IX
Imaginem vocês que é o proprio conde que está falando.
Eu lhe conto, disse-me o conde.
E, accendendo vagarosamente o seu charuto, cruzando a perna direita sobre o fémur da esquerda, contou, com o seu habitual sorriso, levemente malicioso:
—Estava eu em Pariz, onde tinha ido mais uma vez com o pretexto de assistir ás festas de 14 de julho. Oito dias depois, como os jornaes me avisassem de que todo o Pariz—o Pariz doente e o Pariz são—havia desertado para os Pyrineus, resolvi partir tambem, para fazer alguma coisa, e para não ficar... só! Tomei o primeiro expresso, e, ao cabo de 19 horas de viagem, apeava-me na estação de Pierrefite.
Achei-me, mal puz o pé em terra, em plena vida: a grande vida dos Pyrineus no estio.{92}
Bastas massas de verdura engrinaldavam pittorescamente os rochedos, e a paisagem formosissima do valle de Argelès, contrastando com as aguas revoltas do Gave, seria capaz de me inspirar uma écloga, se eu tivesse a bossa de poeta bucolico.
Na estação havia uma espessa agglomeração de gente, um borborinho estridulo, que me fez acreditar que todos os doentes que se sobrescriptavam para Cauterets iam de perfeita saude, a começar por mim...
Os omnibus dos hoteis solicitavam-me, na razão de 2 francos e 50 centimos, por duas horas de caminho; os cocheiros das caléches disputavam-me a cabeça por dez francos. Preferi os omnibus, por nada menos de tres razões:
1.ª Eu detesto a solidão, e os omnibus, como o seu nome indica, garantiam-me duas horas de viagem alegre, em companhia da gente que mais fala no mundo: os francezes.
2.ª Eu relacionara-me no expresso com tres francezes e quatro francezas, a duas das quaes, alternadamente, e ás vezes simultaneamente, principiei a fazer um pequenino pé de alferes, como nós cá dizemos.
3.ª Esta razão é futil: era mais barato.
As minhas duas francezas saltaram para dentro de um omnibus, e eu parodiei os carneiros de Panurge, saltando para onde ellas saltaram.
Duas horas deliciosas!{93}
As francezas eram amigas de collegio: uma d'ellas, cunhada de mr. Bourgoin, um burguez rico, viajava para se divertir acompanhando a irmã casada; a outra viajava, tambem para se divertir, acompanhando a sua amiga, cunhada... do cunhado.
Apenas o burguez precisava das aguas de Cauterets por causa do rheumatismo, que é uma doença de todos os burguezes. Se não fosse isso, como elles seriam felizes, especialmente... os ricos!
Só elle, pois, tomava tudo aquillo a sério, falando-me da composição das aguas, das differentes sources de Cauterets, em que predominava o elemento alcalino.
As duas amigas, por sua vez, encareciam-me a belleza dos passeios de Cauterets, citavam-me la Promenade des Oeufs, vasta explanada onde todas as tardes toca no kiosque a musica do Casino e onde a variedade dos divertimentos—bailes infantis, jogos, tiro ao alvo—e os chalets dos vendedores põem em todo o recinto uma nota de animação movimentada, gárrula, que a enorme concorrencia da station completa; da montanha de Cambasque, ao fundo da Promenade des Oeufs, á qual se sóbe em zig-zags, para descobrir um ponto de vista encantador; do Marmelon Vert, a dois kilometros de Cauterets, o rendez-vous do sport; do Parque, sombreado de bellas arvores seculares; da Grange de la Reine Hortense, d'onde se avistam os valles de Argelès e Lourdes; e da{94} Glacière, a estreita garganta nunca visitada por um raio de sol...
Planeavam parties de plaisir, repas champêtres, que nós desdoiramos com o vocabulo plebeu de merendolas, mas que, na graça delicada da lingua franceza, principiavam a ter sabor antes da realidade.
Se fôsse em Portugal, dizia eu com os meus botões, estas duas meninas, ambas de uma mocidade estonteadora, viriam aqui esmagadas pela auctoridade dictatorial do unico homem que as acompanha; não diriam palavra ou responderiam com simples monosyllabos, muito acanhadas e muito hesitantes, ás minhas perguntas.
Mr. Bourgoin, a ser portuguez, encarregar-se-ia, algum tanto constrangido, de fazer todas as despesas da conversação, visto ter a infelicidade de haver encontrado, contra os estilos do nosso paiz, um companheiro de viagem tagarella.
Madame Bourgoin tão depressa estimulava as esperanças do marido na cura radical do seu rheumatismo, adiada de anno para anno, como se intromettia na conversação da irmã, e da outra, lembrando a belleza do Lac Bleu, espelhado de aguas limpidas, e contornado de ruinas, dando assim a entender que, superior á prosa do rheumatismo conjugal, pairava no seu espirito a poesia dos lagos...
Perguntaram-me as duas amigas se eu me demoraria muito em Cauterets.{95}
Respondi que não havia nada tão incerto para um homem de boa saude como saber quando a sua doença o abandonaria.
As duas francezas riram longo tempo, comprehendendo, com a sua fina intuição gauleza, que eu principiava a estar indeciso, no meu pé de alferes, entre uma e outra.
Se viajassemos em Portugal, era certo, certissimo, que começariam a ter ciumes, a mostrar-se reservadas, um poucochinho azedas, porque uma portugueza não comprehende facilmente que um homem possa estar ao mesmo tempo namorado de duas mulheres.
Portugal, a despeito do feliz systema que nos rege, como dizia o Garrett, é, pela tradição, um paiz absolutista... até no amor.
Uma das francezas, M.elle Suzanne, lembrou-me a conveniencia de encontrar qualquer doença ligeira que me obrigasse a demorar-me um pouco mais em Cauterets do que a saude.
M.elle Denise foi de parecer que todo o fumista deve soffrer mais ou menos da garganta.
Achei acertado o alvitre e, uma vez installado em Cauterets, comecei a tomar as aguas por minha conta e risco, escolhendo a source ao acaso. Arranjei, como o dr. Serrand pôde verificar por meio do laryngoscopo, uma congestão thermal da larynge, o que me fez convencer de que as aguas de Cauterets são excellentes, não tanto para dar saude, como para tiral-a.{96}
Na impossibilidade de continuar cultivando as aguas, comecei a cultivar o amor—o amor de Cauterets, meu amigo, que parece colorido por um pintor decorativo n'um fundo de paisagem em que as naiades e as driades emergem do seio alpestre dos Pyrineus bailando de mãos dadas em torno de nós.
Uma fascinação... em francez.
Consegui ser, dentro em quinze dias, um homem conhecido pelas mulheres, um millionario do amor... ideal.
Não chegava para as encommendas platonicas que de toda a parte me solicitavam. Palavra de honra: não chegava. Uma vez encontrei-me no Pic de Gabietou, sem eu saber como, com mademoiselle Rosine Hubert, uma loira, irmã gemea da aurora. Tomei a altura do Pico, e achei que estava só no mundo com ella. Lembrou-me então uma certa aventura de Henrique IV, no alto de uma torre, com a filha do sineiro. Tentei fazer de Henrique IV, e beijei-a. Mademoiselle Rosine Hubert partiu-me o leque na cara. Ensaiei nova tentativa. Ella ameaçou-me de se despenhar do Pico, arrastando-me comsigo. O lance pareceu-me tragico de mais para uma simples aventura de estio. Descemos; eu amparava-a, acudia-lhe quando ella, rindo, rindo sempre, hesitava na descida.
Já de longe olhei para o Pic de Gabietou, e vi n'elle o monumento informe da minha cobardia ou da minha inepcia.{97}
Mademoiselle Rosine, espanejando-se na sua alegria, parecia não conservar o menor resentimento da scena de Gabietou. Falava-me com a mesma graça amavel, sorria-me ainda com a mesma confiança que eu parecia haver-lhe inspirado antes.
Se Rosine fosse portugueza, ter-se-ia ido queixar á mamã, que contaria tudo ao papá. Haveria em Cauterets um escandalo medonho, e eu teria de adoptar um de dois extremos violentos: fugir ou casar.
Nada d'isto aconteceu. Rosine não contou a ninguem, decerto, a scena de Gabietou, em que me fez muita falta um Mephistópheles e um cofre de joias. Conhecendo que eu a desejava um pouco, procurou, como boa franceza que era, fazer que a desejasse muito. Sorria-me, attraía-me.
E eu teria talvez queimado as azas, se n'essa noite não houvesse apparecido no Casino outra franceza mais adoravel ainda que Rosine, a qual franceza devia ser d'ahi a tres mezes minha legitima mulher.
Fiz-lhe namoro durante mez e meio, até ao fim de setembro. Depois, vesti a minha casaca, puz a minha gravata branca, e fui pedil-a á mãe, que teria quarenta annos, e uma carnação sadia, que não conseguira perder, sem embargo de tomar as aguas de Cauterets todos os annos. Parece incrivel!
O conde descruzou as pernas, accendeu de novo{98} o charuto, e, batendo uma palmada com a mão esquerda sobre a perna, disse-me:
—Fui muito feliz aquelle anno em Cauterets. Imagine que de uma vez combinei com dois portuguezes, que lá estavam, com oito francezes, um allemão e uma ingleza velha, fazermos uma excursão ao Pico de Balaïtous. Partimos de madrugada. Na vespera á noite a nossa excursão annunciara-se no Casino, fizera sensação; a noticia correra todos os grupos.
Ao nascer do sol—uma manhã deliciosa dos Pyrineus—quando cheguei á porta do hotel, fiquei encantado de encontrar á janella, esperando por mim, para me verem partir, todos os meus namoros de Cauterets. Tinham madrugado sobreposse para me enviar, nas azas d'um sorriso, o seu adeus. Eu sentia-me feliz, ufano. Imagine que só n'uma das janellas estavam duas mulheres, impulsionadas pelo mesmo pensamento: o de me verem partir! Uma d'essas mulheres foi d'ahi a tres mezes minha noiva.
—E a outra? perguntei eu.
—A outra? repetiu o conde com o seu habitual sorriso levemente malicioso. A outra era minha sogra.
Todos nós conheciamos o conde, o seu genio alegre, o seu viver mundano, os seus ditos de espirito, a que muitas vezes sacrificava as conveniencias sociaes, as suas proprias conveniencias até; de modo que nos foi muito agradavel ouvir{99} mais uma vez a historia do seu casamento com o sabor picante que elle proprio lhe dava, quando, sem poupar a sogra, não punha duvida em contal-a.
O Gonçallinho Jervis, que tambem era amigo do conde, havia-se levantado, emquanto o Leotte falava, e encostára-se ao vão de uma janella olhando para fóra.
Démos por isso.
—O que estás tu ahi fazendo?
—Que bello luar! exclamou elle. Que bella noite de primavera para irmos ouvir os rouxinoes!
—Não seja piegas, atalhou o Vasconcellos. Que bella hora para a gente ir deitar-se!...{100}
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