Terceira carta do snr. Alexandre da Conceição ao author
Ill.mo amigo.
Este nosso palestrear leva geitos de não terminar este anno, e estamos apenas em principios de março. Em cada folhetim seu surgem a par da primitiva questão, que me traz aqui representando o papel de cavalleiro da triste figura, outras questões qual d'ellas mais grave e mais complicada. Vamos mais uma vez á primeira questão, a vêr se conseguimos entender-nos no meio do estrondo d'estes exercicios de polvora secca.
É ou não verdade que o Pimentel, no periodo que deu origem a esta amigavel correspondencia e que vem transcripto no seu ultimo folhetim, revela manifestamente a opinião de que o estudo das mathematicas é inimigo inconciliavel da aptidão poetica, pois que{122} muitas das nossas melhores reputações litterarias, como Garrett, Camillo Castello-Branco, etc., mostraram com o seu muito amor ás letras e ás musas horror igual pelos numeros e pela algebra? Creio que é verdade, e esta opinião já o meu amigo concordou que não é segura, pois que me diz na sua ultima carta:
«Não admira que os grandes mathematicos sejam ao mesmo tempo grandes poetas, porque quando a intelligencia attinge o maximo grau de desenvolvimento, está apta para abranger todos os conhecimentos humanos.»
Confessa o meu amigo pois que pelo estudo das mathematicas se póde attingir o maximo grau de desenvolvimento intellectual—o que não implica que esse grau de desenvolvimento se não possa attingir com outra qualquer ordem de estudos—e confessa mais que uma intelligencia chegada a essas luminosas alturas está apta para a comprehensão de todas as verdades scientificas, litterarias e artisticas. Ora é isto exactamente o que eu me tinha proposto demonstrar-lhe desde todo o começo, pois que se o estudo das mathematicas robustece e eleva a intelligencia, e o maximo grau de desenvolvimento intellectual não é incompativel com o desenvolvimento da aptidão poetica, é claro que, em principio—que, como todos os principios, tem as suas excepções—o estudo das mathematicas não faz nem póde fazer mal algum ao gosto{123} litterario ou á inspiração artistica. Permitta-me pois dizer-lhe que não sou eu que estou de accordo comsigo, mas que é o Pimentel que se pôz de accordo commigo, não pela força dos meus argumentos, que são d'uma debilidade lastimosa, mas pelo esplendor proprio da verdade, na qual eu o convidei a attentar.
Depois d'isto será desnecessario dizer-lhe que eu não chamo aptidão poetica ao geito para fazer versos. Tomo a palavra poesia na sua accepção mais ampla e mais elevada, na altura em que o meu amigo a comprehende e a cultiva. Que o estudo das mathematicas seja avesso á poesia pequenina, lymphatica, entanguida e constitucional que por ahi nos ministram quotidianamente, não serei eu que o duvide, que com as mathematicas me lavei da ridicula monomania de fazer versos ao palôr da lua, ás brisas, á alvura dos lirios, á modestia das violetas e a outras especies similhantemente insipidas; mas que o seja a poesia digna de tal nome, a este lyrismo interior, a este santo enthusiasmo que produz nas almas a sublime loucura do genio, não creio, nem o meu amigo o póde crêr tambem, porque a poesia assim comprehendida é a manifestação da intelligencia no seu estado de graça.
Esta questão por conseguinte, em que eu ganhei os seus folhetins para me compensarem do descredito que me devem ter acarretado os meus, levantada a apparente contradicção que o meu amigo notou nas minhas idéas sobre este assumpto, termina aqui, porque{124} isto vai tomando geitos d'uns dize tu direi eu interminaveis.
Vou pois responder á contradicção que me aponta, e passar a conversar comsigo sobre uns outros pontos do seu folhetim.
Diz o meu amigo que sustentando eu que os estudos mathematicos não são contrarios ao desenvolvimento das faculdades poeticas e do gosto litterario, estou em opposição commigo mesmo quando avanço que se dessem á França mais arithmetica e menos versos Sedan seria impossivel.
Crivei este periodo umas poucas de vezes e, á parte o joio dos meus defeitos grammaticaes—com que já me não afflijo porque estou calejado no peccado—não achei cousa que se parecesse com uma contradicção.
Eu accuso os francezes de futeis; accuso-os de tratarem as questões mais serias com a leviandade que lhes é propria, de fazerem romances quando se trata de escrever historia, de recitarem versos quando se trata de discutir sciencia, de sonharem theorias de governação platonica quando se trata de assentar principios de democracia pratica, de orarem ás turbas em estylo academico e repolhudo quando se trata de pegar em armas e defender a patria.
Foi isto o que eu quiz dizer e que o meu amigo não podia deixar de entender assim.
Que contradicção ha entre isto e a minha these de que o estudo das mathematicas não póde ser prejudicial á aptidão poetica?{125}
Póde acaso entender-se que eu quiz apresentar os francezes como eminentemente aptos para a poesia, e ao mesmo tempo e por isso mesmo rebeldes ao senso pratico e á comprehensão das questões positivas?
Creio que não, porque sendo a litteratura, como não podia deixar de ser, o espelho onde se reflecte em toda a sua verdade o genio d'um povo n'uma dada época, um povo futil ha-de ter uma litteratura futil, e é o que se está vendo em França actualmente, e o que se tem visto sempre e em toda a parte em identicas circumstancias: á falta de tino pratico, de seriedade de espirito, de robustez d'alma e de convicções corresponde o abaixamento litterario filho d'essa depressão de espirito e de caracter.
Menos contradictorio com as minhas opiniões actuaes é o facto que me aponta de eu ter trocado a lyra ferrugenta das minhas Alvoradas pelas contemplações astronomicas; já acima lhe disse que foi com as mathematicas que eu me penitenciei do peccado mofino da poesia piegas, e eu nunca dei outra.
Surprendeu-me este periodo do seu ultimo folhetim:
«É facto averiguado pela critica physiologica que a intelligencia varia de homem para homem segundo as mesmas condições physicas do cerebro.»
Se não se offende peço licenca para lhe dizer{126} que eu estou na innocente persuasão de que a physiologia ainda não chegou a averiguar um facto tão importante, a não ser alguma physiologia official ad usum delplini.
Acredito mais que a physiologia em questões de analyse organica, quantitativa e qualitativa, está ainda muito áquem das suas elevadissimas aspirações, e que o ponto que o meu amigo diz averiguado me parece sufficientemente duvidoso para me aconselhar a prudente resolução de ter para com elle uma espectativa benevolente, como se diz em S. Bento.
Isto porém é uma questão incidente, que eu não posso nem sei discutir. Adiante.
Apesar de ter o Legouvé na sua estante, apesar das minhas amigaveis reclamações sobre este ponto, insiste o meu amigo em sustentar que a educação litteraria completa faz mal á mulher e acrescenta:
«Dando-se tão lata instrucção á mulher occasiona-se um desequilibrio na familia, desapparece um dos elementos primordiaes—o pai. Ha um excesso de intelligencia, mas ha uma diminuição de sensibilidade, porque a mulher usurpou as funcções educativas do esposo.»
O meu amigo crê que ha actualmente equilibrio na familia? Mas que qualidade de equilibrio, permanente, estavel ou instavel, e permitta-me, por graça, a caturrice da distincção mathematica? Mas como quer{127} que haja equilibrio se as duas forças que solicitam a familia são desigualissimas e incidentes?... Como ha-de haver equilibrio se o homem, o esposo vive em pleno seculo XIX e a mulher em plena idade media?... Que vê o meu amigo na familia moderna em geral, e não n'esta ou n'aquella familia especial que é honrosa excepção á regra? Marido e mulher são duas creaturas que se não conhecem: o marido trabalha, estuda, pensa, lucta, é funccionario, é politico, é deputado, é escriptor, é poeta, é homem de sciencia; a mulher não sabe em que elle trabalha, não conhece o que elle estuda, não comprehende o que elle pensa, ignora-lhe as ambições, não o coadjuva nas luctas, não o estimula, não o consola, não o anima, por que não póde, por que não sabe, ou melhor, por que nós lhe não damos a força, por que nós lhe não damos educação. O casamento actualmente, em geral, não é a união de dous individuos, de duas forças, de duas almas para a constituição da familia, esta instituição verdadeiramente divina, por que é sublimemente humana, é apenas a juncção de dous corpos, cujas almas ou se desconhecem ou se repellem. D'ahi a desordem ou a indifferença, tomando-se esta muitas vezes por felicidade. D'ahi a crescente desmoralisação dos costumes privados, o celibato commodo e prudente que tem por origem o egoismo; d'ahi o desregramento das ambições politicas e argentarias, como compensação á esterilidade das ambições domesticas legitimas.
Vive-se na rua, por que a casa, o lar só serve{128} para lá ir comer ou dormir, quando se não dorme e come pelas orgias. A mulher não é uma companheira, é um camarada militar, uma creatura que nos escova o fato, que nos arruma o toucador e que nos põe em ordem a mesa do trabalho. D'ahi estes ares ridiculamente protectores que nós nos permittimos com as mulheres; d'ahi estes compadecidos modos cathedraticos com que nós lhes fallamos em letras, em sciencia, em artes, em politica; d'ahi esta nossa insolente superioridade intellectual ganha a custa do isolamento a que as votamos, da ignorancia a que as condemnamos; d'ahi este estado social violento, hypocrita, convencional e esteril em que nos arrastamos sem convicções, sem dignidade, sem enthusiasmo, por que nos vêmos obrigados a estudar a sciencia pelo ganho, a arte pelo lucro, a litteratura por officio, a politica por vaidade; d'ahi esta burguezia de sentimentos, este plebeismo de educação que nos faz tributar uns respeitos hypocritas e convencionaes á mulher, quando a encontramos nos salões de baile, e que nos leva a apedrejal-a quando a encontramos pela rua.
A mulher actualmente ou vive annullada pela ignorancia, ou resignada com o despotismo das leis, ou em guerra aberta com a nossa autocracia conjugal.
Andamos aqui a escrever artigos do fundo sentimentaes e floridos a favor dos escravos do Brazil, e por que não havemos de pedir franca e logicamente a emancipação para a ametade do genero humano? Pois acham utopia ridicula a emancipação da mulher{129} e não acham grotesca a emancipação do escravo? Que maiores direitos tem o negro ignorante e brutalisado pelo chicote á instrucção, á igualdade social, do que a mulher? Utopia! Chamem-lhe utopia embora, mas tenham tambem a franqueza de chamar despotismo e brutalidade ao direito da força. Parece que temos medo do espirito feminino, parece que nos assusta a concorrencia do trabalho intellectual da mulher!...
Dizemo-nos liberaes, e fechamos as portas dos nossos parlamentos á opposição! Parece que nos dóe a consciencia!... Porque não ha-de a mulher collabolar comnosco na obra da civilisação?... Pois a ethnologia nota as profundas differenças de constituição do craneo que caracterisam as diversas raças de homens que povoam o universo, nota ao mesmo tempo a perfeita igualdade d'essa constituição entre o homem e a mulher, e nós, pedindo a brados a igualdade de direitos para todos os homens, sem distincção de raça, pedimos ao mesmo tempo que se neguem esses direitos á mulher porque abusa d'elles? Mas como é que a mulher abusa d'esses direitos, se nunca usou d'elles?... Quem disse que a mulher abusa d'esses direitos?... quem o sabe?... quem o demonstrou? Dil-o a historia?... sabe-o a philosophia?... demonstrou-o a sciencia? Pois démos sempre á mulher a ignorancia pôr dote, e gritamos que lhe faz mal a instrucção? E porque é que a instrucção faz mal á mulher e faz bem ao homem? A muita instrucção embota-lhe a sensibilidade, diz o meu amigo! Perigosa sensibilidade a que{130} prescinde da intelligencia; e é com effeito essa a sensibilidade feminina, sensibilidade desregrada, impetuosa, indomavel muitas vezes, que as martyrisa, que as adoenta, que as exalta, que as perde, porque sentir, na accepção cruamente physiologica do termo, é o unico modo de ser da sua vida interior, vida riquissima de aptidões, mas que nós lhe circumscrevemos aos estreitos limites do trabalho domestico quotidiano, vulgar e quasi mecanico.
A mulher muito instruida é perigosa, diz ainda o Pimentel, por que usurpa as funcções educativas do esposo. Diga-me em que paiz os pais, a não ser os muitos ricos ou os que tenham uma profissão muito especial, educam seus filhos. As funcções educativas do esposo!... Mas então que quer deixar á mulher, se até a esbulha do sublime encargo de primeira preceptora de seus filhos? Nós é que somos e temos sempre sido usurpadores de taes funcções. Eu creio muito pelo contrario que o principal trabalho destinado na familia e na sociedade á mulher é o trabalho da educação, e para educar é preciso saber, e para saber é preciso estudar e pensar, duas cousas que a sociedade prohibe á mulher actualmente.
É convicção minha, e n'isto como em quasi tudo estou com o meu estimavel Legouvé, que a sociedade não chega á solução satisfactoria d'um certo numero de problemas gigantes que assombram o mundo moderno, em quanto a mulher não collaborar com todas as forças de que é capaz na resolução d'essas questões.{131} Por exemplo: as questões de beneficencia, de instituições de caridade, de sociedades cooperativas e de previdencia, com as quaes se prende a magna questão do proletarismo e da miseria, só o concurso do espirito feminino as póde encaminhar para uma solução completa. Depois, e prendendo-se ainda com estas, vem a questão do ensino, em que a mulher póde e deve prestar grandissimos serviços. Depois ainda, ou talvez antes de todas estas, vem a questão religiosa, esta mole gigante que traz ahi a sociedade vergada sob o peso da hypocrisia, da duplicidade, da indifferença da tibieza de caracter, da frouxidão de convicções, do cynismo; esta sphynge esculpida na frente de todas as questões sociaes e para a qual não ha Edipo possivel emquanto a sociedade beber com o leite todos os preconceitos, todos os sonhos, todas as phantasias, todos os absurdos de que se nutre o espirito da mulher contemporanea.
Já vê a importancia que eu dou á educação da mulher; quero essa educação amplissima e tão completa quanto o requeira a aptidão especial que cada mulher revelar. Quero a sua emancipação intellectual, moral, civil e politica... e politica, creia n'isto, por que não sei recuar nem me assustam as consequencias legitimas de principios que considero verdadeiros, embora o mundo, e o meu amigo com o mundo, me taxem de utopista, de exaltado e de revolucionario.
Apresento-me bem a descoberto e francamente n'esta questão, para que o meu amigo ataque tambem{132} francamente os pontos que julgar vulneraveis. Espero-o com o respeito que me impõe a sua superioridade, mas com a coragem que me dão as minhas profundas convicções.
Vou terminar por hoje.
O Garrett, o Lopes de Mendonça e outra gente de cothurno disseram cousas muito boas é muito bonitas ácerca do Genio do Christianismo de Chateaubriand. Sei isso e pouco mais saberei do que isso; mas ou por ignorancia, ou por falta de gosto, ou por caturrice é certo que, apesar de todas essas authoridades, eu considero o Genio do Christianismo um bom livro apenas como producção meramente litteraria, e n'este caso tenho só a observar que o titulo me parece um pouco ambicioso. Como livro de historia porém, e elle tem pretenções a isso, permitta-me dizer-lhe que o julgo deploravel, e como livro de philosophia por que se quer fazer passar, acho-o simplesmente piegas e lamuriante, e olhe que não faço ao livro grande injustiça, creio eu. O meu amigo pensa porém d'outro modo, e eu não lhe quero mal por isso, comtanto que me creia sempre
seu amigo e admirador,
Bragança, 3 de março de 1872.
Alexandre da Conceição.{133}