III

Já agora seja-me permittida uma divagação, que reputo interessante, a respeito do sitio do Chiado, que o nosso poeta tornou famoso.

Eu disse que a calçada de Pai de Nabaes ficava entalada entre o palacio do conde de Valladares e a egreja do Espirito Santo da Pedreira.

«Da Pedreira», porque os alicerces d'este edificio foram assentes no alto da escarpa, que impendia em tempos remotos sobre um esteiro do Tejo, cidade dentro, e que ainda hoje se deixa adivinhar na enorme differença de nivel que ha entre o fundo do Chiado e a rua do Crucifixo.

A egreja e hospital do Espirito Santo estão actualmente substituidos, no mesmo local, pelo moderno palacio da familia Barcellinhos.

A egreja era muito antiga, pois que no anno de 1279 já tinha sido fundada.

No seculo XVI foi reconstruida com donativos de el-rei D. Manoel e outros bemfeitores. Ficou o templo com trez naves, e tinha uma capella-mór artificiosamente lavrada, obra de muita estimação e riqueza.

O padre Carvalho, na Chorographia Portuguesa[[13]], dá larga noticia d'esta egreja depois de reconstruida.

[13] Tomo III, pag. 445 e seguintes.

Junto ao templo, e com serventia para elle, havia o hospital do Santo Espirito, que albergava permanentemente doze pessoas necessitadas, entre as quaes «dez mulheres donzellas ou donas viuvas de boa vida».

A bem dizer, era mais um recolhimento do que um hospital.

E assim foi até o anno de 1672, em que os padres da Congregação do Oratorio, que se tinham instituido alli perto, no sitio das Fangas da Farinha, á rua do Almada, tiveram auctorização para tomar conta do hospital do Santo Espirito, onde passaram a estabelecer-se dois annos depois.

Alli permaneceram os oratorianos, tranquillos e contentes. Mas por occasião do terremoto de 1755 a egreja e convento arderam, perdendo-se os preciosos haveres d'aquelles padres. A congregação transferiu-se então para o convento das Necessidades, que é hoje palacio real.

Ficaram apenas de pé as paredes dos dois edificios incendiados.

No frontispicio da egreja havia grandes columnas de cantaria, que o leitor ainda hoje pode ver... aonde?

Aonde? Não em outro templo, mas na fachada de um theatro, porque as pedras tambem teem seus fados. Estas transitaram, por caprichoso destino, do sagrado para o profano. Estão agora na frontaria do theatro de D. Maria II; são as mesmas columnas da egreja do Espirito Santo.

O leitor não acreditaria esta noticia, se eu não pudesse comproval-a com um documento authentico.

Mas posso. Ahi vai o documento, que, por ser curioso, não quero que fique esquecido entre os meus papeis velhos:

«Ministerio do Reino--3.^a Repartição--Havendo Manuel José d'Oliveira, actual proprietario do edificio da supprimida Casa do Espirito Santo da Congregação do Oratorio, cedido as grandes columnas de cantaria e seus capiteis, que ornão o frontispicio d'aquella Igreja, para serem empregadas na fachada do novo theatro nacional, que se projecta fazer; com a condição de que não seja feito á sua custa o descimento e conducção das mesmas columnas: Manda Sua Magestade a Rainha, que o Conselheiro Fiscal das Obras Publicas faça preparar todo o apparelho necessario para aquelle descimento, combinando com o mencionado Manuel José d'Oliveira a occasião e dia em que elle deve ter logar; fazendo depois conduzir as ditas columnas e capiteis para o Arsenal da Marinha, onde achará as ordens necessarias para serem recolhidas e depositadas até que se lhes dê o indicado destino: devendo outrosim o mesmo Conselheiro Fiscal dar todas as providencias para que, tanto no acto do descimento, como no da conducção, não soffram o menor damno as columnas e particularmente os lavrados de seus capiteis. Palacio das Necessidades em 9 de janeiro de 1836. (assignado) L. M. S. de Albuquerque».

Pois não é interessante o destino d'estas columnas?

Procurei saber quando foi que entraram em deposito no Arsenal de Marinha, e quando sahiram de lá para o theatro.

Metti de empenho o meu illustre amigo sr. conde de Paço d'Arcos, que gentilmente, como sempre costuma, se interessou pela minha solicitação. Fez-se a pergunta ao Arsenal. Passaram mezes. Não veiu resposta. Não era negocio de expediente ordinario; ficou para traz. Pois deixal-o ficar; eu é que vou andando para deante, já aborrecido de esperar.

E agora tornemos ao nosso poeta.