XVII
Leotte arrastava discretamente a aza a D. Christina, mas enganára-se quanto á presumpção de, como César, chegar, ver e vencer.
Teve de conhecer que madame Araujo, muito experimentada no terreno que pisava, não quereria comprometter-se no pequeno theatro de acção de um hotel, onde o marido só a largava por instantes e onde nós, os oito companheiros de Leotte, eramos outros tantos olheiros, cheios de malicia e curiosidade. De mais a mais, entre esses oito havia um que lhe conhecia a vida. Era eu. E ella estava de certo empenhada em fazer-me convencer a mim proprio, como tinha convencido o brazileiro, de que era a viuva authentica e duplicada do morgado Muxagata e do Falcão do Marco.
Portanto, o Leotte, que não era tambem um{166} novato inexperiente, resolveu rallentar o galanteio, appellando para Lisboa. Por esta razão e, certamente espicaçado pela minha feliz descoberta, voltou-se de novo para a criada, não só por amor das cerejas apetitosas, como pelo desejo de ver se deslindava o misterio, que fôra o primeiro a suspeitar.
E agora é chegado o lance capital d'esta novella, que talvez pareça inverosimil como um antigo romance de Ponson, mas que é tão verdadeira, que ainda hoje póde ser testemunhada por mais de meia duzia de pessoas.
Teve sobeja razão o Leotte para nos communicar cheio de assombro que a sua descoberta, segundo as ultimas revelações da Rosa, excedia a que eu acabava de fazer.
O que iria elle contar? Coisas realmente espantosas.
Dissera-lhe a Rosa que seu pai, D. Alvaro de Alarcão, era natural da Beira Alta.
—Então a menina nasceu lá? perguntára-lhe o Leotte.
—Não, senhor. Eu nasci no Porto.
—Como foi então isso?
—Meu pai, que era morgado...
—Morgado de que?
—De Muxagata.
—De Muxagata?! Está bem certa d'isso!?
—Muito certa. Meu pai fugiu para o Porto com uma fidalga de Lamego.{167}
—E depois?
—Meu pai arruinou-se, e foi morrer ao abandono no seu solar. Minha mãe tomou amores com outro homem, que tambem era morgado, e que caiu doente com uma molestia da espinha, que o poz muito impertinente. Eu tinha apenas dois annos e, como fizesse barulho brincando, foi preciso tirarem-me de casa. Mandaram-me então para Lamego.
—Para casa da familia de sua mãe?
—Isso sim! A familia de minha mãe nunca mais lhe perdoou a sua falta. Mandaram-me para casa de uma pobre mulher, a tia Senhorinha, que era irmã de leite de minha mãe. Fui crescendo entregue aos cuidados da tia Senhorinha, que era viuva, e que vivia de fazer mandados. Era ella quem dava todas as voltas em casa do major Gouvêa, de infantaria 9, que era muito bom homem, casado com uma santa senhora. Como não tinham filhos, foram-se-me affeiçoando, e eu passava lá os dias emquanto a tia Senhorinha andava lidando na cozinha ou dando voltas por fóra.
—E sua mãe não mandava mesada nenhuma á tia Senhorinha?
—A principio mandava meia moeda por mez, mas quasi nunca escrevia. Depois o sr. major Gouvêa, quando a tia Senhorinha morreu de um grande resfriamento que a tolhêra, tomou conta de mim, mandou dizer a minha mãe que guardasse as suas migalhas de dinheiro, e minha mãe{168} nunca mais tornou a escrever, não quiz mais saber de mim.
—E o que foi feito de sua mãe?
—Não sei! O sr. major Gouvêa não queria que se falasse d'ella.
—Mas como foi que a menina veiu parar a Lisboa?
—O sr. major saiu tenente-coronel e foi collocado em Elvas. Eu vivia muito feliz, porque tanto elle como a mulher, a sr.ª D. Clara—Deus a chame lá!—me tratavam como se eu fosse sua filha. Tinham muita pena de mim, davam-me vestidos, chapeus, tudo o que elles podiam dar, e mais do que podiam dar, porque o sr. tenente-coronel apenas vivia do soldo. A sr.ª D. Clara, como era alfacinha, gostava de poder vir para Lisboa; de mais a mais, em Elvas, o sr. tenente-coronel passava mal de saude. Um general, que era amigo d'elle, arranjou-lhe a transferencia para Lisboa. Viemos todos. Mas o sr. tenente-coronel nunca mais tornou a ser o homem que era em Lamego. Soffria do coração. Anno e meio depois de estarmos em Lisboa, acamou, soffrendo cada vez mais. Morreu todo inchado, que fazia dó. N'esse dia posso dizer que morreu o meu verdadeiro pae.—E dos olhos da rapariga rebentavam lagrimas.
—Depois?
—Depois a sr. D. Clara e eu viviamos de uma pequena pensão que ella tinha. Mas a pobre senhora{169} affligiu-se tanto com a morte do marido, que pegou de fazer-se doente. Só durou mais onze mezes. Vieram então uns parentes d'ella, sobrinha e marido, tomar conta de tudo o que havia. E eu achei-me sósinha no mundo, sem ter quem me protegesse. Vi-me só, desamparada, fiz um annuncio no Diario de Noticias, arranjei uma casa, fui servir.—E os soluços embargavam-lhe a voz.
—Mas por que não tentou procurar sua mãe?
—Como! Quem sabe lá se minha mãe ainda vive! Se ella quizesse fazer caso de mim, teria deitado inculcas para me encontrar.
—Diga-me porém uma coisa... Como foi que mudou de nome?
—A primeira casa em que eu servi era na praça dos Romulares. A senhora chamava-se Maria; a menina tambem. Começaram a embirrar com o meu nome, que fazia confusão, diziam ellas. Talvez não gostassem que eu tivesse um nome igual ao seu. Um dia a senhora disse-me que era melhor chamarem-me Rosa, e desde então o meu nome tem sido sempre Rosa.
—Mas então a menina não suspeita que existam ao menos parentes de sua mãe?
—Elles não me quereriam vêr, porque ficaram de mal com minha mãe.
—Quem sabe...
—Ó meu senhor! eu nasci para ser desgraçada!{170}
—E, se fosse preciso, a menina poderia provar tudo isso que me tem contado?
—Vive na rua da Padaria a sobrinha da sr.ª D. Clara, em casa de quem eu costumo ficar por esmola, quando estou desarrumada. Ella que diga se isto é verdade ou não.
Como não podia deixar de ser, a revelação d'este dialogo causou-nos profunda surpresa. Chamamos a rapariga, que repetiu todas as declarações anteriores.
—Mas isto é um verdadeiro romance! disse eu.
—Começado por ti e acabado por mim! observou orgulhosamente o Leotte.
—Tens razão.
—O que eu não sei, disse-me o Vasconcellos, é como tu e os teus collegas em lettras teem o condão de encontrar sempre um romance em toda a parte!
—Sempre, não. Poucas vezes até o acaso poderá ter fornecido um tão completo romance. Este a mim mesmo me surprehende.
—Sim. D'este não posso eu duvidar, porque estou assistindo a elle. Mas—continuou o Vasconcellos—tenho corrido todo esse paiz, e nunca encontrei nenhum romance nem coisa que o parecesse.
—Se tu fosses escriptor terias, por hipothese, feito dez romances; d'esses dez, nove seriam inventados, e apenas um verdadeiro. Notando que{171} o mais inverosimil seria talvez o unico verdadeiro.
—A julgar por este, assim é.
O Gonçallinho Jervis estava visivelmente entregue a dois pensamentos: um, que dissimulava; outro, que manifestava com vehemencia.
O primeiro adivinhava-lh'o eu: era um intimo desgosto de não ter sido elle que surprehendesse o romance.
O segundo inspirava-lhe indignadas apostrophes contra a mãe descaroavel que abandonára a sua propria filha á miseria, talvez á deshonra.
—Ah! Gonçallinho, é d'essa triste verdade que nasceu a creação das rodas dos expostos, dos asilos, das misericordias, de todas as piedosas instituições de assistencia publica. Mas parece que tu não vives n'este mundo! Pois não lês nos jornaes, todos os dias, noticias que te ensinam que ha mães que expõem as filhas, que as matam, que as vendem!... E pensas que todas essas torpes mães serão desgraçadas! Só são castigadas as que caem nas mãos da policia. As outras viverão decerto tão felizes como D. Christina.
Mas era preciso abandonarmos philosophias, tomar alguma resolução pratica.
Duas coisas ficaram logo resolvidas:
1.ª Que se escreveria ao Callixto, que tinha ficado em Lisboa, para ir á rua da Padaria procurar a sobrinha de D. Clara Gouvêa, a fim de pessoalmente verificar se as declarações d'ella{172} coincidiam com as da Rosa. Ficariamos em Cintra esperando a resposta.
2.ª Que eu inventaria á noite uma historia qualquer que, visando ao coração das mães descaroaveis, pudesse revelar-nos o arrependimento ou o cinismo de D. Christina.
Escripta a carta ao Callixto, comecei a pensar no modo de conduzir a observação psichologica de que tinha sido incumbido.{173}