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Era certo que tinhamos ido a Cintra com o pretexto de ouvir os rouxinoes. Mas era certo tambem que nenhum de nós, com excepção do Gonçallinho Jervis, estava já n'esse periodo agudo de romanticismo, que exalta allucinadamente a imaginação.

Parariamos de boa vontade para ouvir um rouxinol, que nos houvesse surprehendido no caminho. Mas ser-nos-ia pesado qualquer incommodo que, a não ser por surpresa, isso nos pudesse custar.

O que principalmente nós quizemos gozar indo a Cintra, era a liberdade, o descanso, que não tinhamos habitualmente. O projecto de ouvir os rouxinoes lisonjeára por momentos a vaga saudade, que todos alimentavamos, dos annos felizes da vida, passados na provincia. Mas, uma vez postos a caminho, a doce liberdade, que principiamos{102} a saborear, bem depressa nos fez esquecer dos rouxinoes, que não pensamos mais em ouvir.

Só o Gonçallinho Jervis não podia tão facilmente esquecel-os como nós outros. A idade desculpava-o. Estava ainda na sezão da poesia, era uma alma em ebulição, um coração em flôr, via os rouxinoes através do prisma da lenda que tinha talvez lido em Bernardim Ribeiro, frei Luiz de Sousa e outros poetas da prosa ou do verso.

Todos nós, mais ou menos, haviamos passado por isso.

Todos nós haviamos tido uma quadra da vida em que nos impressionára o caso do rouxinol de Bernardim Ribeiro, que morre de cansaço cantando.

«Não tardou muito—diz a novella—que, estando eu assim cuidando, sobre um verde ramo que por cima da agua se estendia, se veio poisar um rouxinol; e começou a cantar tão docemente, que de todo me levou após si o meu sentido de ouvir.

«E elle cada vez crescia mais em seus queixumes, que parecia que, como cansado, queria acabar, senão quando tornava, como que começava então.

«Triste da avesinha, que, estando-se assim queixando, não sei como se cahiu morta sobre aquella agua. Cahindo por entre as ramas, muitas folhas cahiram tambem com ella.»

Na idade do Gonçallinho Jervis, toda a alma é{103} pouco mais ou menos como o rouxinol da novella: esgota-se cantando.

Eu não sei se seriam rouxinoes as aves que na cêrca do convento de Bemfica provocaram a desafio os homens, chegando uma d'ellas a morrer extenuada.

«Assim nos tempos que a natureza esperta as linguas das aves, a louvar com mais harmonia o Creador, é quasi morada continua (a cêrca) das que por mais musicas são conhecidas. E é tradição, que juntando-se n'ella uns seculares de boas vozes, e começando a cantar ao som de instrumentos bem accordados, acudiram as que se tinham por senhoras do sitio, a desafiar a melodia humana, e artificial, com a sua natural. E isto com tamanha porfia, que vencidas as vozes dos homens não cansaram as pobres avesinhas de seguir as violas que ficaram supprindo por ellas; e uma se deixou levar tanto do impeto, e affecto de cantar, que veio a desfallecer, e á vista de todos cahiu em terra sem alento, como dizendo, que antes queria perder o bem da vida, que a honra de perseverar cantando.»

Deviam, effectivamente, ser rouxinoes, porque frei Luiz de Sousa se refere ás que por mais musicas são conhecidas, e o rouxinol é, no mundo alado da Europa, o cantor por excellencia.

Na idade do Gonçallinho Jervis, se uma alma responde á nossa n'um duetto de encantador lyrismo, pouco se nos dá de perder a vida comtanto{104} que possamos morrer exhalando a alma n'um cantico.

Eu proprio já havia prestado tambem o meu culto aos rouxinoes, principalmente ao de Bernardim Ribeiro. Aos dezoito annos—Deus me perdoe!—compuz um poema cuja heroina

Acabára, cantando, o captiveiro
Tal como é fama ter acontecido
Ao rouxinol de Bernardim Ribeiro!

Mas, no anno em que fômos a Cintra, já propendia a estimar mais as perdizes do que os rouxinoes, sobretudo se as perdizes eram temperadas com molho de villão.

Um bom petisco!

O Gonçallinho Jervis, felizmente para elle, amava tanto os rouxinoes como poeta que era, que até sabia a lenda mythologica d'aquella princeza que por suas desventuras fôra convertida em philomela, nome que os antigos deram ao rouxinol.

Eu tinha só uma vaga ideia d'essa lenda pagã por a haver lido na Arte da caça da altenaria, composta por Diogo Fernandes Ferreira.

«Contam as fabulas que Tereo, filho de Marte e de Bistonida, sendo rei de Thracia, casou com Progne, filha d'el-rei d'Athenas, e a trouxe para o seu reino. N'ella houve um filho lindissimo, a que chamavam Itêns, tão desejado no reino, que o dia que nasceu se festejava como festa solemne.{105} Teve a rainha Progne saudade de vêr a sua irmã Filomena: pediu ao marido licença para a ir vêr, ou fôsse elle em pessoa para a trazer, que seu pae e mãe lhe concederiam licença para a irmã vir. Tereo aprestou naus, partiu, chegou a salvamento, foi bem recebido dos sogros, rei e rainha e da cunhada Filomena, a qual, em Tereo a vendo, se incendeu de amores por sua formosura. Então com mais efficazes palavras pediu aos paes lhe dessem a licença que pretendia. Fez-se-lhe a vontade. Embarcados, vieram a salvamento, e, chegados a um porto do reino de Tereo, sahiram em terra elle e a cunhada, dizendo elle que o fazia para n'aquella floresta descansar do trabalho do mar. E sendo longe das naus e gente, não tanto como o elle estava da virtude, trabalhou por persuadir a cunhada áquelle intento que desejava; e vendo que nenhumas promessas nem palavras bastavam para ella consentir em seu desejo, acolheu-se á força e com ella, muito contra vontade da afflicta princeza, de donzella a tornou dona. Queixando-se ella a Deus e ao mundo de tão grande maldade, que havia de ser pregoeira de tamanha villeza e traição, e se havia de tomar vingança de tal aleivosia, ordenou elle outra maior maldade arrancando-lhe a lingua, e assim a levou a casa de um criado seu e vassallo, não lhe declarando o caso. Aos das naus disse que as feras a mataram, e chegando a sua casa se fizeram muitas mostras de tristeza pela morte fingida da{106} cunhada, a qual, estando em poder do vassallo de Tereo, pediu por acenos lhe dessem hollanda e seda de côres, que queria entreter-se. Trazida, em letras gregas conta á irmã o caso, e por acenos rogou a uma mulher levasse aquella toalha assim lavrada á rainha Progne, que lhe havia de ser bem pago o trabalho que n'isso tomasse. Dada a toalha á rainha, sabida a historia, dissimulou. N'aquelle tempo se faziam umas festas que de tres annos se celebravam n'aquelle reino. Disse Progne ao marido que desejava ir a ellas. Ida, foi aonde a irmã estava, a qual achou privada da lingua e falla, e assim a trouxe para sua casa em trajo demudado. Ambas determinaram a vingança do marido bem extraordinaria, e foi que tomaram Itêns, o principe filho de entre ambos, e lhe cortaram a cabeça, pés e mãos, e do corpo mandaram fazer manjares differentes. E tendo isto ordenado, pediu Progne ao marido lhe concedesse jantarem ambos, ao modo dos reis de sua terra, que era comerem sós. Foi-lhe feita a vontade. Partiu Tereo os manjares e guizados feitos do corpo do filho; depois de comer d'elles, pediu á mulher lhe mandasse vir o principe Itêns, seu filho, que elle muito amava. Então sahiu Filomena de uma camara com a cabeça, as mãos e os pés do filho, desejando ter lingua para mostrar a ira que contra elle tinha. Tereo, vendo o caso, deu com a mesa em terra, e lançou mão á espada. Ellas fugiram, Progne convertida em andorinha, e Filomena{107} em rouxinol; Itêns em avião, e Tereo em poupa.»

Esta fabula, copiada dos poetas pagãos, fazia trasbordar de poesia a alma do Gonçallinho Jervis, que julgava ouvir na voz do rouxinol toda a colera tragica da princeza Filomena, a qual princeza, convertida em ave canora, parecia vingar-se eternamente da falta que no seu tempo lhe fizera a lingua, cortada pelo cunhado.

Gonçallinho ia na esteira de Camões, que dizia nos Lusiadas:

Ao longo da agua o niveo cysne canta,
Responde-lhe do ramo philomela.

Na varzea de Collares não faltavam agua, verdura, rouxinoes. Por isso elle tanto desejava que, soltando a sua voz de cysne de frak (certamente mais melodiosa do que aquella de que os cysnes podem dispôr) lhe respondesse de um ramo a princeza atheniense, convertida em rouxinol.

Diogo Fernandes Ferreira explica a razão por que as quatro personagens da lenda foram metamorphoseadas n'aquellas aves.

«Ordenou o poeta esta fabula de vêr que o rouxinol quasi não tem lingua, e a andorinha ser vestida de preto, e no peito ter umas nodoas vermelhas, e ter o canto triste, como que conta a historia da maldade do marido, e as pennas rôxas como sangue da crueldade que teve em matar o{108} filho em vingança da irmã. E do canto do rouxinol a saudade com que viveu a vida a forçada Filomena, e do avião porque no seu canto parece que grita como menino, e na poupa pela significação da corôa da cabeça, e na formusura das pennas pintadas de que se vestem finge ser el-rei, porque a poupa, tomada na mão, tem mau cheiro, e o ninho d'ella o mesmo: em que se dá a entender que os maus feitos, ainda que sejam commettidos por reis e pessoas graves, se ha de fugir d'elles e virar-lhes o rosto, como coisa abominavel e fedorenta.»

Este processo da moralidade pelo fedor não deixa de ser convincente.

Disse isto uma vez ao Gonçallinho. E elle, muito despeitado, chamou-me barbaro.{109}