VIUVEZ

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XV
VIUVEZ

Quando ao sol-pôr, n'uma suave tarde de primavera, nos vamos sentar, profundamente melancolicos, sobre o fraguedo que domina o horizonte, onde os longinquos resplendores do occaso fazem lembrar os reflexos de um palacio aereo illuminado para um sarau cavalheiresco, o nosso olhar tem o condão de não vêr atravez do florido scenario da natureza e do fundo auriluzente do céo mais que o ideial da sua melancolia.

Assim tambem o rei Affonso, atravessando com o seu pensamento maguado as festas ante-nupciaes do archiduque Frederico de Austria, o companheiro querido de{120} collegio, só tinha presente a imagem saudosa de Mercedes, a solidão immensa da sua viuvez inconsolavel.

Por isso escrevia:

Meu querido Frederico.

«A rainha Mercedes morreu. Que Deus te conceda no matrimonio a felicidade que me negou. Nas tuas proximas horas de felicidade, recorda-te das horas de martyrio e de dôr que estou soffrendo.

Affonso.»

Dôr profunda, que uma mulher, tambem rainha, e tambem viuva, comprehendia chorando. A rainha Victoria enviava ao rei de Hespanha estas eloquentes palavras:

«O meu coração está profundamente ferido pela vossa desdita, meu querido irmão. Que espantosa desgraça quiz Deus enviar-vos! Que Elle vos dê a força necessaria para supportar tão terrivel perda.»{121}