Resposta do author ao snr. Alexandre da Conceição
Meu bom amigo:
Conservo-me impenitente.
Não me confesso convencido, nem siquer vencido, apesar do Conceição ter já começado a cantar-me piedosamente o De profundis.
Quero ainda enviar-lhe um grito de vida e rebellião da margem do imaginario sepulchro para o fundo da qual o meu amigo julgou arrojar-me com a sua argumentação um pouco sophistica, é certo, mas sempre habil e benevola. Não acabou esta amigavel pendencia pela morte d'um dos contendores, como vê; ella é que de per si mesma, como o meu amigo deu a entender com a sua phrase do dize tu, direi eu, se está contorcendo nos derradeiros paroxismos, porque realmente não tem vida para mais.
Deixe-me dizer-lhe pela ultima vez a minha opinião,{134} que se me afigura sempre a mesma. Supponho eu que me tenho conservado no terreno onde comecei a pugnar.
A mathematica é uma sciencia positiva, em que a razão caminha de demonstração em demonstração até chegar á verdade final,—a conclusão. Por conseguinte póde-se ter á conta de gymnastica intellectual, que, á força de evoluções trabalhosas, chega a descortinar ao espirito por ella cultivado as eminencias olympicas, defesas á vulgaridade chata.
A litteratura é caprichosa como a borboleta, adeja, volteia, sobe, desce, doudeja, vive da imaginação, por ella e só para ella, porque muitas vezes, poderia dizer quasi sempre, o ideal a que aspira é uma ficção, uma utopia, um ponto vago, emfim. É por isso que os grandes poetas, e os grandes artistas tambem, são uns doudos sublimes, que pensam umas chimeras côr de rosa que a multidão não entende; e é por isso que antes querem morrer abraçados ao seu ideal do que transigir com a realidade das cousas e dos homens. Ora o mathematico não phantasia, não devaneia, não sonha,—raciocina. Segue um methodo, um processo, um calculo. O poeta é livre, póde escolher voluntariamente o seu norte, póde amarar a gondola da sua imaginação por aparcellados pégos, como Byron, ou deixal-a deslisar mansamente pelos lagos serenos da Italia, como Lamartine.
Agora pegue d'uma alma poeta de vinte annos, essencialmente livre e essencialmente sonhadora, e em{135} vez de a educar em Homero, em Virgilio, em Dante, em Camões, em Garrett, metta-a no carcere do positivismo mathematico, a rações de Serrett ou quejandos, entre um compendio arido e uma lousa funebre. Não quer sujeitar-se, resiste, lucta, e o mais das vezes o que lhe acontece é renunciar á gloria d'um pergaminho academico para ficar em plena posse da sua liberdade intellectual. É como se transportassem subitamente um viajante, que vai atravessando uma campina florida, a uma charneca solitaria, coberta por um céo plumbeo. E resiste, e lucta este poeta de vinte annos porque nasceu fadado para outros destinos, e aborrece a mathematica, e detesta-a, porque uma voz intima lhe diz que a sua missão é cantar como os rouxinoes dos salgueiraes, viver devaneiando como elles, e morrer de cansaço modulando á porfia com o echo melodioso do seu ideal...
Note que eu fallo, e sempre fallei, dos que nascem predestinados para a gloria, dos grandes poetas e dos grandes mathematicos, porque um poeta mediocre e um mathematico igualmente mediocre fazem-se, conseguem fazer-se com o auxilio d'uma paciencia evangelica.
Disse eu e repito-o:
«Não admira que os grandes mathematicos sejam ao mesmo tempo grandes poetas, porque quando a intelligencia attinge o maximo grau de desenvolvimento, está apta para abranger todos os conhecimentos humanos.»{136}
Então um homem que tem uma intelligencia acima do vulgar, que atravessou uma longa educação scientifica, que sujeitou a razão a uma trabalhosa gymnastica intellectual, não estará mais habilitado para comprehender toda a casta de bellezas artisticas, do que um sugeito que não sabe analysar grammaticalmente uma oração? De certo que sim; isto é intuitivo a meu vêr. Ora o grande mathematico póde comprehender Homero, tel-o á cabeceira como Alexandre, mas o que não póde conseguir de certo, salva uma ou outra rarissima excepção, é escrever a Illiada, e ser Homero. Um grande poeta, Lamartine ou Byron, pouco importa, não comprehenderá melhor que outro qualquer homem a alma sublime de Herschell ou Newton, apesar de reconhecer comsigo mesmo que não nasceu para se nivelar com Newton ou Herschell? Tambem creio que sim; tambem creio que isto é intuitivo.
O meu amigo accusa os francezes de devaneiadores e por isso mesmo de pouco analyticos, de pouco mathematicos. Quer dizer, accusa-os de viverem para o amor e para a alegria, de amarem as flôres, os versos e as mulheres, e de não preverem as funestas consequencias, já realisadas, da ultima crise sociologica.
É tambem certo que quando a França dava ao mundo um grande mathematico, primeiro havia gerado uma duzia de grandes poetas. Porque é então? Porque isto mata aquillo, porque a mathematica, que é a razão, mata aquillo, a poesia, que é a verdadeira liberdade da phantasia e do coração.{137}
O meu amigo, que era mavioso poeta,—sinceramente lh'o digo,—teve de suffocar em si a chamma vivaz da inspiração com os gelados orvalhos das sciencias exactas. D'outro modo, teve de esmigalhar a sua alma, por amor aos cabellos brancos de seu pai, que lhe queria dar uma posição social, para poder regressar ao lar paterno com uma carta de bacharel em mathematica. A inspiração de que brotaram as Alvoradas era dôce, gentil e donairosa. Todavia o Conceição quiz abafal-a, apagar a chamma, desfolhar no altar da sua mocidade as flôres candidas e perfumadas da poesia. Teve de andar nos campos a medir terrenos, a rasgar estradas, a levantar plantas.
Tranquillisou a velhice de seu pai, e como elle já não podia receiar pelo destino do filho estremecido, e o meu amigo tivesse em horas de melancolia umas secretas saudades dos seus tempos de poeta, porque para isso nascera, esboçou no seu gabinete um quadro, cuja idéa é formosa, mas que não tem, a meu vêr, o colorido mimoso e delicado dos seus primeiros versos. Refiro-me ao seu poemeto—Abençoada esmola—e desculpe-me esta franqueza, que a nossa amizade authorisa de certo, e que eu tenho comsigo, porque sei que é franco, leal e cavalheiro.
Conhecia-se que o poeta se havia secularisado. Infelizmente era assim.
Do Alexandre da Congeição, o academico sempre apercebido para celebrar as grandes iniciativas e as grandes glorias, restava o poeta esmagado pela pressão{138} da mathematica. Creio que a sua propria consciencia lhe ha-de dizer isto mesmo.
Ah! meu amigo, como eu quizera vêr o seu espirito a espannejar-se ainda, livre, alado, inquieto, deixando vêr aqui e acolá a dôce melancolia das suas estrophes! Perdemol-o, confessa o meu amigo que se secularisou, e eu sinceramente sinto que tenha de sahir pela honra do seu convento mathematico para digladiar com o mais obscuro soldado das suas antigas fileiras.
Ponho aqui ponto para que isto não enfade mais o bom publico que nos escuta, e que por fim de contas não nos quer mal. Não é meu proposito, entenda-se, mostrar que o meu amigo vai succumbir a este golpe final. Eu conheço a qualidade das minhas armas, e os recursos da sua vasta intelligencia. Confesso-me não convencido nem siquer vencido, e sou eu mesmo que declaro ao publico que o meu amigo dispõe de meios que lhe permittem resistir á minha lastimavel dialectica.
Tratarei de passagem os demais pontos da sua terceira carta.
Quanto ás relaçõs physiologicas da intelligencia com o cerebro, julgo-me obrigado a transcrever, para me fazer comprehender melhor, estas palavras de Paulo Janet:[7]
«A experiencia nos ensina, é certo, que o cerebro entra por uma certa parte, por uma grandissima{139} parte no exercicio do pensamento; mas qual seja a causa unica e rigorosa medida, é o que não está demonstrado.» É a massa cerebral, a composição chimica, a electricidade, o phosphoro? Não está averiguado, tem razão, e a isso não era eu estranho.
Todavia era meu proposito referir-me ao que a experiencia nos mostra, e Paulo Janet corrobora, que o cerebro entra por muito no exercicio do pensamento.
Creio que a maxima parte da gente assim o havia de entender.
Adiante.
Com relação á educação da mulher sou a dizer-lhe que tenho certas convicções adquiridas no tranquillo silencio do meu gabinete, uma das quaes, e das não menos profundas, diz respeito ao assumpto que vou tratar. Posso estar em erro, mas por ora ainda não tenho razões para me demover. Quando tiver, confessarei a minha abjuração solemnemente. Se estou em erro, redunda apenas em detrimento meu, por isso que os homens que teem restricta obrigação de estudar pausadamente esta questão são os philosophos e os legisladores.
Ora eu nem quero ser uma nem outra cousa.
Na questão da educação da mulher aceito inteiramente as idéas do snr. D. Antonio da Costa no seu livro—A instrucção nacional. Permitta-me, pois, que me soccorra da respeitosa amizade que me liga a tão sympathico escriptor, e que me defenda com elle.
É preciso, é indispensavel, é urgente promover a{140} instrucção da mulher, que está em Portugal na proporção d'uma escóla para 6:000 habitantes, sendo que dos 146:000$000 réis votados para as escólas primarias, apenas 18 revertem em favor das creanças do sexo feminino.
Isto está d'accordo com o que eu expuz previamente, porque me lembro de dizer que se não queria a mulher sabia tambem não a queria ignorante.
Urge pois educar a mulher, porque nasceu para mãi, e da mãi é que brota a humanidade, da mãi é que deriva a felicidade social. Mas note-se, entenda-se bem, quero a mulher educada para as funcções pedagogicas que possa exercer na escóla ou no collegio, para as attribuições industriaes que precise desempenhar, para as occupações artisticas que lhe possam caber, e especialmente, e primeiro que tudo, para mãi, para directora, não só destinada a versar negocios de economia domestica, mas tambem para ser espelho na sociedade, divindade na familia,—para ser mãi e esposa.
Deverá defender-se e favorecer-se a absoluta emancipação da mulher?
Digo que não,—convictamente digo que não.
Eu quero que a familia se condense, se unifique, se levante, não desejo portanto roubar-lhe o unico meio de rehabilitação que ella tem,—a mulher. Não quero que a mulher se masculinise para a sociedade, porque não desejo desmembrar a familia.
«Dizeis—escreve o snr. D. Antonio da Costa,—que{141} a somma da intelligencia e das qualidades da mulher se acha actualmente perdida para ella e para a sociedade uma vez que lhe fecham as carreiras politicas e scientificas? Vêde que esta razão fundada na capacidade igual dos sexos, exigiria, para haver logica na vossa doutrina, que as funcções hoje especiaes da mulher, educação infantil, governo da casa, costurar e bordar, formação dos costumes publicos pela influencia domestica, devessem tambem pertencer ao homem, aliás seriamos nós as victimas da desigualdade cujo principio combateis.»
Que igualdade querem para a mulher? A igualdade politica e scientifica? Sou contra ella, resolutamente contra ella, pelas razões já expostas. Igualdade civil? Convenho, e conspiro contra a tutella oppressora que soffre a mulher quer seja casada ou viuva. Igualdade moral? Quem lhe disputa essa? que «é verdadeira, como diz Paulo Janet na Familia—é evidente, e condição essencial em uma familia completa e feliz.»
Isto é o que eu penso, a convicção que eu tenho adquirido n'uns estudos placidos a que me dou, porque eu estimo os livros serenos e crystallinos, e não se desvirtue a minha opinião, e não se diga que eu quero a mulher analphabeta e só apta para fiar ou coser.
Isto penso eu.
Mas para que discutil-o, Conceição?
Que o discutam philosophos e legisladores, que{142} façam luz no espirito publico, que demonstrem, que provem, que eu então irei após a verdade.
Para questão de tal magnitude não me julgo habilitado.
Poz o meu amigo em duvida as funcções educativas do esposo! Pois o pai não educa, não dirige a educação do filho! Sabe que eu não quero a mulher ignorante, mas por não a querer ignorante, não deixo de reconhecer que os pais são, como diz o Garrett no tractado Da Educação, «os mentores e educadores naturaes de seus filhos.» Plenamente concordo com Janet, quando expõe que «o pai esboça com firmeza a estatua do homem futuro, e a mãi retoca, aperfeiçoa e alinda-a.» Para isto cumpre não ser ignorante, mas não é indispensavel que seja sabia.
Aqui tem com franqueza as minhas opiniões. Estou firme n'ellas, e estarei sempre, até que os factos sociaes se encarreguem de mostrar-me o erro.
Agora deixe-me dizer-lhe que não tardam nada as andorinhas e que podemos intimidal-as com estes exercicios de polvora secca. Vão cantar os rouxinoes e eu, que mercê de Deus não tenho de resolver nenhuma operação arithmetica, folgava de poder ouvil-os por estas tardes de primavera em que o céo é azul e sereno. Combato mal, porque quando me tiram dos meus dilectos remansos vou saudoso de tão socegada obscuridade. No meu lar espera-se a primavera como uma festa, e o que é certo é que tenho descurado as flôres da minha janella por causa d'estes malditos{143} algarismos, que eu suppunha ter afugentado de vez, não obstante a honra que me deu o Conceição em descer até pelejar lealmente commigo.
Aperto-lhe cordealmente a mão.
Creia-me sempre
seu amigo e admirador,
Porto, 14 de março de 1872.
Alberto Pimentel.{144}
[7] La cerveau et la pensée.
{145}