A BAZILICA

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XVI
A BAZILICA

N'uma deliciosa novella de Octavio Feuillet, que toda a gente conhece, Le roman d'un jeunne homme pauvre, avulta, entre outras, uma nobre figura de velha fidalga, a snr.ª Porhoet, que, atravez dos gelos dos seus oitenta annos, entreve os caprichos architectonicos d'uma sonhada cathedral, em cuja edificação consumirá os fabulosos haveres a que se habilita por um antigo pleito.

Ha uma doce poesia religiosa n'esta veneranda figura de mulher, em cujos sonhos se lhe entremostra a esplendida cathedral,{124} arremessando para o azul os seus corucheos phantasticos, as suas agulhas floreadas, que se enlabyrintham n'uma aerea floresta de marmore.

Este templo que a pouco e pouco se vai erguendo na sua phantasia senil, porque todos os dias a snr.ª Porhoet modifica a direcção de uma linha, a architectura das longas naves magestosas, os finos labores dos ornatos, resume todo o seu pensamento, é a sua ideia fixa, a sua vida.

Similhantemente á snr.ª Porhoet, o moço rei de Hespanha principiou a planear, na solidão da sua alma, uma bazilica não menos grandiosa, cujo phantasioso zimborio cobrisse ao mesmo tempo o altar de Nossa Senhora e o sarcophago definitivo de Mercedes.

N'esse vasto templo, sonhado pelo rei de Hespanha, o amor e a saudade entralaçarão os longos cordões de pedra que formarão as columnas, tecerão as formosas rendas de marmore que se recortarão em ondulações caprichosas, elles ambos architectarão as abobadas, levantarão os altares, guardarão, como dois anjos lacrimosos, o cinerario de Mercedes.

Será esse o mais formoso poema que a saudade concebeu até hoje; poder-se-ha chamar á projectada bazilica de Santa Maria{125} de Almodena o templo christão do amor, como a Batalha é o templo christão da victoria.

O vento ao perpassar pelas flechas da bazilica suspirará elegias á bella rainha que alli dorme, sob as azas de Maria; e o sol, o sol formoso da peninsula, procurará reanimar, com os seus beijos de luz, o cadaver da noiva mallograda.

Todos os annos sahirá da lista civil um milhão de reales para a edificação do templo grandioso. Annualmente, o duque de Montpensier e a princeza das Asturias auxiliarão com duzentos mil reales cada um a realisação d'esse religioso sonho do rei. Os diamantes e joias existentes na egreja da Atocha, que pertencem á mãe de Affonso XII, foram por ella cedidos, a pedido do filho, em favor do esplendido monumento projectado. A carta de cedencia diz assim:

«Filho da minha vida. Acabo de abraçar o duque de Montpensier, que me entregou as tuas cartas. Vendo-as, vejo que como rei catholico e como gentilhomem sentes as tuas dôres e pensas em Mercedes, refugiando-te em Deus, e querendo fazer bem á tua capital; queres sobretudo{126} depôr aquelles restos queridos aos pés da Virgem, n'um grandioso templo.

«A tua mãe, meu filho, não só consente que as joias da Atocha sejam vendidas, mas ainda te abençôa, e se associa ao teu projecto digno de um rei, de um christão, e de um bom esposo.

«Para isto como para tudo o mais conta sempre, Affonso, com o immenso amor, e com a cooperação de tua mãe, que deseja tornar bem conhecido que de longe é e será sempre a mesma para Madrid, para a Hespanha, e para o seu rei.

«Recebe mil beijos, bem como os filhos da minha alma, e para todos vós a benção da tua affectuosa mãe

Isabel

Será, pois, a bazilica de Santa Maria de Almodena, levantada sobre columnas de lagrimas e de diamantes, um novo e maravilhoso templo de Salomão, cujos esplendores deslumbrarão a phantasia dos artistas e dos poetas. Mais feliz do que a velha snr.ª Porhoet, o moço rei de Hespanha logrará vêr realisado o seu ideal. E esta bazilica assombrosa será, para assim dizer,{127} a ultima pagina do melancolico romance da rainha Mercedes. A arte escreverá a palavra final n'este grande poema que o amor concebeu e que a saudade rociou de uma dôce chuva de lagrimas.