IV

A popularidade de Antonio Ribeiro o Chiado proveiu não tanto da sua veia poetica, aliás muito apreciada pelos entendidos, como das suas repetidas tunantadas, de que o povo tinha directo conhecimento, porque as presenceava em plena rua.

Era entre o povo, entre as classes humildes de que elle provinha, porque lá diz Affonso Alvares no proposito de deprimil-o

Nasceste de regateira e teu pai lançava solas;

era entre a arraya miuda que o Chiado localizava o theatro das suas façanhas picarescas, dos seus feitos esturdios, das suas «partidas» e «piadas», como hoje dizemos.

Um códice do Archivo Nacional, de que só agora tive conhecimento, revela algumas das suas estroinices e chalaças, que não ficam a dever nada ás mais gaiatas e desbragadas de Bocage.

O codice a que me refiro tem o n.o 1817 e o titulo--Diversas historias e ditos facetos a diversos propositos.

É uma interessante collecção de anecdotas, que deve ser anterior ao anno de 1617 e pertenceu á livraria do mosteiro de S. Vicente.

Vamos passar em revista as paginas que n'essa miscellanea dizem respeito ao Chiado; e, onde fôr preciso, lançaremos um véo por decencia sobre as anecdotas que entrarem no dominio da pornographia.

É claro que a palavra--véo--não promette mais do que um anteparo diáphano.


Quiz o poeta comprar a uma regateira um peixe de estimação. Offereceu-lhe apenas 7 réis e meio. Volveu-lhe a regateira por escarneo:

--Tomal-o-heis com um trapo quente.

N'esta resposta havia tanto desdem, que picou fundo o Chiado; certamente elle se teria doído menos de uma descompostura destemperada, como aquellas que as peixeiras de Lisboa não precisam ensaiar-se para desfechar na cara de toda a gente. Mas a ironia, o desprezo da réplica, abespinhou-o; suggeriu-lhe um plano de vingança, que logo poz em execução.

Disfarçadamente aproximou-se do fogareiro de alguma assadeira de castanhas ou quejando mister. Aqueceu um trapo, o primeiro que se lhe deparou, e apossou-se violentamente do peixe, empregando o trapo na tomadia.

Escarcéo da peixeira, que se dizia roubada. Agglomeração de povo, que ria do caso exaltando a astucia do Chiado. Appêllo dos dois contendores para a justiça, visto faltar ainda n'esse tempo o bureau policial da Parreirinha.

A varina fez a sua queixa. Chiado ponderou a circumstancia de se haver apoderado do peixe com um trapo quente, condição imposta pela peixeira. Decisão da justiça: que o poeta pagasse os 7 réis e meio que offerecera, e ficasse com o peixe, pois que a condição do trapo havia sido satisfeita, ficando salva a fé do contrato.


Era o Chiado ainda frade franciscano--porque depois despiu o habito por indisciplina ou lh'o despiram por castigo--e começou a embirrar uma vez com o magro caldo de lentilhas, que lhe deram no refeitorio.

Vai isto de accôrdo com a proverbial pobreza dos franciscanos.

Remexendo no caldo, não encontrou mais que uma lentilha. Pareceu-lhe pouco nutritivo o singular, e começou a despir-se, como se quizesse atirar-se a um charco. Reprehenderam-n'o com estranheza. Elle explicou: que tinha visto apenas um legume no fundo da tigela e que o queria tomar de mergulho.


D'outra vez--e aqui vai ser preciso o véo--apostou que em pleno Terreiro do Paço, entre um grupo de dez ou doze picões (arruadores) que alli estanceavam, era capaz de improvisar um water closet, sem que elles protestassem.

Fingiu-se acossado pela justiça e, correndo direito aos faias (como hoje diriamos) pediu-lhes que fizessem roda para o livrar de ser preso. Cahiram no langará, elles, e cerraram-se em parede, de modo que o supposto fugitivo não pudesse ser visto. Passado algum tempo, o Chiado parte agradecendo, e só depois foi que, pelo olfacto ou pelos olhos, os logrados reconheceram o logro.


Não havia aposta bréjeira que lhe não propozessem, e que elle não acceitasse.

Se seria capaz de açoitar um vinagreiro que ia passando com dois ôdres sobre a mula? Que sim. Dito e feito. Acercou-se do vinagreiro e disse-lhe que desatasse um dos ôdres, pois queria provar o vinagre. Tomou um bochecho e fez cara de não achar bom. Exigiu provar do outro ôdre, segurando elle proprio no que já estava desatado. De repente finge vêr alguem ao longe ou querer acudir de prompto a qualquer incidente. Passa o ôdre ao vinagreiro, que ficou com um em cada mão, ambos desatados. E então começa a açoitar o pobre homem, que não poderia defender-se sem deixar perder o vinagre.


Conchavou-se o Chiado com outros tunantes da força d'elle para engarampar um villão, que veiu a Lisboa comprar trigo. Disse-lhe que se queria trigo bom o não podia achar melhor que o de um seu irmão, em certa nau que estava á descarga; que fosse a bordo compral-o, mas que para não sujar o sombreiro e a capa lh'os deixasse alli no caes, onde o ficaria esperando. O villão pagou logo sete tostões pelo trigo, e deu a capa e o sombreiro a guardar. Foi a bordo, em cabello e corpo bem feito. Mas disseram-lhe lá que não tinham commissario em terra, e que só faziam negocio com dinheiro na palma da mão. Voltou o homem ao caes, e já não viu o Chiado; encontrou, porém, os outros guilhotes, os quaes lhe deram uma carta de quitação que o Chiado deixára para o parocho do basbaque, explicando tudo. Ora a carta dizia:

João Pires do Outeiro Me deu a capa e o sombreiro, Sete tostões em dinheiro, E mais me dera Se mais tivera.


Não tendo que jantar um dia, lobrigou certo mancebo a comprar peixe na Ribeira. Chegou-se a elle, dizendo ser grande amigo de seu pai. Sob esta côr o convidou a jantar. Foram os dois, mano a mano, para o local que o Chiado indicou. Ahi, disse lhe que poizasse o peixe, que logo se cozinharia, e que fôsse buscar qualquer tempêro que faltava. Quando o ingénuo moço tornou, já não viu o Chiado nem o peixe.


D'outra vez chamou um polhastro e industriou-o a fingir-se vendilhão, levando no fundo de uma panela excremento humano. O rapazola apregoava, como o Chiado lhe ensinou: «Quem merca isto?» Alguns curiosos queriam ver o que era para comprar. E, reconhecendo a mercadoria, diziam por claro o nome que se lhe dá. O polhastro respondia enfadado: «Pois não é outra cousa.»


Vem agora uma anecdota geralmente attribuida a Bocage, mas que não póde ser sua, pois que o manuscripto d'onde a tomamos é anterior a 1617 e portanto quasi seculo e meio anterior ao nascimento de Bocage.

Entraram ratoneiros em casa do Chiado, e levaram-lhe o melhor que tinha. Elle viu-os a tempo de poder gritar por soccorro; mas, em vez de bradar, poz ás costas o refugo que lhe deixaram e foi-os seguindo derreado sob a carga. Os gatunos, espantados, fizeram alto e perguntaram-lhe para onde ia. O Chiado respondeu tranquilamente: «Venho vêr para onde nos mudamos.» Com o que desarmou a audacia dos amigos do alheio que, rendidos á chalaça, lhe restituiram o bom que levavam.


Quando alguem queria engendrar uma bréjeirice, ia ter com o Chiado, que era padre-mestre na materia.

Por isso o consultaram certos vaganaus sobre a «partida» que deveriam fazer a um mulato fôrro que andava por Lisboa, e a quem tinham asca por ser valentão e soberbão.

Aconselhou os o Chiado a que, logo que entrasse alguma nau ingleza, lhe dessem aviso.

Chegou a occasião, veiu um navio inglez e o Chiado, fingindo-se fidalgo, foi a bordo com alguns d'aquelles tunantes, que dizia seus criados.

Propoz ao capitão da nau que lhe comprasse um escravo mulato, que era robusto para o trabalho do mar, mas que não podia amansar em terra.

Fez-se o ajuste, sob condição de que o escravo iria á mostra.

Os outros picões levaram-n'o a bordo, e como agradasse aos inglezes, logo receberam d'elles o preço que fôra combinado.

Protestou o mulato não ser captivo, mas não foi acreditado, visto terem-lhe posto fama de soberbão. Quiz reagir á viva força, mas lançaram-lhe ferros, visto saberem n'o valente. E teria ido mar em fóra, como escravo, se a justiça, informada da occorrencia, o não fosse libertar a bordo, obrigando os vaganaus a restituir o dinheiro recebido dos inglezes.

Não houve mais nenhum outro procedimento da justiça contra o inventor e executores d'esta tunantada, que aos proprios magistrados pareceu graciosa.

O Chiado sahiu incolume, porque foram os socios que pagaram por elle, e porque a justiça prohibiu ao mulato que tirasse qualquer desfórra.

Palavras textuaes do manuscripto: «...com pena de morte ao negro, que sobre aquella graça com o Chiado não entendesse, pois fôra tão bem achada a graça.»

Tal era a cotação da jocosidade do poeta, que até a justiça se lhe rendia; a natureza dera ao nosso bohemio todos os predicados de gracioso, incluindo a facilidade de imitar simultaneamente as vozes de muitas pessoas[[14]].

[14] «Parece que era ventriloquo, porque imitava ao mesmo tempo as vozes de differentes pessoas.» Dic. Popular, vol. IV, pag 268.


Tinha o Chiado em casa um pote onde fazia os despejos. Um dia lembrou-se de lhe pôr um tampão e embreal-o exteriormente no bocal e no bojo, de modo a parecer vasilha para exportar. Chamando depois quatro mariolas, encommendou-lhes que levassem aquelle pote de conservas á Ribeira, que o queria embarcar, e que esperassem lá por elle para lhes pagar o frete.

Como o Chiado não tornasse a apparecer, foram os carrejões avisar a justiça e requerer que lhes entregasse o pote por indemnisação de seu trabalho.

Sendo-lhes entregue como cousa perdida, destaparam-n'o «e mettendo a mão dentro--diz o manuscripto--acharam-se com a conserva que não imaginavam, e logo viram que fôra lanço do Chiado.»

Logo viram que fôra lanço do Chiado: esta phrase testemunha quanto era fecunda e inventiva em chistes e logros a imaginação do famoso bohemio do seculo XVI.

Conheciam-n'o pelo dedo--como gigantesco entre os mais preeminentes foliões do seu tempo.


Para concluir o extracto do manuscripto, que nos fornece todas estas anecdotas, resta dizer que passando o Chiado pela porta da Sé viu um grupo de muchachos e, dando-lhes attenção, ouviu-os dizer:

--Eu tomára ser bispo.

--Eu tomára ser pápa.

--Eu tomára ser rei.

O Chiado, acercando-se d'elles, interpellou-os dizendo:

--E sabeis vós o que eu tomára ser?

--?...

--Tomára ser melão para me beijardes... no sitio em que se beijam os melões.

Com a differença que elle falou mais claro do que eu.


Aqui terminam os elementos anecdoticos fornecidos pelo manuscripto para a reconstituição da biographia picaresca do poeta Chiado.

Mas estes, que já não são poucos, bastam a egualar o Chiado com Bocage em materia de bréjeirices e tunantarias.