Luiz Rossel

Quasi á mesma hora em que o sopro devastador do inverno de 1871 começava a desfolhar a verdura das arvores, as balas de Satory arrancaram do tronco venerando da terceira republica franceza as ultimas folhas denegridas pela polvorada da communa.

Havia seis mezes que tres condemnados vacillaram entre a vida e a morte, na mais cruel e dolorosa incerteza com que se póde opprimir um homem dentro das quatro paredes do carcere. O conselho de guerra, presidido pelo coronel Merlin, havia sentenciado á pena ultima os communistas Rossel, Ferré e Bourgeois. Os processos foram enviados á commissão de indultos e desde então começou a ancia, a duvida, o maximo supplicio. E a commissão não se lembrava talvez de que{172} per si mesma impunha uma nova pena, cruciante e horrivel, a tres presos cuja sorte ella podia melhorar, confirmando a sentença, sem tão deshumanas delongas! Grandes criminosos deviam de ser estes homens, que anteprovaram as agonias da morte durante cento e oitenta dias de carcere!

Um d'elles, Luiz Rossel, despertára profundas e geraes sympathias.

Durante esses seis mezes de suprema tribulação, era-lhe consolo extremo a dôce companhia de um padre. Os seus olhos marejavam-se de lagrimas quando a saudade da familia acudia intensa a despedaçar-lhe o coração. Com que dolorido enthusiasmo não fallava elle de seu pai, de sua mãi, das suas pequenas irmãs, Bella e Sara!

O sacerdote protestante que lhe assistia pôde sondar-lhe vagarosamente as serenas profundezas da sua alma, e o resultado d'esta longa e piedosa observação foi o demover-se voluntariamente a pedir misericordia á commissão d'indultos e ao presidente da republica franceza.

«De todos os pontos da França—escrevia o padre Passa—vos dirigem esta supplica. Soffrei que vos seja tambem enviada do quarto onde, ha seis mezes, o sentenciado e o padre se encontram, debaixo das vistas de Deus, para se preparar para a morte.»

«De todos os pontos da França!» escrevia o assistente espiritual de Rossel. Que crime tinha então commettido elle que inspirava tamanha compaixão? Rossel{173} desertára das tropas de Versailles para as tropas da communa.

Fôra julgado desertor e condemnado á morte. Henrique Rochefort, que desertára tambem da republica para a communa, fôra simplesmente condemnado a deportação para uma fortaleza. Quer dizer, a Rochefort, espirito ambicioso e fluctuante, ficava com a vida a esperança da amnistia. Rossel, que, por um impeto de louca mocidade, tomára parte na revolução de 18 de março, era condemnado sem appellação nem aggravo.

Porque desertára Rossel? Expliquemos. Rossel não era d'estes lymphaticos que transigem com os peores homens e com as peores cousas, esperançados em que tudo será pelo melhor,—embora o melhor venha longe. Era um nervoso, d'estes que sacrificam a vida aos acontecimentos, no intuito de susterem audazmente a machina incansavel das fatalidades terrenas e humanas.

Em dezembro de 1870 escrevia elle a Gambetta, então ministro da guerra na republica:

«Eu esperava que as noticias favoraveis que recebestes ácerca do meu comportamento em Metz, e a boa vontade, de que eu tenho dado provas, para a defeza do meu paiz, forneceriam occasião de vos elucidar sobre a guerra actual, de vos notar as faltas de organisação e de estrategia que se commettiam diariamente, e que vos conduziam a uma derrota.»

E mais abaixo, desconfortado pela inhabilidade dos generaes republicanos, acrescentava:{174}

«Em nome da nossa fé commum na patria e na liberdade, concedei-me um cargo importante, dai-me o meio de vos provar que eu sei a guerra, de vos expôr as razões das vossas derrotas passadas e dos desastres que vós vos preparaes.»

Afigura-se-vos isto a febre do orgulho? Não. Isto é a expansibilidade da nevrose, a consciencia de se valer alguma cousa, embora os meticulosos ateimem que as flôres da mocidade não chegam a ser fructo porque as desfolham sempre os vendavaes da paixão. Não. Rossel não estava obcecado pela amaurose da exaltação partidaria, e tanto não estava que começava a desacoroçoar da republica e dos republicanos, e escrevia ainda a Gambetta estas palavras:

Não comprehendi nunca o que vós fazieis no vosso gabinete. Quando me lembro que Napoleão resumia em algumas horas por semana esse trabalho de contencioso a que vos reduziram, tomo o partido do despota contra vós. Elle fazia a guerra, e vós, vós, deixastes fazel-a. O vosso governo não foi um governo de combate; pareceu-se muito com o que o precedeu: muitas secretarías,—e muito pouca policia.»

O desalento lavrou fundo no coração de Rossel. Em 19 de março de 1871 escrevia do campo de Nevers ao general ministro da guerra em Versailles:

«Meu general:

Tenho a honra de vos informar de que me dirijo a Pariz para me pôr á disposição das fôrças governamentaes{175} que se possam constituir. Instruido por um despacho de Versailles tornado publico hoje, de que ha dous partidos em lucta no paiz, colloco-me sem hesitação do lado d'aquelle que não assignou a paz e que não conta nas suas fileiras generaes culpados das capitulações.

Tomando uma tão grave e tão dolorosa resolução, sinto deixar em suspensão o serviço de engenharia do campo de Nevers, que me tinha confiado o governo de 4 de setembro.

Entrego este serviço, que apenas consiste em assentos d'artigos de despezas e escripta de contabilidade, a M. F., tenente de engenharia auxiliar, homem recto e experimentado, que ficou ás minhas ordens por determinação de mr. o general Vergne, em virtude do vosso despacho datado de 5 do mez corrente.

Eu vos informo summariamente, por carta dirigida á repartição do material, do estado em que deixo o serviço.

Tenho a honra de ser,

Meu general,

Vosso muito obediente e dedicado servo

L. Rossel.»

Data da expedição d'esta carta a deserção de Rossel. Chegado a Pariz, não sentiu revigorar-lhe o coração enfermo de desalento uma esperança vivificadora. Ao lêr nos editaes affixados nas ruas os nomes de Lullier{176} e Assi, sentiu recrudescer o desgosto que lhe enervava a alma. Ainda assim quiz justificar o seu procedimento perante a sua mesma consciencia, e aceitou o cargo que o Hotel de Ville lhe conferiu. Então foi o succederem-se as intermittencias de esperança e desconforto, e por mais d'uma vez o assaltou a idéa de abandonar Pariz. As tropas estavam indisciplinadas, os generaes eram ineptos, e elle, pobre louco! já não acreditava na communa para confiar unicamente na propria coragem e na propria dedicação. N'esta conjunctura organisou-se a cour martiale, cujo presidente era. «O aceitar as funcções de presidente d'este tribunal,—escreveu elle—é o maior sacrificio que eu tenho feito e que eu podia fazer á causa da Revolução. Inimigo das revoluções, as circumstancias me lançaram n'uma revolução; aborrecendo a guerra civil, estava mettido na guerra civil. Tratava-se agora de presidir a um tribunal revolucionario, um tribunal que só pronunciaria sentenças de morte.

Se eu tivesse a defender-me da accusação d'ambição, o aceitar dolorosamente este cargo seria talvez o argumento mais forte que eu poderia produzir. Que interesse tem um ambicioso em manchar as mãos? Seria um ambicioso bem louco, ou bem desprovido de estudo para ir ensanguentar o meu nome em funcções subalternas. Ha apenas uma explicação razoavel para o meu procedimento,—é que eu me sacrifiquei á Revolução. Não tinha escolhido nenhuma das funcções de que fui successivamente encarregado, mas não recusei{177} nenhuma. N'estes momentos de similhantes crises é preciso ter a dedicação d'um sectario.» Mal entrou no ministerio, no dia 30 d'abril, occupou-se Rossel de tomar as medidas mais urgentes, que vinham a ser o soldo, a disciplina e a organisação de forças activas. Então começaram a empecer a sua boa vontade as intrigas e complicações que elle não podia desviar com o pé por serem numerosas e constantes.

«A recordação de todos estes revolucionarios presumpçosos,—diz elle—mas desprovidos d'estudos e d'energia, capazes de ordenar um assalto talvez, mas não d'uma vontade e d'um proposito firme, esta recordação, digo eu, é para mim um pesadelo.»

Não obstante estes dissabores que soffria silencioso, empenhava-se na organisação de tropas activas, medida que era sempre contrariada por obstaculos cada vez maiores.

A designação de—regimentos,—que elle adoptára, em vez de—brigadas—, para não augmentar o numero de generaes «fez sombra aos chefes de legião, que receiavam vêr-se desapossados da sua authoridade por esta combinação», escrevia Rossel de proprio punho.

A defeza do forte de Issy era o alvo dos seus mais ardentes cuidados, sendo que o general La Cecilia havia retirado as tropas que defendiam a aldêa e o forte d'aquelle nome. Em vão tentou Rossel reunil-as de novo, e procurou organisar forças para fazer rosto ao violento bombardeamento do inimigo.{178} Este era o seu empenho maximo. N'esta conjunctura reuniram-se os chefes de legião para protestar contra a formação dos regimentos, e muitos procuraram Rossel para lhe fazer sentir que a sua authoridade d'elles era sufficiente para mobilisar as tropas immediatamente. O certo é que na noite d'esse mesmo dia o avisaram de que não podiam pôr em movimento as tropas que tinham promettido.

Rossel, inteiramente desacoroçoado, demittiu-se, e poucas horas depois fluctuava a bandeira tricolor no forte d'Issy, abandonado na vespera pela guarnição, sem que lhe fosse possivel fazel-o reoccupar. Não obstante as instancias com que foi solicitado para retirar a demissão, accusaram-n'o de haver contribuido para a perda do forte, de haver aspirado a tyrannia, e de ter recebido quinhentos mil francos para realisar a traição.

Não é pois sem fidelidade historica que Pinheiro Chagas escrevia, ha pouco tempo, no Diario de Noticias:

«E não foi uma desgraça para a França a morte de Rossel? Foi, era uma cabeça energica, cheia de vida, de talento e de patriotismo, e, o que é mais ainda, cheia de profundissimo desprezo por aquella gente da communa, com a qual a sua ambição e o acaso das circumstancias o tinham obrigado a pactuar. E elles sabiam-n'o, tanto que Rossel esteve umas poucas de vezes para ser fuzilado por elles. A assembléa entendeu que devia cumprir as ultimas vontades da communa,{179} e fuzilou Rossel. Confundiu a causa d'este nobre revolucionario com a dos homens, que lhe causavam a elle repugnancia, quiz dar emfim um martyr á communa! Santa gente!»

A nobre alma de Rossel nada perdeu da sua grandeza epica dentro das quatro paredes do carcere.

A mocidade e o temperamento, duas correntes fataes para o homem, desvairaram-n'o.

«Quando me juntei á insurreição—escrevia Rossel do caderno das suas notas intimas—não contava com o successo, não esperava chegar a uma das primeiras posições. Obedeci a um dever politico; quando rebenta a guerra civil, cada cidadão deve sustentar o seu partido. Republicano, meu lugar era em Paris.»

Que não era ambicioso, especulador e ignobil claramente o evidenceiam estas palavras, escriptas entre ferros, com os olhos postos no tumulo.

Podemos afoutamente acredital-as, porque, como escrevia o padre Passa á commissão d'indultos—sempre se é sincero em presença da morte.» Rossel, antes da deserção, era geralmente estimado pelos seus merecimentos. Até no momento em que mais refervia a onda vermelha da communa, o consideraram os insurgentes dando-lhe um dos primeiros lugares. Mataram-n'o, perderam-n'o. Embriagou-se com o successo que não esperava. Collocaram-n'o na primeira plana da revolução. Era chefe; não quiz recuar. Simples soldado, teria talvez reflectido, teria talvez retrocedido{180} á voz de seu pai para offerecer mais um braço á causa da ordem, que era a causa da patria.

Os estudantes de Pariz foram a Versailles pedir o perdão de Rossel. A manifestação foi ruidosa, compacta, mas prudente. Era a derradeira esperança. Todavia o tronco venerando da republica queria sacudir de si as ultimas folhas denegridas pela polvorada da communa. Sibilaram as balas,—as folhas cahiram. A republica deixava passeiar impunemente em França os mais respeitados amigos da communa, a republica deixava resfolegar a Internacional, mas mandava fuzilar Rossel.

Ferré e Bourgeois não mereciam a camaradagem de Rossel, ainda quando os comecemos a estudar no carcere. Todos os que visinharam de Rossel se sentiram commovidos: Cassel, carcereiro; Alberto Joly, seu advogado; o padre Passa, seu director especial.

Momentos depois de commungar, escrevia Rossel esta carta a uma das mais queridas pessoas da sua familia,—sua avó:

«A mistress Isabella Campbell:

Adeus, madrinha, amo-te.

28 de novembro de 1871.

Acabamos de commungar, mr. Passa e eu, e Deus abençoou a nossa communhão.

Posso dizer que é a primeira vez que commungo, e estou extremamente agradecido a Jesus Christo, que nos deixou este symbolo.»

Sentindo nas veias o frio do tumulo, momentos{181} depois de ter recebido a particula sagrada, um dos mais commoventes e sublimes actos da religião christã, perante o qual se sentem impressionados os mais duros corações, ao qual ninguem póde assistir sem chorar,—Rossel não mentia.

Depois da patria, como elle amava a familia!

«Não posso supportar—escrevia no carcere—que se faça soffrer meus paes. Pelo que me respeita, tenho a epiderme dura, e estou tão pouco preoccupado com a eventualidade d'uma morte imminente, que a mim mesmo pergunto muitas vezes se não será uma insensibilidade doentia da minha parte. Mas o que não concebo, é que differindo sempre uma resolução, dissimulando a decisão que já esta tomada, façam soffrer uma longa agonia a meus paes, que não commetteram outro crime que não fosse o de me ensinarem a amar o meu paiz.»

São docemente dolorosas estas palavras:

«A vista de meus paes magoa-me. Hontem contava-me minha mãi os passos que deu na vespera; de repente interrompe-se: «Não posso mais! já nem me lembro! estou douda, vês tu!» Minha irmã, que estava mais serena, continuou a narração, que eu não pude ouvir. Eu via-os, eu ouvia-os; eis tudo; pouco me importava o resto. Hoje era minha mãi que estava serena e minha irmã que parecia louca. Todavia nós estavamos tranquillos hontem á noite. Mr. Passa havia-nos socegado!

«Mas eu tenho confiança—diz minha mãi—eu{182} tenho confiança; elles não te farão nada.» Pai, falla d'outra cousa: do forte de Santa Margarida, do ultimo desenho que eu fiz, d'aquelle que vou fazer; minha mãi fez-me prometter-lhe dous, e justamente, acabei-lhe o segundo esta noite, feliz por fazer alguma cousa para ella.

A pequenita não chora, mas tem o coração cheio de lagrimas.

«Tambem a ti—lhe digo-eu—tambem te fazem soffrer!» N'este meio tempo, ella rompe em soluços, por que lhe faltou a coragem.»

Os seus ultimos momentos foram para a sua alma e para a sua familia.

Está revestido d'uma resignação providencial. Vai morrer, porque deve morrer. Não treme. Mas, ao fallar de seus paes, de suas irmãs, dos seus, salta-lhe dos olhos uma lagrima. Era a ultima. O valente não tornou a chorar. Quer porém mandar-lhes a ultima palavra de saudade. Escreve-lhes, levanta-se tranquillamente da mesa, e abre com firmeza a porta do quarto. Chega o momento de partir. Entram os soldados e choram de o vêr. O gendarme que o tem de algemar estremece e perturba-se. Rossel agradece meigamente as lagrimas que lhe dão, abraça Alberto Joly, abraça o carcereiro Cassel, e desce ao pateo, escoltado pelos soldados e acompanhado pelo padre Passa.

Ferré é grosseiro e materialista. Despede estultamente o capellão Folley e escreve a suas irmãs,—crentes{183} e nobres corações de mulher, de certo—que vai morrer como viveu: sem crenças religiosas!

Bourgeois, igualmente sordido, mas menos perigoso talvez, come e bebe no seu quarto, embriagando-se para a morte.

Pois bem. O mesmo pelotão fuzilou Rossel, Ferré e Bourgeois. O governo de Versailles foi injusto. Não devia emparceirar estes tres homens.

Rossel chega ao lugar da execução acompanhado pelo seu confessor, como se quizesse que elle o conduzisse até ao limiar da eternidade. O coronel Merlin, seu juiz, está presente.

Rossel quer que lhe façam sciente de que não morre odiando-o, e pede ao seu derradeiro amigo, ao bom Passa, para que lhe ponha a venda.

Bourgeois, atordoado pela embriaguez, deixa-se vendar com indifferença.

Ferré não consente que lhe velem os olhos, e, materialista, não se dispensa o ultimo regalo;—morre de cigarro na mão, como quem sahe d'uma taberna.

Momentos depois entrava o velho pai de Rossel no quarto d'onde sahira o filho. Ao assomar á porta, descobre-se respeitosamente. Alvejam-lhe na cabeça as cans da velhice; tremem-lhe nos olhos as lagrimas da saudade; agita-se-lhe o peito n'uma ancia offegante.

Está ainda distincta a pequena cavidade onde descançára a cabeça de Rossel. O velho pai, antes de se ajoelhar, curva-se para o catre, e pousa os labios descorados no travesseiro.{184}

O carcereiro, testemunha unica d'esta scena, chora copiosamente, e, instantes depois, quando aperta nos braços o tremulo corpo do velho, orvalha-lhe os cabellos brancos com as lagrimas que não póde reprimir.

Quasi ao mesmo tempo, o padre Passa amparava contra o peito as cabeças latejantes de duas creancinhas vestidas de preto,—Bella e Sara, e dizia-lhes commovido:

—Não choreis, meus anjos, que vosso irmão está no céo. Acompanhei-o até que Deus m'o recebesse. Não choreis por elle, que é de certo feliz.

A imprensa ingleza, como se ouvisse chorar estas duas creanças, levantou-se em massa para protestar contra a morte de Rossel.

A republica, que é o regimen da equidade, na bocca dos fanaticos, fez justiça e contentou-se com entregar o cadaver do condemnado á familia que o reclamára. Famosa ironia da republica!

O cesarismo dava a toda a França festas ruidosas que deslumbravam o mundo. A republica, menos generosa que o cesarismo, apesar de não menos opulenta, cede galhardamente a cada familia o cadaver d'um homem que lhe pertencia.

A França escusava de derramar tanto sangue para ficar como estava.

Mr. Thiers dá e recebe condecorações como Luiz Napoleão. Os jantares e os bailes do palacio da presidencia arremedam os jantares e os bailes das Tulherias.{185} Madame Thiers organisa obras de beneficencia como madame Napoleão. D'antes a côrte era em Pariz; agora está em Versailles.

D'antes deportavam-se homens para Cayenna e Lambessa; agora fuzilam-se em Satory e Marselha.

D'antes applaudia-se Luiz Napoleão; agora applaude-se Adolpho Thiers.

Hontem apedrejou-se o imperador dos francezes; ámanhã apedrejar-se-ha o presidente da republica.

Ora aqui está porque eu não sou monarchico nem republicano,—porque não quero ser cousa nenhuma.

O meu posto é do lado da justiça; onde ella estiver, estou eu. É ainda por esta razão que eu protesto contra as palavras que a France atirou para cima do tumulo de Rossel. A France declara que se absteve de fallar em quanto o processo esteve affecto a um tribunal competente. A France fez o que devia; não ha motivo para encarecer-se.

Depois, quando o tribunal pronunciou o seu veredictum, quando a sentença foi executada, a France enumera as circumstancias aggravantes que o tribunal inventariou, e, constituindo-se em segundo tribunal, sentenceia um cadaver.

Recorda a France que Rossel encarregado de julgar o commandante de batalhão, Giraud, no dia 19 de abril, fôra implacavel para com o réo, accusado de desobedecer a uma ordem superior e interrompera dez vezes os debates, apostrophando:

—Mas finalmente desobedeceu!{186}

Foi ainda Rossel que lera a sentença de morte a Giraud e que escrevera estas palavras ao cidadão Laperche:

«É prohibido interromper o fogo durante o combate, ainda que o inimigo levante a coronha para o ar ou arvóre a bandeira parlamentar.

«É prohibido, sob pena de morte, continuar o fogo depois de se ter dado ordem para o suspender, etc.»

«Estas lembranças—pondera a France—bastam para dizer o que elle foi durante o seu commando, para dar uma idéa do que teria sido na victoria.»

E do que devia de ser no carcere e na morte, esqueceu-se de ponderar a France. Uma vez chefe, Rossel não podia dar exemplo de cobardia, assim como, uma vez vencido, não o deu tambem. Não trepidou diante da morte, e se Giraud, que fôra julgado traidor aos seus, não teve a coragem de agradecer a justiça que lhe fizeram, Luiz Rossel enviou ao seu juiz Merlin, por intermedio do padre Passa, estas palavras:

—Dizei aos meus juizes que cumpriram o seu dever, condemnando-me.

Não satisfeito com isto, encarregou o seu confessor de fazer calmar os odios que por ventura a sua morte levantasse entre os sectarios da idéa que o sacrificára a elle.

Eu não defendo Rossel nem fulmino a republica pelo ter mandado fuzilar na esplanada de Satory. Eu condemno a republica que manda matar Rossel e prender Rochefort.{187}

Entre Rochefort e Rossel a desproporção é immensa. Rochefort é um aventureiro, que mercadeja com a sua penna e com o seu espirito; Rossel era um homem cheio de coragem e intrepidez, sempre util á causa da idéa que defendesse.

Rochefort nogociava; Rossel combatia. Ambos desertaram da republica para a communa, eram igualmente criminosos e todavia Rochefort vive e Rossel está morto.

Mas a republica é o regimen da equidade, que exclue o compadrio e a protecção, dizem!

Rochefort está preso, ámanhã será amnistiado, fulminará o governo que lhe perdoou, por que Rochefort é d'estes homens que estão sempre do lado da opposição, e recomeçará a negociar litterariamente com a Lanterne ou o Mot d'ordre.

Passeiam a sua liberdade em Londres, Bruxellas e na Suissa milhares de communistas francezes. Como é que estes homens poderam enganar a vigilancia das tropas francezas e prussianas que guardavam as fronteiras?

Fugiram, salvaram-se, estão contentes e felizes; d'aqui a pouco tempo viverão tranquillamente em França.

Rossel, menos venturoso que elles, morreu traspassado de balas.

Estrondearam as espingardas;—a folha cahiu.

10 de dezembro de 1871.{188}

{189}