V
No dia seguinte, quando saímos do hotel depois de almoço, era quasi uma hora da tarde.
Convencemo-nos mais uma vez de que não ha nada tão bom para gastar o tempo... como não ter nada que fazer.
Fomos a Collares, em burro. Só o Leotte pediu licença para ficar. Concedida;—sob condição de que daria conta ás côrtes do uso que fizesse d'esta auctorisação legal.
—O Leotte traz grande empresa entre mãos.
—Empresa de cozinha, que póde esturrar-se facilmente.
—Saberemos depois... dizia o Vasconcellos, fustigando as orelhas do burro rebeldemente ronceiro.
A varzea de Collares estava realmente encantadora n'aquelle dia. Pairava no ar uma serenidade{42} saturada de bucolismo e de limpidez campestre, capaz de inspirar idillios á alma de um agiota. As arvores floridas perfumavam o ambiente. As aguas do rio das Maçãs dormiam como a superficie de um espelho. Passaros cantavam entre o arvoredo, mas não eram certamente rouxinoes, o que desesperou o Gonçallinho Jervis.
Fomos seguindo para o mar, na direcção do Cabo da Roca. Muitos rapazitos de Collares acompanhavam-nos, correndo, pulando adeante de nós. Iam na esperança de que quizessemos vel-os descer pela Pedra de Alvidrar, como aconteceu. A mim horrorisou-me vel-os deslisar ao longo d'esse rochedo empinado, que mergulha no mar; a cada momento me parecia que os pés ou as mãos lhes faltariam, e que, n'um abrir e fechar d'olhos, elles desappareceriam entre a espuma das ondas, que ali se despedaçam com estrondo.
Tambem fomos vêr o Fojo, esse grande funil de rocha bruta, que communica com o mar, cujo estampido sinistro exerce em nós uma estranha influencia de repulsão.
Foi bello todo esse passeio através de uma região encantadora, onde ninguem nos incommodava n'aquella occasião, e onde insensivelmente tudo haviamos esquecido de quanto nos pudesse n'este mundo dar cuidado ou desgosto.
—O tolo do Leotte perdeu isto!
—O que térá elle feito?!{43}
Soubemol-o depois, quando recolhemos ao Victor, noite fechada.
—Foi um achado! exclamou elle, mal que nos viu.
—Então?
—Isso é para depois. Durante o jantar, nem palavra, por causa dos criados, ouviram?
—Está dito.
Quando, findo o jantar, viemos para o salão do Victor, soubemos que o nosso amigo Leotte tinha descoberto no hotel uma criada originalissima.
—Uma fidalga extraviada do grande mundo! disse-nos elle.
—Como assim?!
—Chama se Maria de Alarcão, está aparentada com muitas familias nobres do paiz, e viu-se reduzida, pela pobreza que herdou de seu pae, um tal D. Alvaro, a ser criada de todas as suas primas e primos, que venham hospedar-se no Victor.
—Mas quem é então esse D. Alvaro?
—Morreu. Perguntei-lhe se sabia os nomes dos avós, e ella respondeu-me que os seus avós tinham sido gentis guerreiros.
—E ella respeita as cinzas de seus avós?
—Ella estava-me contando a sua triste historia, quando outra criada a veiu chamar, gritando: ó Rosa! ó Rosa!
—Então é Maria, e chama-se Rosa?
—Essa pergunta fiz eu a mim proprio. Mas{44} ella, de relance, percebendo a minha surprêsa, explicou que Rosa era o seu nome de guerra, e D. Maria de Alarcão o seu nome de familia.
—Eis o que tu apuraste em todo o dia!
—E já não foi pouco. Talvez que vocês tenham achado muitas criadas cujos avós fossem gentis guerreiros!...
—Para isto, exclamou o Vasconcellos, deixou este tolo de ir passear a Collares!
—Estou vendo, disse eu, que a tua Rosa é tanto Alarcão como era principe aquelle heroe, da historia que sabe o Athayde, que appareceu nas Caldas de Vizella.
—É verdade! quero ouvir a historia do Athayde, observou imperativamente o Vasconcellos. Meus senhores, está aberto o Decameron.
O Athayde fez-se algum tanto rogado, mas contou:
—Era um domingo calmoso de agosto. Todos os hospedes do Hotel do Padre, nas Caldas de Vizella, estavam sentados á sombra do parque do hotel, conversando, lendo, jogando, flirtando. Nenhum d'elles ousára ir á estação esperar o comboio. Os passarinhos, se não pudessem encontrar um doce refugio nas arvores marginaes do rio Vizella, cairiam do ceu assados e depennados. Com uma soalheira d'aquellas, não havia nada que apetecesse tanto como o descanso e a sombra.
De repente ouviu-se o silvo da locomotiva.—Lá{45} chegou o comboio!—Pois deixal-o chegar!—Quem vier, cá virá ter. Vinte minutos depois, paravam á porta do hotel duas americanas, poeirentas e escanceladas. E um sujeito de fato de flanella branca, chapeu branco, acompanhado por uma senhora da sua idade—vinte e quatro a vinte e cinco annos—, atravessou olympicamente o parque do hotel sem cumprimentar ninguem. Da segunda carruagem apearam-se duas criadas e dois criados, com pequenas malas na mão.
Este acontecimento causou certa sensação entre os hospedes do Hotel do Padre, visto não haver acontecimentos de maior polpa.
—Quem será isto? perguntava-se.
—É um principe! dizia ironicamente um janota de Guimarães.
—Um principe e uma princeza, acrescentava do lado um banqueiro portuense.
—Com os respectivos veadores e damas, observou bonacheironamente o padre José Maria, que possuia uma graça simples, quasi patriarchal, e que era um dos hospedes mais estimados no hotel.
Depois, emquanto a sombra caía das arvores, todos continuaram conversando, lendo, jogando, flirtando.
Á hora do jantar, a princeza e o principe foram vistos já sentados á cabeceira da mesa, silenciosos e graves. Os seus dois criados, de casaca, postados por detrás da cadeira do principe{46} e da princeza, conservavam-se immoveis como estatuas.
Todos os outros hospedes, que iam chegando, trocavam entre si sorrisos, olhares de intelligencia. Padre José Maria arregalou os olhos, franziu o beiço, sentou-se. As senhoras diziam segredos umas ás outras. Os homens, de vez em quando, arriscavam em voz alta uma allusão disfarçada.
Findo o jantar, o principe e a princeza levantaram-se; os seus dois criados, muito direitos, arrastaram-lhes as cadeiras. Não cumprimentaram ninguem.
Então a galhofa expludiu, os epigrammas estalaram. Padre José Maria teve pilhas de graça. Um hospede aventou a idéa de que se pedisse o registo do hotel para saber-se o nome do recem-chegado. Veio o registo. Dizia simplesmente isto: Commendador Piratinino e sua esposa.
—Pois, srs., observou padre José Maria, é mais a salsa que o peixe!
Riram todos, e novos epigrammas rebentaram n'uma grande hilaridade desenfadada.
Mas o janota de Guimarães teve uma lembrança feliz: que em tom de confidencia se dissesse aos criados do hotel que o commendador Piratinino era nada mais e nada menos que um principe disfarçado.
—E Piratinino é um bello nome para principe! observou uma senhora.{47}
—Principe... de magica, pelo menos, acrescentou alguem.
—Mas se nos perguntarem d'onde o homem é principe, que responderemos?
—Que é principe da Ribária.
—E onde ficará geographicamente a Ribária?
—Sim... isso...
—A Ribária ficará na peninsula dos Balkans, entre a Rumélia e a Bulgária, se quizerem. Nas Caldas de Vizella pode haver tudo, menos um mappa da Europa. Ninguem irá verificar; soceguem.
—Magnifico!
—Maravilhoso!
Ficou tratado que Piratinino era o principe da Ribária, e que a Ribária ficava nos Balkans. Dois minutos depois, fazia-se a revelação aos criados, pedindo-lhes a maxima reserva, para não comprometter o incognito do principe. Quatro minutos depois os criados tinham revelado o segredo ás criadas do hotel e, passada uma hora, constava em toda Vizella que no Hotel do Padre estava hospedado um principe estrangeiro muito rico. Á noite, em todos os circulos de conversação, acrescentava-se: Fabulosamente rico. E sabia-se já em toda a villa que, depois do principe, havia chegado uma carroça com bagagens, suspeitando-se que a maior parte das malas traziam joias da princeza, porque um terceiro criado as vinha guardando como o dragão de cem cabeças guardava{48} os pomos de ouro do jardim das Hespérides. Diziam alguns, com uma certeza convicta, que na Ribária havia minas de metaes preciosos, e outros, por inculcarem sciencia ou por espirito de hyperbole, acrescentavam que no principado da Ribária jámais houvera deficit.
Corria tudo ás mil maravilhas.
N'essa tarde, os principes não saíram a passeio, e d'este modo lográram inconscientemente a justa curiosidade do povo de Vizella, que se tinha agglomerado nas vizinhanças do hotel. Mas no dia seguinte pela manhã suas altezas foram tomar o seu banho á Lameira, o povo pôde vêl-os, contemplal-os, os pobres filaram-n'os, os curiosos seguiram-n'os, e o principe, voltando-se para trás, disse a um dos criados que désse esmolas aos pobres e ás creanças. O criado distribuiu para cima de dezoito vintens em cobre. Por um tris que o principe e o criado não apanharam vivas. Mas desde aquella hora, toda a gente, incluindo os hospedes que tinham inventado a blague, ficou capacitada de que Piratinino era realmente um principe.
Suas altezas saíram de tarde a passeio. Os hospedes do Hotel do Padre esforçavam-se a explicar que na Ribária a etiqueta era muito rigorosa, e que o principe não podia saudar senão os fidalgos do seu paiz. Foi preciso inventar isto, porque o povo de Vizella, que tinha visto uma vez em Guimarães el-rei D. Luiz cumprimentar{49} toda a gente, estranhava o facto. Em compensação, todos os populares cumprimentavam suas altezas, e eu pendo a acreditar que o proprio Piratinino se ia sentindo principe... cada vez mais.
A coisa constou. Vieram pobres de Guimarães, de Negrellos, de Santo Thyrso, de modo que foi preciso, no hotel, prohibir-lhes a entrada no parque. Mas elles, illudindo a ordem, penduravam-se das arvores, para serem os primeiros a lobrigar e a assaltar sua alteza o principe da Ribária. De cada vez que saía, o excelso principe tinha uma despêsa obrigada, de dezoito vintens pelo menos. E os hospedes do hotel saboreavam em segredo, n'uma risota permanente, o bom exito da sua invenção.
Um dia o criado do principe pediu informações aos criados do hotel sobre a navegabilidade do rio Vizella. Aquelle a quem a pergunta fôra feita veio, com a melhor boa fé d'este mundo, dizer aos hospedes que sua alteza ia n'aquella tarde para o rio.
—Para o rio! exclamaram os hospedes. E padre José Maria observou do lado:
—Para o Rio... de Janeiro, talvez. O principe sente-se arruinado pela mendicidade das Caldas de Vizella e seus arredores. Vai talvez restaurar a fortuna.
Mas o criado explicou: Que não. Que o principe tinha dinheiro como milho. Que ia mas era para{50} o meio do Vizella divertir-se com um barco que trouxera.
—Onde está o barco? perguntaram.
—Está dentro de uma grande mala, que veio na carroça.
Com effeito, um dos criados do principe chamou um homem, que foi ao hotel buscar a mala grande, e dirigiu-se com elle para a beira do Vizella. Pouco depois saiu o principe, todo vestido de branco, sua toilette favorita, pelo que já algumas pessoas lhe chamavam—o principe branco.
Deu-se rebate no hotel, e todos os hospedes, repartidos em diversos grupos, se encaminharam para as margens do Vizella, seguindo uns pela Lameira, outros pelo Mourisco.
O boato saíra verdadeiro. O principe estava effectivamente no meio do Vizella, pescando á linha dentro de um barco de lona, um pouco similhante áquelle, se bem que mais pequeno, em que o general Caula atravessou o Tejo n'uma experiencia feita em agosto de 1874. Na margem ficára o criado, e a mala cuja tampa estava levantada, aberta. Comprehende-se que um principe não permittisse ao criado a honra de tomar assento a seu lado dentro do mesmo barco. Já sabemos que na Ribária a etiqueta é muito rigorosa.
Toda a população de Vizella, a fluctuante e a permanente, pôde saciar seus olhos curiosos na contemplação d'esse quadro inteiramente novo ali: um principe estrangeiro pescando á linha{51} dentro de um barco de lona. Só os hospedes do Hotel do Padre se riam, porque os do Cruzeiro do Sul, que não estavam na confidencia, e os bons populares ingenuos tomavam o caso muito a serio, e contemplavam encantados o principe branco pescando.
Escusado será dizer que sua alteza não pescou coisa nenhuma. Quem pesca são os pescadores, porque teem obrigação d'isso. Os principes divertem-se, e enfadam-se.
Foi o que aconteceu a sua alteza, porque, naturalmente enfastiado, quiz abicar a terra. Mas o barco começou a rodopiar, a oscillar, e o principe, já um pouco impaciente, redobrava de esforços, de pressão.
Toda a gente sabe com que facilidade, n'estas condições, se volta um barco. Foi o que aconteceu ao do principe. Sua alteza fizera um movimento menos cauteloso, e o barco tombou. Era um vez um principe n'um charco.
Grande grita se levantou de entre os populares. Os hospedes do Hotel do Padre riam a bandeiras despregadas. Um rapazito atirou-se ao rio, para ir salvar sua alteza, que barafustava na agua. Cheirava-lhe a grande gorgeta, ao rapazito; nadava como um desesperado.
Foi-lhe facil trazer para terra o principe, e o barco. Mas o principe, que estava de fato branco, precisava mudar de toilette. A decencia reclamava-o. E emquanto o criado corria ao hotel, a pedir{52} outro fato para sua alteza, o desgraçado principe da Ribária, mettido dentro da mala, só com a cabeça de fóra, evitando olhar para qualquer parte, esperava humilhado...{53}