II

Eu conjecturei em 1889 que--Chiado--era alcunha popular e nao appellido de familia. Hoje possuo provas de ter havido no districto de Evora, d'onde o poeta era natural, uma familia de appellido Chiado, anterior ao poeta.

Bem pode ser que o appellido proviesse de alcunha, no sentido em que a tomei[[5]], o que muitas vezes acontece. Mas não ha duvida que já no seculo XV existiam Chiados no baixo Alemtejo.

[5] Ver Obras do poeta Chiado, pag. XXVIII a XXX.

Perante D. João II queixaram-se João Lopes Chiado e Francisco Lopes Chiado, ambos eborenses e irmãos, contra a perseguição judicial que lhes moviam Ayres Gamito e Gonçalo d'Elvas, serviçaes d'el-rei.

Por carta regia, datada de Evora, D. João mandou annullar-lhes a culpa deixando-os illibados[[6]].

[6] Archivo Nacional. Chancellaria de D. João II, liv. 17, fl. 89, v.

No seculo XVI havia em Montemor-o-Novo um Antonio Fernandes Chiado, homem muito pobre, a quem D. João III perdoou o delicto (em 11 de setembro de 1553) de ter caçado perdizes com boiz, contra o que dispunham as Ordenações[[7]].

[7] Archivo Nacional. D. João III. Perdões e legitimações, liv, 19, fl. 398, v.

Mas nenhuma d'estas noticias vale tanto como a de ter existido ao tempo do poeta, no anno de 1567, em Lisboa, uma Catharina Dias, «dona viuva», mulher que foi de Gaspar Dias o Chiado, a qual residia «na rua Direita da Porta de Santa Catharina.»

Colhi esta noticia n'um documento authentico[[8]].

[8] Archivo Nacional. Collegiada de São Julião de Lisboa, maço unico no 14. Instrumento lacerado no fim. Transcrevemos apenas o começo, por ser a parte que mais nos interessa:

«Em nome de deus amem sajbam quãtos este estromento de emnouacão de prazo e nouo emprazamento vyrem que no Anno do nascymento de nosso senhor Jesus Christo de myll e quinhentos e sesemta e sete Aos tres dias do mes de Junho na cydade de llixboa demtro da parochiall Igreya de sam Gjão estãdo ahy de presente o senhores lljonardo nardez de cyxo (sic) prior da dita Igreya e guomcallo diaz e Jorge Rebejro e pedro ortyz e ffrancisquo de lhãnes beneffyciados em ella todos presentes e Imtaresemtes na dita ygreya e todos jumtos e cõgregados por som de campam tãgjda em cabido e cabydo ffazemdo ffazemdo (sic) especyallmente sobre o auto de que abayxo ffara memçam e todos de huã parte e da outra estamdo a esto presente cateryna diaz dona veuua molher que ffoy de gaspar diaz o chyado dalcunha vynhateyro que deus aja e ella vyue hora nesta cidade na Rua derejta da porta de samta cateryna e lloguo por elles senhores pryor e majs beneficiados ffoy dyto que amtre os majs bens e propriadades que A dita Sua Igreja pertemce e de que ella esta de pose como derejto senhoryo asy sam huas cassas que estão nesta cydade no topo da callcada de pay de nabays na Rua derejta da porta de samta cateryna as quoajs pessue hora como vtill senhoryo A dyta caterina diaz por as nomear em ellas por segunda pessoa o dito gaspar diaz chyado que nellas hera a primeira pessoa comfforme ao emprazameto que dellas lhe ffoy ffeyto por A dyta Igreya pryor e benefficiados della e pagua de fforo myl e trezemtos e cimquoenta reis em cada num Anno com galljnhas e tudo e com outras majs comdjcões e obrigações de seu comtrato, etc.»

Ora ahi se diz textualmente a respeito d'aquella Catharina Dias: «molher que ffoy de gaspar diaz o chyado dalcunha vynhateyro que deus aja.»

A falta de pontuação nos documentos antigos dá origem a muitas escuridades e equivocos. Assim, na phrase que deixamos transcripta, poderiam caber duas interpretações: que Gaspar Dias tinha a alcunha de Chiado ou tinha a alcunha de Vinhateiro. Mas a anteposição do artigo á palavra--Chiado--reforçaria por si mesma a hypothese de ser alcunha, se a não confirmasse plenamente esta passagem que se encontra no texto do documento:

«Aos seys dias do mes de junho de myll e quynhemtos e sesemta e sete Annos na cydade de llixboa Rua derejta da porta de ssamta cateryna nas cassas de caterina diaz A chiada dalcunha donna veuua etc.»

Assim, pois, ficamos seguros de que o Gaspar Dias da rua Direita da Porta de Santa Catharina não tinha o appellido de Chiado, como alguns individuos do Alemtejo, mas sim a alcunha, e de que exercia a profissão de «vinhateiro» por ser viticultor ou negociante de vinhos. Bem poderia succeder que os vendesse a retalho na propria casa de residencia, especie de estalagem talvez, onde admittisse hospedes.

N'elle era, portanto, alcunha o que n'outros fôra appellido de familia; mas bem póde haver sido que a origem do appellido no Alemtejo proviesse primitivamente de uma alcunha.

Quanto á significação da palavra chiado não ha duvida. Na Revista Lusitana VI, 79, encontra-se um estudo intitulado--Dialecto indo-português de Gôa--, auctor monsenhor Sebastião Rodolpho Dalgado (sic), no qual estudo se lê: «Chiado, astuto, ladino. «Não é porque eu seja mais chiado, mais astuto do que os outros». Do k., sansk chhadmin.» Mas, sem recorrermos ao concani, o nosso verbo «chiar» e o seu participio podem dar ideia de um sujeito de «ruidosa» reputação como bargante e dizidor. No Brazil o nome--Camões--tomou a accepção popular de--cego de um olho; e até me informam--ó sacrilegio!--que lá se diz, por exemplo, «um cavallo camões». O povo tem um grande instincto de generalisação: certos individuos seriam--chiados--por se assimilharem moralmente. Da alcunha proviria talvez o appellido; mas não vale a pena insistir n'este ponto.

O que faz ao nosso proposito é dizer que a Gaspar Dias fôram aforadas pela collegiada de S. Julião umas casas sitas «no topo da calçada de Pai de Nabaes na rua Direita da Porta de Santa Catharina» e que houve renovação do prazo no tempo da viuva, segundo ella requereu e obteve.

A referida calçada é descripta em documentos antigos como sendo--de Payo de Novaes--Pai de Navaes ou--Pai de Nabaes[[9]].

[9] «Calçada de Payo de Novaes--Corre a dita Calçada ao principio quasi norte sul e contem seu comprimento desde o Largo da Cruz do Azulejo thé donde volta 173 p. e de Largura 16 p. e voltando corre Leste oeste, e contem thé intestar com a rua do Chiado donde parte o destricto do Bayrro 42 p. e de Largura pello leste 42 p. e pello oeste 25 p.». Tombo da Cidade de Lisboa, Livro 10, Rocio fl. 20.

O Mappa de Portugal, III, 391, diz que a calçada de Payo de Novaes pertencia á freguezia de S. Nicolau.

No livro 8 da Extremadura lê-se, fl. 27: «na rua que vem da callçada que vem de pay de nauaaes pera o poço do chãao e parten (as casas) de hûa parte cõ a albergaria dos tanoeiros da outra cõ casas de S. Vicente de Fora etc. e da outra cõ casas dos banhos do espitall de dona maria de aboym etc. e com Rua pubrica». T em a data de 1467.

Na Lisboa antiga, de Julio de Castilho, vol. VI, vem um fragmento da planta traçada por José Valentim, e ahi se póde vêr claramente qual era a situação da calçada de Pai de Nabaes em relação á rua Direita da Porta de Santa Catharina.

Por este fragmento, que reproduzimos, reconhece-se que a calçada de Pai de Nabaes ficava ao fundo do Chiado actual, entalada entre o palacio do conde de Valladares e a egreja do Espirito Santo, e que foi do predio ahi situado, onde residira Gaspar Dias, que se alastrou o nome de Chiado para um trecho apenas da rua Direita da Porta de Santa Catharina, conservando esta rua o seu antigo nome desde a Cordoaria Velha[[10]] até propriamente á porta de Santa Catharina, isto é, até ao Loreto moderno.

[10] A Cordoaria Velha correspondia á rua de S. Francisco, hoje rua Ivens.

Seria em casa de Catharina Dias a Chiada que o poeta Antonio Ribeiro se hospedou. Não podêmos admittir que fosse o marido d'ella que désse o nome á rua, a qual no tempo da viuva ainda tinha a designação antiga e total--de rua Direita da Porta de Santa Catharina.

Pode ser que o poeta recebesse da propria casa de Pai de Nabaes, como seu hospede ou freguez, a alcunha de Chiado, tanto mais que esta alcunha lhe quadrava como astuto e ladino, e que elle, segundo uma accusação de Affonso Alvares, se dava a frequentar lojas de bebidas:

E tu queres ser rufião e beber como francez.

Pode ser que fosse parente, adherente ou intimo da viuva de Gaspar Dias, e que por parte do povo tambem houvesse malicia em dar ao commensal a alcunha que pertencêra ao marido.

A tradição diz que o poeta morou n'aquella rua e, segundo a maior certeza possivel, parece poder agora ficar assente que foi elle, pela notoriedade de que gosou, devida a suas ribaldarias e veia comica, que deu o nome á rua.

É menos admissivel a hypothese de que o poeta, por singular coincidencia, fosse um dos Chiados do Alemtejo, apesar de ter nascido no districto de Evora, onde, na cidade capital do districto e na villa de Montemor-o-Novo, existia aquelle appellido. No Alandroal, cêrca de seis leguas ao sul de Evora, ha um monte (casa de habitação de uma herdade) que tem o nome de--Chiado[[11]]--e um logar chamado--Chiada. No districto de Faro (Algarve) tambem ha um logar com a denominação de--Chiado,--como se vê da Chorographia de Baptista. Chiado é, pois, um vocabulo do sul. Mas tanto o poeta como seu irmão Jeronymo, tambem poeta, assignavam apenas o appellido--Ribeiro. O que me leva a crêr que Chiado fôra alcunha posta a Antonio Ribeiro, bem assente n'elle, que a merecia; e por ser alcunha a precediam de um artigo.

[11] Situado a dois kilometros da villa. Haverá um seculo pertenciam este monte e herdade a um individuo chamado Pedro Gonçalves. Passando de paes a filhos, veio a propriedade a pertencer ao pai do sr. Martins, do Redondo, actual proprietario.

Em resumo: antes do poeta a rua não tinha o nome de Chiado[[12]].

[12] Fica, pois, documentalmente contradictada a opinião, tantas vezes repetida, de que o poeta recebeu o nome da rua. Ainda recentemente disse a Encyclopedia portugueza illustrada: «Indo para Lisboa (o poeta), foi morar para o Chiado, e d'ahi o ser conhecido por este nome.» É verdade que a mesma Encyclopedia tambem diz que o Chiado escreveu varios autos, sendo conhecidos dois: Auto de Gonçalo Chambão e Auto da natural invenção.» justamente estes dois é que ninguem tem podido vêr. Dos trez que publiquei em 1889, não fala: esses então é que são os desconhecidos!