VIII
Foi pois o Vasconcellos, que n'essa noite excedia o seu bom humor habitual, quem lembrou que, para contrapor ao Gonçallinho, só havia um homem entre nós, e que esse homem era o Leotte.
Estavamos n'isto, quando o Victor, dono do hotel, appareceu á porta da sala, pedindo-nos licença para entrar.
—Era negocio urgente, dizia elle.
Convidámol-o a entrar, sentar-se, e dizer.
No fim de contas, o negocio era simples.
Do proprietario do Hotel Braganza, de Lisboa, recebera elle um telegramma pedindo-lhe que na manhã seguinte tivesse promptos, pelo menos, um quarto e uma sala, contigua ao quarto, para um brazileiro e sua esposa.
Precisava portanto que um de nós, o Maldonado, mudasse de aposento, porque occupava justamente o que preenchia aquellas condições.{82}
Despachado favoravelmente o requerimento, logo. A uns alegrou—e foi d'este numero o Leotte—a chegada de novos hospedes, especialmente de uma mulher; a outros, que estavam saboreando a liberdade da solidão, contrariou a noticia. Eu pertencia a estes ultimos.
Apanhando o Victor a geito, falámos-lhe na criada fidalga, como nós diziamos. Pedimos informações.
—Ella conta sempre essa historia, acho eu, disse-nos o Victor, mas isso tem-me interessado pouco. São lá coisas dos criados uns com os outros. O que eu posso dizer é que a Rosa tem, effectivamente, algum ar de não ser tão grosseira como as outras criadas. Mas, se v. ex.as o desejam, perguntem-lhe a ella mesma por isso, quando quizerem, menos hoje, porque ella está engommando roupa. Póde ser ámanhã ou quando v. ex.as quizerem, se fazem tenção de se demorar.
Agradecemos a concessão que o Victor nos fizera, naturalmente para equilibrar a concessão que nós lhe fizemos do quarto do Maldonado.
O Leotte estava triumphante: que não se tinha enganado; que já iamos vendo que quem tinha razão era elle, porque o proprio Victor confessára que a Rosa não era tão grosseira como as outras criadas.
E alegre por esta revelação, teve ainda menos duvida do que a principio em contar uma tolice qualquer que lhe lembrasse, dizia elle.{83}
—Vou-vos dizer um caso engraçado e verdadeiro, annunciou o Leotte.
—Isso é que se quer, approvou o Vasconcellos.
—-Com mulher? perguntou o Maldonado.
—É dos autos... respondeu o Leotte. Toujours la femme.
—A historia do conde? perguntei eu.
—Não; essa fica para outra vez. É uma que me lembrou agora.
Ouvimos.
—Voltavam de uma praia, não muito distante de Lisboa, tres amigos que na melhor das intimidades tinham feito juntos a sua estação de banhos.
Vocês de certo os conhecem pessoalmente, mas a mim corre-me o dever de lhes occultar a individualidade sob a mascara do pseudonymo.
Poderia, é certo, chamar-lhes os amigos Tres estrellas, mas as estrellas sempre tiveram fama de romanticas, e o conto é seu tanto ou quanto realista. Uma coisa brigaria com a outra. Prefiro pois inventar tres nomes de guerra e charmar-lhes:
Arthur Reinaldo.
Leopoldo Ambrosio.
Jacinto Procopio.
E, declarados os nomes, a ninguem será licito duvidar dos recursos da minha imaginação.
Os nossos tres heroes pagaram a sua conta de{84} hotel, fecharam as suas malas, e dirigiram-se para a proxima estação do caminho de ferro.
Chegando ahi, encontraram na sala de espera uma senhora distinctamente elegante, vestida de preto, coberto o rosto com um espesso véu.
Todos tres arderam em curiosidade de vêr-lhe a face, e de saber quem fosse.
Mas o véu era impenetravel á perspicacia de seus olhos.
Quando chegou o comboio, offereceram-se, como bons cavalleiros andantes, para conduzir ao wagon as malas da mysteriosa dama. Simples pretexto para entrarem na mesma carruagem.
A traça vingou, vieram juntos. A dama mostrou-se amavel, espirituosa até, mas o véu, sempre pendente, continuava a occultar-lhe o rosto, que elles tanto desejavam vêr.
A distancia não era grande, e, graças á boa companhia em que vinham, ainda mais pequena lhes pareceu.
Chegaram a Santa Apolonia depois da meia noite, despediram-se da sua companheira de viagem, que lhes agradeceu a amabilidade com que a trataram, mas, como era natural, todos elles desejavam seguil-a para ficarem sabendo onde morava em Lisboa aquella mysteriosa dama, que tanto lhes dera no goto.
Pensaram comtudo que seria inconveniente seguirem-n'a todos tres ao mesmo tempo, e de commum accordo resolveram delegar n'um só esta{85} empresa, sob compromisso solemne de que narraria aos outros com a maxima exactidão tudo quanto se passasse.
Jacinto Procopio foi o escolhido para tão importante commissão de confiança.
Feito o accordo, despedidos os tres, Jacinto Procopio, investido nas suas funcções de espião galante, vê a dama aproximar-se da fila de trens que estacionavam no Largo dos Caminhos de Ferro.
E ouvindo rodar uma das carruagens, que devia ser aquella que a mysteriosa dama havia tomado, entra n'outra carruagem, ordena ao cocheiro que largue sem perda de vista aquelle trem que acabava de partir.
O cocheiro assim fez, guiado pelas lanternas da carruagem que o precedia. De vez em quando Jacinto Procopio, pondo a cabeça fóra da portinhola, espreitava; e, como visse as lanternas a brilharem como dois pharoes no trem da frente, tranquillisava-se.
Haviam chegado ao Terreiro do Paço, e o cocheiro da primeira carruagem parou de repente, fazendo signal ao do segundo trem para que passasse adeante.
Jacinto Procopio disse com os seus botões:
—É ella que não quer ser seguida. Pois tenha paciencia, porque eu não estou resolvido a fazer-lhe a vontade.
E falando para o cocheiro:{86}
—Não faças caso. Deixa-te ficar.
Houve um momento de espera. O primeiro trem continuou rodando, e o segundo tambem. Seguiram um atraz do outro ao longo do Aterro, subiram a rampa de Santos, entraram na rua de S. João da Matta.
Jacinto Procopio ia jubiloso: a caça não conseguira fugir-lhe.
E depois, ficando a saber onde a dama morava, diria a verdade aos outros ou não diria. Havia ainda de pensar n'isso. Não fosse tão tolo que, depois de tanto trabalho, désse lenha para se queimar.
O primeiro trem parou á porta de um predio na rua da Santissima Trindade; e o segundo trem parou logo apoz o primeiro.
Jacinto Procopio salta precipitadamente do estribo, quer vêr apear-se a dama, mostrar-se-lhe, para que ella reconheça aquelle dos tres que pareceria ter tido maior interesse em seguil-a.
Abre-se a portinhola da primeira carruagem e Jacinto Procopio vê descer, de mala na mão, quem? A dama que elle julgava haver seguido, e á qual queria mostrar-se? Não! Vê apear-se Leopoldo Ambrosio!
E os dois desatam a rir como possessos, quebrando hilariantemente o silencio pacato da rua da Santissima Trindade.
A dama havia tomado outro trem, se é que tomou algum.{87}
O logro fôra completo.
Tanto quanto a alacridade que lhes desconjuntava as costellas o permittiu, os dois trocaram explicações, contaram um ao outro como as coisas se haviam passado depois que se separaram no Largo dos Caminhos de Ferro.
As revelações de Leopoldo Ambrosio foram interessantissimas.
Afigurou-se-lhe que era a dama que o seguia no segundo trem. E este caso intrigava-o.
—Então é ella que me segue?! dizia elle com os seus botões.
E um fumosinho de vaidade passava no seu espirito, cegando-lhe o entendimento.
No Terreiro do Paço, como o segundo trem viesse sempre na piugada do primeiro, Leopoldo Ambrosio quiz desenganar-se, e ordenou por isso ao cocheiro que dissesse ao do segundo trem que passasse adeante.
As duas carruagens, como já contei, pararam quasi ao mesmo tempo.
E como o cocheiro do segundo trem não obedecesse ao convite que lhe fazia o do primeiro trem, Leopoldo Ambrosio mais se convenceu de que era effectivamente a dama que o seguia.
Então, todo ancho d'essa estranha aventura, em que elle parecia ser o galanteado, deixou-se conduzir ao longo do Aterro, sonhando sonhos côr de rosa na escuridão de uma noite negra.
E não fazia senão espreitar pelo oculo da carruagem{88} a vêr se a dama mysteriosa e distincta continuava a seguil-o.
O seu trem subiu a rua de S. João da Matta e chegou, finalmente, á da Santissima Trindade. Parou no numero que elle havia indicado ao cocheiro e que era o da sua residencia.
N'isto o outro trem pára logo.
—O que! exclama Leopoldo Ambrosio. Então ella pára tambem! Apea-se! Vae talvez cair-me nos braços, dizendo n'uma grande allucinação de amor: «Segui-te, porque quero ser tua!»
Tirou a mala para fóra do trem; que não fosse esquecer-lhe na anciedade febril d'essa proxima explosão de amor.
Abre-se immediatamente a porta da segunda carruagem, e Leopoldo Ambrosio vê apear-se, não a dama que elle imaginava vir seguindo-o, mas o seu amigo Jacinto Procopio, de que se havia separado momentos antes no Largo dos Caminhos de Ferro.
E quando no dia seguinte se reuniram todos tres, e os dois contaram os episodios grotescos d'aquella aventura mallograda, Arthur Reinaldo, desapontado, rogou nove mil novecentas noventa e nove pragas aos seus dois amigos, que haviam estragado todos os bellos sonhos de conquistador feliz que tinha sonhado.
O caso é authentico e garantido pelo testemunho insuspeito de tres cavalheiros tão acreditados nos seus respectivos bairros como são os srs.{89} Arthur Reinaldo, Leopoldo Ambrosio e Jacinto Procopio, tres pessoas distinctas e um só logro verdadeiro.
—Bravo!
—Bravo!
—Um dos tres eras tu...
—Pois já se deixa vêr que era.
Gargalhadas, ápartes, commentarios. A atmosphera aqueceu; o proprio orador estava vibrante, excellentemente disposto. Que contasse a historia do conde, que ainda era cedo. Que contaria, mas que precisava primeiro um copo de cognac. Veio cognac para todos.
—Pois então, meus caros, disse o Leotte, ahi vae a historia do conde.
Silencio geral.{90}
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