XVI

Todas as baterias da nossa curiosidade se assestaram contra um alvo unico: descobrir a historia do supposto casamento da Christina do Muxagata com o brazileiro Araujo.

Felizmente para nós, o bloqueio não durou muito. Foi a propria praça que se rendeu voluntariamente.

Emquanto D. Christina fazia a sua toilette para o jantar, o brazileiro contava-me no terraço do hotel, com toda a sua ingenuidade bondosa, a historia do seu casamento—revelação a que eu o conduzi mais ou menos habilmente.

Tinha vindo a Portugal havia seis annos para matar saudades da patria e visitar os parentes que viviam em Amares.

Aproveitára a occasião, e fizera algumas excursões tanto no norte do paiz como na Extremadura.{154}

Foi por essa occasião que encontrára D. Christina no Bom Jesus do Monte. Tinha ella enviuvado pela segunda vez recentemente e achava-se entregue a um profundo abatimento moral...

—Então a esposa de v. ex.ª já tinha casado duas vezes? perguntei eu.

—Já. A primeira com o morgado de Muxagata, que pela má cabeça d'elle déra cabo de tudo.

—E a segunda?

—A segunda com outro fidalgo do Marco de Canavezes, que tambem não tinha mais juizo. O amigo sabe decerto qual era a vida gastadora dos antigos morgados.

—Sei muito bem.

—Pois os dois deram cabo de tudo quanto tinham. A Christina estava reduzida ao pouco que lhe deixou o segundo marido.

—E filhos... não teve?

—Não, senhor. Como eu ia dizendo, vi-a no Bom Jesus do Monte. Gostei da senhora, soube que não tinha muitos meios, e falei-lhe em casamento. Ella, comquanto não fosse já nova, era bonita, como ainda se vê. Estava boa para mim, que não era nenhum rapazinho, e de mais a mais doente. Tudo aquillo foi obra de poucos dias. Ella lá tratou de mandar tirar os papeis.

—Quaes papeis? Os banhos?

—Para correr os banhos eram precisas as certidões dos dois casamentos e do obito dos dois maridos. Mas a Christina foi ao Porto, emquanto{155} eu fui a Amares, tambem por causa dos meus papeis, e lá os arranjou. Juntamo-nos depois em Amares, onde eu quiz casar por ser a minha terra. Como resolvesse ficar em Portugal, precisei ir liquidar ao Rio de Janeiro. A Christina, coitadinha! não me quiz deixar ir só; foi tambem. Estivemos lá dezoito mezes, liquidei, e agora por aqui ando sem mais canseira que a de tratar da minha saude. Vivi a principio em Braga, mas os medicos, por Braga ser muito fria, aconselharam-me que viesse viver para Lisboa, por causa do clima.

N'isto chamaram para o jantar.

E eu, francamente, não achei na historia do brazileiro revelação alguma que me surprehendesse—nem mesmo a dos papeis que D. Christina arranjára no Porto. Nada ha tão facil a uma mulher que vae casar com um brazileiro como poder cohonestar o seu passado com duas certidões de casamento... falsas. Quanto ao resto, eu havia architetado a historia do brazileiro. Apenas a minha imaginação tinha mettido mais alguns maridos no coração de D. Christina. Mas achei natural que ella não fosse mais verdadeira, no que contára ao marido, do que as duas certidões que o contentaram a elle.

Ter-me-ia ella reconhecido? Certamente que sim. Estava, porém, muito tranquilla na posse dos quatro documentos que attestavam o seu passado. Com elles se defenderia, sendo preciso, da{156} inconveniencia de qualquer mau encontro. Tanto se lhe daria, pois, que eu a reconhecesse como não. Ella era a viuva documentada do morgado de Muxagata e do Falcão do Marco. O papel sellado livra de muitos embaraços.

Á mesa do jantar, D. Christina, que todos os dias mudava de toilette duas e tres vezes, mandou dizer á criada Rosa que lhe trouxesse um lenço.

Veio a criada trazer n'uma bandeja o lenço de finas rendas que tinha esquecido a D. Christina.

E o Leotte, quando viu entrar a rapariga, alternou os seus olhares de guloso entre a brazileira e a criada, parecendo vacillar entre as cerejas frescas que os labios da rapariga imitavam, e o carmim que artificialmente coloria a bocca da brazileira, já um pouco fatigada... de beijar canonicamente tres maridos.

Á noite, o Vasconcellos, que desejava a desforra, e D. Christina, que amava o berlote, queriam começar logo pela jogatina.

O brazileiro, que já tinha tomado pé, sustentou que havia tempo para tudo: acrescentando que eu lhe havia promettido contar uma historia de almas do outro mundo.

—Pois que se contasse a historia, mas uma só, concordaram.

—De mais a mais a minha historia, disse eu, é de amores, para contentar a sr.ª D. Christina; e de almas do outro mundo, para contentar o sr.{157} Araujo. O peor é que talvez pareça um pouco maliciosa...

Fingi-me escrupuloso, comquanto soubesse que os ouvidos de D. Christina não estranhariam a malicia de qualquer narrativa.

—Ora adeus! respondeu o brazileiro rindo. Se fôr preciso, deite um véosinho por cima da historia, e conte sempre. Nós já não somos nenhumas creanças innocentes.

—Pois n'esse caso, ahi vae a historia:

Eu estava á janella, de manhã cedo—seis horas talvez—a comer um bello cacho de uvas brancas. Encostado ao peitoril, ia debicando bago a bago, com um certo prazer de gastronomo, que só me fazem sentir as uvas brancas e doces. Ás vezes alongava os olhos pelo horizonte, que as torres de Mafra recortavam ao longe, esfumando-se como no fundo de um quadro. Em torno de mim havia uma placidez profunda: as arvores e as pedras, companheiras unicas do casal, pareciam adormecidas ainda na frescura cristalina da manhã. A estrada de Mafra, que passava sob as janellas, estirava-se tão solitaria, que as andorinhas saltitavam no macadame, bicando o pó. O caseiro tinha saído com o filho n'uma carroça; a mulher do caseiro accendêra o lume para o almoço, como indicava o fumo que rompia da chaminé.

N'isto, sinto o tilintar longinquo de guizos na estrada. É o tenente Silverio, que vem dar o seu passeio matutino, disse eu com os meus botões.{158} Já lhe conhecia o trotar da egua, que puxava a charrette.

Nas terras pequenas sabe-se tudo: o tenente Silverio andava apaixonado pela Libania, da Murgeira, uma saloia muito animal, de seios turgidos, que pareciam despenhar-se no tanque, quando ella se curvava para lavar.

Era elle, o tenente.

Fez parar a charrette debaixo da minha janella.

—Olá! gritou. Está, na fórma do costume, comendo as suas uvas.

—Pudesse eu, respondi-lhe, e havia de comel-as todo o anno. Que bellas! Isto de mais a mais é recommendado. Contêem principios alcalinos, que são salutares. E teem um rico assucar, que é nutritivo. Na Allemanha e na Suissa comem-n'as para curar as doenças gastro-intestinaes. É bom, e faz bem.

—Diga antes que gosta muito de uvas.

—Ou isso: gósto muito.

—Visto que já saboreou o seu primeiro almoço, venha d'ahi dar um passeio.

—Aonde?

—Ora essa!

—Á Murgeira, como sempre, não é verdade?

—Como sempre... é um modo de dizer. Já lá não vou ha tres dias.

—Que ausencia! Pois irei. Deixe-me procurar o chapeu.

Tres minutos depois a charrette do tenente Silverio{159} rodava para a Murgeira pela estrada aberta entre pinheiraes. A egua, no seu trote largo, quebrava o silencio da manhã, guizalhando festivamente.

Iamos bem dispostos, dilatando os pulmões no ar fresco dos pinheiraes, em que já se sentia um gumesinho de brisa do mar, que soprava da Ericeira. Muito agradavel a manhã.

—Isto é bom e faz bem, dizia-me o tenente. São as minhas uvas.

—Perdão, as suas uvas, meu caro tenente, são outras. Vae colhel-as á Murgeira. Muito brancas não são; mas talvez sejam doces...

O tenente riu-se.

Tinhamos saído da estrada de Mafra, e iamos subindo, a passo, para a Murgeira.

Avistava-se o mar, de um azul lacteo, esbranquiçado e sereno.

Fomos subindo: a egua, de cabeça baixa, mettia o largo peito á estrada, puxando a charrette. Já conhecia o caminho, e acho que até já conhecia a Libania.

Chegámos. As creancitas choravam como se tivesse acontecido uma desgraça. Havia algum caso na Murgeira.

—Ora esta! exclamava o tenente. É a primeira vez que vejo chorar n'esta terra!

—Ainda que tarde, as lagrimas chegam sempre, observei eu.

—Isso é sentencioso. Mas eu sou curioso: quero saber o que é.{160}

O tenente apeou-se; eu apeei-me tambem. Na taverna do sitio falava-se muito. Falava-se muito, e não se chorava menos.

Soubemos então o que se tinha passado; morrera o Zé Ratinho.

—Quem era? perguntei.

Deram-nos informações. Zé Ratinho era um rapaz da Murgeira, que se fizera cocheiro dos Gatos. Andára doze annos em Lisboa, batendo, e aprendêra lá a tocar guitarra. Por esta prenda foi que elle se tornou celebre desde Lisboa até Mafra, desde Mafra até á Murgeira. Nas esperas de toiros, nas patuscadas de Friellas e nas noitadas do Dáfundo, Zé Ratinho fazia as delicias dos marialvas e das hespanholas: era um artista para a guitarra.

Fôra em Lisboa que elle ganhára queixa de peito, disseram-nos. Viera muito doente para a Murgeira, tomar ares patrios. Apesar de doente, entretinha-se á noite com a guitarra, na taverna, tocando para os outros ouvir. Os saloios da Murgeira, seus patricios, consideravam-n'o um Orpheu, um Amphion da guitarra. D'aqui o sentimento geral pela morte d'esse excellente rapaz, que deixava a perder de vista os harmonios da saloiada patusca.

Todos, rapazes e raparigas, queriam velar o seu cadaver. Tinha funeraes de principe, o Zé Ratinho.

—Acabou-se a guitarra na Murgeira! exclamou{161} um saloio, que acabava de beber dois decilitros saudosamente.

—Vão os senhores lá ver, que elle está catita! exclamou o taverneiro.

Fomos. Casa terrea, pequena, escura: cheia de gente. Quando entrámos, a chorata dos circumstantes augmentou. Depois foi-se smorzando lentamente: queriam ouvir o que diriamos.

Zé Ratinho estava deitado no caixão. Tinham-lhe vestido o seu melhor fato: calças de bombazina, jaqueta de briche, cinta de lã encarnada, botas de pelle de vacca com floreta. Sem gravata. O barrete pousado sobre o hombro direito.

Á cabeceira, um Christo e duas velas de cêra.

Pendurada n'uma trave, n'uma tristeza inconsolavel, a guitarra.

Uma rapariga, que diziam lá fóra sua namorada, havia entalado nas cordas da guitarra uma dhalia branca.

O tenente Silverio conheceu que tinha mallogrado o passeio. O luto geral abrangia a Libania, cujos olhos chorosos contrastavam com os peitos foliões, saltitantes.

Deixamos a Murgeira a prantear o seu Orpheu. O tenente foi almoçar comigo. Investindo com o linguado frito, falamos do Zé Ratinho.

—Olhe que a lembrança da flor nas cordas da guitarra não deixa de ter certa delicadeza! observei eu.{162}

—Qual historia! chalaçou o tenente. Mas que flor... uma dhalia! É um cumulo de delicadeza saloia. E, rindo, acrescentou: Deite cá mais linguado, que está melhor do que a Libania.

Decorridos tres dias, á mesma hora, passa o tenente Silverio. Encontra-me a comer outro cacho de uvas.

—Venha d'ahi.

—Aquillo ainda ha de estar lutuoso. A morte de um Orpheu pede um triduo de lagrimas.

—Ora adeus! Isso já lhes havia de passar.

—Quem sabe?

—Sei eu.

—Como sabe?

—De sciencia certa.

—N'esse caso vamos lá.

Fomos. Apeámos á porta da taverna. O tenente metteu logo por um atalho para ir ter com a Libania ao lavadoiro. Muito satiro, o tenente. Eu fiquei na taverna a dar dois dedos de cavaco ao taverneiro.

Ouvi-lhe ainda muitas historias do Zé Ratinho. Uma d'ellas, principalmente, tinha o seu quê de phantastica.

Durante a noite haviam ficado a velar o cadaver os rapazes mais afoitos da Murgeira. Ás duas horas da noite, coube a vez ao Joaquim Prado, um latagão forte como um Castello. Estava elle pensando na triste sorte do Zé Ratinho, e na orphandade irreparavel da sua guitarra,{163} quando de repente principiou a guitarra a tocar um fado muito triste e soluçado.

—Ora pelos modos, acrescentou o taverneiro, era a alma de Zé Ratinho que estava tocando guitarra pela ultima vez.

—Então o Joaquim Prado ouviu isso? Adormeceria elle, e estaria sonhando?...

—Essa é boa! Não ha homem nenhum, por mais afoito que seja, capaz de dormir ao pé de um morto. O Joaquim ouviu mesmo tocar a guitarra, bem acordado que elle estava, e só com dez réis de aguardente que tinha bebido ahi n'esse mesmo logar em que vocemecê se assentou. Poz-se em pé, logo que a guitarra começou a tocar, e não viu ninguem. O Zé Ratinho estava morto e bem morto: não se mexia.

N'isto chegava, com um certo ar dominador, o tenente Silverio.

O taverneiro commentava:

—Cá na Murgeira não é o senhor capaz de tirar da cabeça a ninguem que foi a alma do Zé Ratinho que na propria noite em que elle morreu, por volta das duas horas, esteve tocando guitarra.

—Venha d'ahi, dizia-me o tenente, vamos almoçar.

Subimos para a charrette. Já com as rédeas na mão, o tenente, muito chalaceador, perguntou-me:

—Então os saloios ouviram a alma do Zé Ratinho{164} tocar guitarra, na noite em que elle morreu?!

—Ouviram.

—Pois... quem tocava guitarra era eu.

—Você?!

—Eu, sim. A Libania estava muito triste, e eu vim de Mafra dizer-lhe coisas. Ficou mais alegre. Quando vinha embora, dei as rédeas ao impedido, e vim tocando guitarra. Mas pensei que elles não tivessem ouvido...

—Jura que isso é verdade?

O tenente olhou para mim:

—Juro.

—Então, decididamente, não era a alma do Zé Ratinho. Ainda bem! porque eu já me sentia disposto a acreditar...

—Tambem eu, se isso tivesse acontecido comigo! observou ingenuamente o brazileiro.

D. Christina, espirito forte, desatou a rir, e como já estivessem sobre a mesa dois baralhos de cartas, foi ella propria que os abriu, dizendo e abancando:

—Vamos a isto, meus senhores.{165}