Raphael
A MR. PELLEREAU
Era um talento enorme.
O pai, artista mediocre mas de juizo claro, ensinou-lhe a dar os primeiros traços, a lançar as primeiras tintas na tela.
Mas é ninho d'Urbino, escondido n'uma das mais graciosas paragens dos Apeninos, era pequeno para tamanha aguia.
O céo d'Italia desdobrava-se n'um azul suavissimo e espelhava-se sobre as aguas tranquillas desde os canaes de Veneza até á bahia de Napoles.
Adivinhava-se que em qualquer parte da Italia sorria a natureza, com todo o esplendor das suas galas, e o amor com a sua infinita doçura.
Elle era moço e artista. O pai adivinhou a gloria d'aquelle destino, e disse-lhe:—Parte.{158}
E partiu, alegre, descuidoso, pensando um pouco na gloria, alguma cousa no amor, e namorando-se mais que do amor e da gloria d'aquella Italia formosissima em que nascera e em que primeiro devia amar.
Dias depois entrava no atelier de Perugino, em Perugia. Um artista hospedava outro.
A recepção foi cordial. Todavia Raphael, porque era elle, queria ser mais alguma cousa do que um simples hospede,—ambicionava ser discipulo.
Esboçou os primeiros quadros, coloriu os primeiros contornos, e o mestre inclinado sobre o hombro do moço pintor já o não queria só como hospede nem o quereria já como rival.
Tinha dezesete annos.
Sorria-lhe a vida e a gloria. Começára pelos retratos, adestrára-se a mão, e Perugino ficára vencido.
Um dia o discipulo quiz voar mais longe, e começou um quadro de largas dimensões, o celebre Sposalizio, cujo assumpto delicado e formoso é o Casamento da Virgem.
O artista queria emancipar-se da tutela de Perugino, mas o discipulo, respeitoso e grato, afogava a sua individualidade na maneira do mestre.
Aos vinte annos, todo o talento, que tem balbuciado até ahi, procura quebrar as gramalheiras da imitação.
É a época da liberdade.
Raphael foi encarregado de coadjuvar o seu condiscipulo Pinturricchio na reforma artistica por que ia{159} passar a cathedral de Sienna. Mas Raphael foi mais de que um obscuro collaborador n'aquelle maravilhoso poema da pintura.
Do seu pincel desabrocharam os graciosos frescos, cheios de vida e mocidade, que ainda hoje se conservam em todo o esplendor da belleza.
Um talento assim é tambem athleta; quer luctar. Florença era então a arena dos grandes artistas. Miguel Angelo e Leonardo de Vinci estavam em campo. Perugia era já pequena para Raphael. Partiu para Florença onde podia justar com os dous maiores pintores da Italia. A esperança era o seu anjo da guarda;—a gloria o sonho de todas as horas.
Ah! Florença! Como elle se sentia bem alli, pensando, executando, e dividindo o tempo com a arte e com o amor!
Fóra do atelier, esperavam-n'o os sorrisos da ramilheteira, a fioraia; quando estava trabalhando, tinha perto de si as flôres d'ella. E tanto a amava, e tanto a tinha presente quando não a via, que o seu pincel a reproduziu espontaneamente na Bella Jardineira, a primeira Virgem de Raphael, quadro admiravel conservado ainda hoje na galeria do Louvre.
Era o cartel atirado a Miguel Angelo e a Leonardo de Vinci. Estava travada a lucta entre os poderosos athletas.
Occupava n'esse tempo o throno pontificio o papa Julio II. Roma ia envolver-se n'um manto de roçagante magestade.{160}
Levantavam-se templos, erigiam-se palacios, encommendavam-se quadros. O torneio das artes mudava-se de Florença para Roma. Alli era a capital do mundo, alli pulsava o coração da Italia; grandeza, esplendor, deslumbramentos olympicos, tudo havia alli.
O architecto encarregado de velar por todas essas maravilhas da arte era Bramante, tio de Raphael.
O amor foi vencido pela gloria. Veio de Roma um convite. Raphael despediu-se da fioraia e aceitou, entre triste e distrahido, umas flôres que ella lhe dera orvalhadas de lagrimas. A florista de Florença ficava com a immortalidade que lhe dera o seu amante; Raphael partia lendo na vastidão do horisonte a epopêa do seu destino...
Roma foi em todos os tempos a fascinação dos artistas. Tudo lá tem voz para cantar as grandezas do passado, e os monumentos arruinados rumorejam ainda hoje as legendas dos maiores artistas do mundo.
Apresentado ao papa Julio II, sentiu-se maior que nunca; o seu pincel era a vara de condão que devia desencantar as maravilhas do Vaticano. Começou pela sala de la Segnatura. O grande pintor mostrou a valentia do seu pulso em quatro quadros differentes que decoram a sala:—a Theologia, a Philosophia, a Poesia e a Justiça.
O papa entrou um dia á sala onde Raphael trabalhava. Extasiou-se diante do prodigio; chamou quatro operarios e mandou desfazer a martello os frescos que os predecessores de Raphael haviam pintado. Já era{161} muito e ainda não era tudo;—começava a realisação do sonho.
E todavia nos jubilos de Raphael perpassava, de momento a momento, uma sombra; era o pincel de Miguel Angelo. Ambos tinham sido chamados a Roma, collaboravam ambos n'aquella immensa epopêa da renascença artistica da Italia, e todavia não fraternisavam em amiga communhão, nem siquer se tinham permittido a mutua contemplação dos seus quadros. Trabalhava um na capella Sixtina; o outro nas salas do Vaticano. Sempre que vinha a geito o confidenciar com seu tio, ahi lhe segredava Raphael o immenso desejo de conhecer as obras primas de Miguel Angelo. O velho artista ouvia-lhe as confidencias e sorria-se. Mas um dia, Bramante, aproveitando a ausencia de Miguel Angelo, que trazia entre mãos o Juizo Final, abusou da sua qualidade de architecto e entrou com o sobrinho á capella. O mesmo foi pascer Raphael os olhos nas telas de Miguel Angelo e deletrear os segredos artisticos que deviam operar a rapida transformação porque passou o seu talento audaz e gigantesco. A historia consigna muitos d'estes factos, em que um artista que começa parece aquecer-se para uma vida nova nas labaredas que illuminam a alma de outro artista já feito. Corregio, ao relancear os olhos á Santa Cecilia de Raphael, exclama arrebatado: «Anch' io son pittor!»—La Fontaine, ouvindo uma ode de Malherbe, sente incendiar-se-lhe a alma no fogo da inspiração.
Passados dias, Miguel Angelo entra ás salas do Vaticano{162} e não póde conter um grito de admiração. «Ah! disse elle, Raphael imita-me; Raphael estudou-me; Raphael viu o que eu tenho feito!»
E n'esta apostrophe em que espontaneamente rebenta o sincero orgulho d'um grande artista, Miguel Angelo prophetisa, sem o desejar talvez, a gloria que esperava Raphael, como Mozart prophetisa por uma intuição artistica o destino esplendido de Beethoven, e Haydn os triumphos ruidosos de Mozart.
Eram tres homens, Miguel Angelo, Raphael e Leonardo de Vinci que deviam coroar o assombroso monumento do espirito humano começado por Dante e Giotto.
Dante, como diz Charles Clement, resuscita a poesia, Giotto a pintura; Brunelleschi levanta o zimborio de Santa-Maria-del-Fiore; Colombo descobre um mundo; Copernico as leis do universo; Guttemberg espanca as trevas profundas da ignorancia; Savonarola e Luthero despertam a consciencia individual;—Miguel Angelo, Raphael e Leonardo de Vinci rematam a corôa da renascença artistica. Começa o dia da gloria depois d'uma longa noite de dez seculos. Do attrito da antiguidade com a idade media resalta a centelha que devia animar a litteratura, a historia e a arte.
Os iniciadores d'este movimento revolucionario sahiram da raça latina, e portanto eram pagãos. Assim se explica como o paganismo resuscita no catholicismo, como Jupiter se transforma em Christo, e Venus em Magdalena e na Virgem. Da religião catholica{163} nasce a poesia moderna. É um papa, Julio II, que reune em Roma os maiores pintores e os maiores architectos.
As madonas de Raphael teem uma belleza pagã.
A renascença conspira contra o ascetismo primitivo, e assim se inaugura a pintura da historia, porque, como reflectidamente pondera Louis Pfau, a renascença não viu na religião mais que a historia sagrada, e na historia sagrada mais que a historia da humanidade.
Ao tempo que o talento de Raphael começava a assombrar a Italia inteira, um opulento negociante de Sienna, Agostino Chigi, confiou do seu pincel a decoração d'um palacio que mandára construir nas margens do Tibre. Raphael quiz ainda dizer o derradeiro adeus á antiguidade, e, antes de voltar ao Vaticano, pinta para o palacio de Agostino dous quadros notabilissimos—Galathea e Psyché.
Era então um rapaz que se atirava ao turbilhão da mocidade, ebrio d'esperança e gloria. Sobre o seu temperamento divergem todavia as opiniões; o doutor Macedo Pinto[10] cita-o como sanguineo, e Emilio Deschanel attribue-lhe uma organisação essencialmente nervosa, como a de Bellini e Beethoven.
Todavia o maior numero d'historiadores revela-nos que era de melindrosa compleição, e nós, estudando vagarosamente a sua biographia, cuidamos vêr{164} n'elle um nervoso-sanguineo, dotado d'um espirito brilhante, d'estes que parece viverem em incessante combustão, como a salamandra dos antigos vivia nas labaredas fabulosas, e naturalmente propenso aos prazeres desregrados e ás expansões vehementes.
Era gentil, tinha uns bellos olhos, rasgados, dôces e meigos, e os seus cabellos pretos, que elle tantas vezes reproduzia em seus quadros, davam-lhe ás faces morenas uma expressão de encantadora doçura.
Foi em Roma, que elle amou uma rapariga do povo, fornarina, a filha do padeiro.
Muitas vezes, emquanto pintava a Galathea, abandonava a paleta para ir vêr fornarina, cujo retrato se reproduz em quasi todas as obras da segunda metade da vida de Raphael.
Por uma d'aquellas manhãs formosas da Italia, em que todo o céo se esbate n'um azul delicioso, fornarina, que estava cuidando d'umas flôres dispostas na janella, levantára de golpe a cabeça, ao sentir passos conhecidos. Se visseis afoguearem-se-lhe as faces no suave carmim das rosas que desabrocham, e brilhar-lhe nos olhos a luz delicada das estrellas que palpitam, dirieis que chegava Raphael.
—Raffaelo! exclamára a fornarina.
—Querida! suspirára Raphael. Não ames tanto as tuas flôres, que eu tenho ciumes d'ellas.
—Que remedio! Se é preciso amar as flôres para merecer o teu amor! Já te não lembras de Florença?...
—Ah! sempre cruel e formosa!{165}
—Quero vêr se, á força de cuidar nas flôres, chego a adquirir os encantos da fioraia.
—Por Deus, querida, que me despedaças o coração! Por Deus te juro, que o meu amor é só teu. Não falles da fioraia, que é apenas uma recordação. Todas as flôres de Florença não valem essa poeira branca que te cobre as tranças e faz lembrar a neve da manhã que polvilha a rosa. Querida, se tu soubesses com que vertiginoso enthusiasmo eu vou copiando nas faces da Galathea o colorido da fornarina! Quero deixar o teu retrato no palacio de Agostino; preciso que todos saibam que te amei. Se visses a Galathea, conhecias-te. És tu mesma, é a tua formosura animada pelo meu amor.
—Raffaelo, e as flôres que trouxeste de Florença?
—Seccaram. É o destino das rosas que vivem um só dia.
—Ah! E o amor da fornarina ha-de extinguir-se um dia como as flôres da fioraia. De mim, só ficará no teu coração o orgulho de haveres pintado a Galathea. O quadro, porque é d'um grande artista, ha-de subsistir; mas a lembrança do modêlo ha-de apagar-se primeiro que a tua vida. Que resta da fioraia? A Bella-Jardineira. Que ha-de ficar da fornarina? A Galathea. Ella era mulher do povo; eu tambem sou. Cabe-nos a mesma sorte;—o esquecimento. O teu amor é um capricho de artista; é mais um devaneio da tua phantasia, que uma necessidade do teu coração. O artista copia, mas o homem não ama.{166}
—Ah! que me offendes. Cala-te, por Deus. Eu não quero que me fira o espinho do resentimento quando encostar a cabeça ao teu regaço no lance extremo. Estou doente, se estou! Tenho vivido só, de sonho em sonho, de esperança em esperança. Sinto que a febre me incendeia o cerebro. É o cansaço. Eu só tenho espirito, e o espirito ama, delira, ensoberbece-se. O espirito dos artistas é lava;—queima, escalda, por isso o corpo succumbe. Restas-me tu, querida. Quero morrer encostado ao teu seio; que os teus labios recolham o ultimo suspiro da minha vida...
—Raffaelo, como estás triste, como és apprehensivel! Oh! se te amo perdidamente, loucamente! O ciume é irmão gemeo do amor; não andam um sem o outro. Perdôa-me os desvarios do coração. Culpa é de te amar tanto... Está formoso o dia, o sol é italiano como tu e como eu. Não falles em tristezas, em soffrimentos. Tu, que tens vivido a luctar, não succumbas a ti mesmo. Levantei-me alegre, quando a luz da manhã entrou pela casa dentro. Vim cuidar das minhas flôres, que são tuas. Olha que bonita rosa esta! Sabia que para ti nascia, desabrochou para fazer inveja ao teu pincel. Não ha mais dôce carmim! Olha... Como é formosa!
Raphael levou a rosa subitamente aos labios e depois deixou-a cahir no seio.
D'outra vez tinha elle acabado um quadro primoroso destinado ao convento do Monte-Oliveto, em Palermo. Correu voz em Roma de ter sossobrado o navio{167} que transportava o quadro. Raphael, como se o seu talento precisasse de novos titulos de gloria, sentiu-se profundamente triste ao saber que perdera uma das suas primeiras obras. Foi nos braços de Fornarina que elle despeitorou as suas tristezas d'artista.
—Ah! dizia-lhe elle, era uma formosa cabeça de Christo, em que eu pozera extremo cuidado. E tinha sido feliz na expressão de soffrimento, na pallidez dolorida das faces, na suave tristeza que desabrochava em sorrisos...
—Tenho ciumes, Raffaelo. De quem é o teu amor? Meu ou da tua gloria? Fallas d'um quadro que perdeste! E a Disputa do Santo Sacramento? E a Escola de Athenas? E Psyché? E Galathea?—a Galathea que sou eu, que deve ser o teu quadro dilecto, por que te ama, por que corresponde ao teu amor d'artista! E o Vaticano, Raffaelo? O Vaticano onde o teu nome fica para sempre escripto, para sempre coroado pela maior das realezas do mundo—a gloria!
Volvidos dias, chegava noticia a Roma de ter abordado ás praias de Genova a caixa que encerrava o quadro destinado ao mosteiro de Palermo. Perdera-se o navio, a tripolação e as mercadorias, mas o mar respeitára o quadro de Raphael e restituira-o, depondo-o cautelosamente n'uma praia italiana... A magestade do mar tinha respeitado a magestade do genio.
A Transfiguração, quadro encommendado pelo cardeal Julio de Médicis, foi o ultimo, se bem que se possa dizer o primeiro de Raphael. «Ha n'esta composição—escreve{168} Valentin no seu livro Les peintres celébres—figuras tão bellas, cabeças de um estylo e d'um caracter tão novos e tão variados, que tem sido olhada, e com razão, por todos os artistas, como a obra mais admiravel que produziu o pincel de Raphael.»
Havia pouco tempo que estava concluido o quadro da Transfiguração, quando, habitando em Farneto, recebeu ordem para vir a Roma. Deu-se pressa em obedecer, e chegou coberto de suor ao Vaticano onde se demorára n'uma das vastas salas fallando largamente da fabrica de S. Pedro. Resfriou e, poucas horas depois, entrava em casa subitamente atacado d'uma febre perniciosa, que o arrastou ao tumulo.
Quando Fornarina se abeirou do leito, turbaram-se de lagrimas os olhos de Raphael.
—Parte, disse-lhe elle. Esperava morrer nos teus braços, mas não posso. Falta-me a coragem. Sempre ha-de haver quem me feche os olhos. Deixa esse triste encargo a Julio Romano que é mais que discipulo do amigo,—é amigo do mestre. Deixa-me vêr bem os teus olhos; quero recordar-me da Glycera. Como me estou lembrando das minhas horas de arroubado trabalho no palacio de Agostino! É o ultimo clarão da memoria que se extingue. Ah! parte, querida, parte. Quero poupar-te ao doloroso espectaculo d'um cadaver alumiado por quatro cirios...
N'este momento entrava Julio Romano.
Instantes depois, Raphael cahia prostrado no leito, e o discipulo amado colhia nos braços Fornarina para a{169} tirar da camara onde ella sentia os pés chumbados ao pavimento.
Quatro pessoas dividiram o espolio do grande artista: Fornarina, Julio Romano, um padre, tio de Raphael, e o cardeal Bibiena, a quem legou uma propriedade que possuia perto do Vaticano.
Na sexta-feira santa do anno de 1520, dia em que tinha nascido, rendeu ao Creador a grande alma.
O seu cadaver foi collocado n'uma das salas do Vaticano, onde de preferencia costumava trabalhar. Á cabeceira, erguia-se o quadro da Transfiguração.
Os olhos dos muitos admiradores que por um momento pousavam no feretro, alteavam-se depois á tela onde o pincel do artista havia traçado a epopêa da sua gloria...{170}
[10] Medicina administrativa e legislativa, primeira parte.
{171}