I
As relações de amizade entre os vivos e os mortos são menos quebradiças e ephémeras do que as dos vivos uns com outros.
E a razão é facil de explicar: quem vai, não volta.
Os mortos não falam, não intrigam, não atraiçôam, não desmerecem, por isso, da estima e consideração em que uma vez os tomamos.
Affeiçôa-se a gente a um escriptor, a um maestro, a um pintor ou a um estatuário, que morreu ha muitos annos ou ha longos seculos, e não deixamos apagar nunca a lampada do seu culto: colleccionamos-lhe as obras sem olhar a dinheiro, por mais raras que sejam; conservamol-as em grande veneração como thesouros que um avarento aferrolha a sete chaves; e estamos sempre promptos a combater de ponto em branco pela gloria e belleza de suas producções, quando apparece algum zoilo a menosprezal-as com azedume.
E se nas relações com os vivos fazemos selecção do caracter d'elles para estabelecer convivencia e amizade, pouco nos importa a condição e procedimento dos mortos quando os estimamos em suas creações artisticas ou literarias com intransigente fanatismo.
O meu fallecido amigo visconde de Alemquer, que era um gentleman distinctissimo, primoroso em maneiras e acções, além de ser um biblióphilo digno de apreço e consulta, tomou tanto gosto pelas obras do padre José Agostinho de Macedo, que passou a maior parte da existencia a colleccional-as por bom preço e a muito custo.
Comtudo, havia tanta disparidade entre o caracter de um e do outro, porque o auctor dos Burros foi o mais atrabiliario, inconstante e perigoso homem de letras de todo o nosso Portugal, que o visconde de Alemquer, se houvesse sido contemporaneo do padre José Agostinho, nunca teria podido ser seu amigo, nem seu defensor, nem jámais o quereria vêr em intimidade de portas a dentro.
Pela minha parte, tambem sou obrigado a confessar um similhante fraco, não pelo mesmo padre, mas por outro que, sob o ponto de vista da disciplina monastica e da dignidade sacerdotal, não valia mais. Refiro-me ao franciscano Antonio Ribeiro o Chiado, que tambem despiu o habito e foi tunante irrequieto, sendo egualmente homem de letras.
Até 1889, anno em que logrei dar a lume as suas obras, quasi perdidas, e geralmente desconhecidas[[1]], custou-me o Chiado bom trabalho e canceiras para resuscital-o aos olhos do grande publico em toda a sua individualidade literaria.
[1] Obras do poeta Chiado, colligidas, annotadas e prefaciadas por Alberto Pimentel. Na officina typographica da Empreza Literaria de Lisboa, calçada de S. Francisco, 1 a 7.
D'então para cá não deixei de pensar n'elle a investigar-lhe a biographia, que é das mais obscuras e complicadas, e a procurar aquellas de suas obras que até 1889 não consegui haver á mão por mais que as desejasse e buscasse.
Alguma coisa achei n'este lapso de onze annos. Não é tudo ainda. Mas não perdi o tempo, nem parei, porque me repugna a inercia, e porque, verdade-verdade, tomei gosto ao Chiado, que não foi um vulto preeminente nas letras, mas que tem relevo como bohemio e dizedor, como trovista alegre e zombeteiro, farçante popularissimo, que a praça publica applaudia e que os escriptores mais notaveis não desconsideravam.
Outros meus contemporaneos teem consagrado todo o seu tempo ao Chiado rua, e talvez esses se riam de mim, que prezo mais o literato do que o Regent Street alfacinha.
Todavia, cumpre advertil-os de que a rua lembra o escriptor, e de que foi elle, como julgo poder demonstrar agora, que deu nome á rua.
Eu já em 1889 pendia para esta opinião, comquanto, n'essa epocha, só houvesse encontrado vestigios de que a rua tinha aquella denominação no seculo XVIII.
Depois d'isso, alguem lembrou que já era assim chamada na primeira metade do seculo XVII (1634) como se reconheceu por um documento digno de fé[[2]].
[2] Elementos para a historia do municipio de Lisboa, tomo IV, pag. 41. Ahi se vê que o conde de Atouguia morava «ao Chiado».
E eu proprio li, posteriormente, uma referencia mais antiga, porque é relativa á primeira década do mesmo seculo XVII: «Outras casas do bairro do Marquez ficavam situadas ao Chiado, quando se entra na rua Direita da Porta de Santa Catharina (1610)[[3]]»
[3] Archivo Nacional. Chancellaria de D. Filippe II. livro XIX, fol. 269.
Mas hoje cuido trazer prova convincente de que foi o poeta que, por consenso espontaneo do povo, deu o nome de Chiado á antiga rua da Porta de Santa Catharina ou a parte d'ella.
O povo baptiza melhor do que a camara municipal, porque baptiza com mais acerto, quasi sempre com inteira razão de ser; por isso, nome que elle ponha, péga, fica, perdura.
E, não obstante a camara municipal mudar em 1880 o nome á rua, de Chiado para Garrett, o povo não quiz saber de reviravoltas de letreiros nas esquinas: continua a chamar-lhe Chiado; Chiado é que é, porque o povo quer que seja assim.
As novas descobertas que hoje tiro a lume sobre a vida azevieira do poeta Chiado, anecdotas passadas entre o povo e com o povo, das quaes resulta que elle foi um bohemio tão acabado e popular no seculo XVI como Bocage o veiu a ser no seculo XVIII, essas novas descobertas, dizia eu, acodem a reforçar a prova, que em documentos colhi, de haver sido elle que celebrizou a rua em que morava e que por esse facto, sem que ninguem o decretasse, mas porque todos assentiram, ficou a alcunha do poeta tradicionalmente ligada á rua como um padrão de celebridade local[[4]].
[4] De todas as ruas de Lisboa o Chiado é a mais cantada e decantada. Na literatura, além de infinitas referencias, tem fornecido o titulo de algumas obras: Do Chiado a Veneza por Julio Cesar Machado (1867); Viagens no Chiado por Beldemonio (Ed. de Barros Lobo) 1857; A campanha do Chiado, scena comica; Trez ao Chiado, cançoneta. No principio do anno de 1868 começou a publicar-se em Lisboa um periodico com o titulo O Chiado, em formato grande e excellente papel. Teve ephémera existencia. No no 5. correspondente a 6 de fevereiro, inseriu um artigo do sr. Brito Rebello sobre o poeta Chiado. D'esse artigo recortamos os seguintes periodos:
«Mas d'onde lhe veiu a alcunha: Eis os eruditos em duvida. A opinião correntia até alguns annos era de que esta lhe proviera da rua onde habitava, que era a parte da subida desde o Espirito Santo, hoje palacio da casa de Barcellinhos, até á rua de S. Francisco (Ivens). Ha porém um contra: em monumento ou documento algum anterior ao seculo XVI, se encontra tal designação. É pois mais natural a hypothese do sr. Alberto Pimentel, de que do poeta veiu o nome á rua.»
A hypothese, formulada em 1889, é hoje uma these documentada.