia delicada que faz lembrar as mais formosas tradições do Rheno primorosamente trasladadas a portuguez pelo snr. José Gomes Monteiro.{71}
Ah! meu caro Julio, eu, que sou ainda novo, amo sinceramente a candida mocidade que se respira nos seus livros, delicio-me com as fragancias d'esses gentis bouquets que o seu talento tem enfeixado, e ao terminar estes breves estudos de physiologia, litteraria permitta-me que saude d'aqui a primavera que ainda lhe sorri exuberante de galas e esperanças.
Algum dia dirá de si a historia da litteratura patria que foi um escriptor sempre moço, que sabia com o seu espirito enganar a idade, quando ella the acenava de longe, e que no dia em que lhe nasceu a primeira branca atirou ainda a umas bailarinas que iam passando com um bonito bouquet, um adoravel folhetim, de sorte que ellas, apesar d'uma ruga e de uma can igualmente traiçoeiras, tiveram inveja á sua mocidade e ao seu temperamento, como eu, que sinceramente o confesso, e se lembraram de Anacreonte, que morreu a sorrir, coroado de flôres.
Termino esta serie de folhetins com o nome festejado d'um distincto folhetinista. Assim devia ser; é sobre o pedestal que se colloca a estatua.
N'estes rapidos estudos humoristicos, que ahi ficam, procurei fazer em Portugal o que fez Emilio Deschanel em França, com uma unica differença—que elle o fez muito melhor e mais detidamente. Elle me serviu de modelo e incentivo. Gostei do seu livro, e o mais que fiz foi applicar aos nossos escriptores a theoria que elle havia enunciado, não na sua generalidade, o que seria longo, mas em uma das suas ramificações,{72} o estado physico, o que me pareceu curioso. Parti, como elle, da influencia do corpo sobre a alma, e procurei estudal-a n'um certo numero de individuos.
Tentei estudar o temperamento no estylo.
Mais que nunca se me figura opportuna a occasião para trazer em minha defeza as palavras de Deschanel: «Paradoxo! dirão uns. Banalidade! clamarão outros. Que se entendam uns com os outros até chegarem a um accordo. Que importa que uma cousa seja velha, se é verdadeira? E não será sufficientemente nova, para o tempo que corre, se fôr precisa e sincera?» E depois, receioso de que supponham que se dá ares academicos, acode Deschanel denunciando a indole dos seus estudos: «Imaginai que folheaes, por matar o tempo, um album de autographos ou de photographias; é pouco mais ou menos o que vos eu apresento.» Isto escreveu Deschanel; isto devo eu repetir com dobrada razão.{73}