A BENÇÃO
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VII
A BENÇÃO
O cortejo nupcial era imponente, magestoso.
A grandesa das velhas côrtes europêas resuscitou n'aquelle dia sob o céo da formosa Hespanha.
Houve um momento de silencio e de anciedade quando se avistou a vanguarda do prestito, quando o cavallo do timbaleiro, ricamente ajaezado ao antigo estylo hespanhol, constellado de brazões, rompeu a marcha, seguido por um esquadrão de cavallaria, pelos arautos, e por vinte corceis arreiados ao tempo de Carlos V.
Depois começou a desdobrar-se a longa fila das carruagens, em numero superior a duzentas. Na frente, as do conde de Paris,{60} da rainha Christina, dos fidalgos da casa do rei, dos mordomos de semana, das infantas irmãs do rei, de D. Francisco de Assis. Empós, o coche deslumbrante da princesa das Asturias, um antigo coche de tartaruga, incrustado de ouro, com as arestas cobertas de grinaldas de flôres, que um artista do seculo XVII pintou; interiormente forrado de setim, com lavores do tempo de Luiz XVI; tirado por oito cavallos emplumados e ladeado por officiaes da casa real. Dentro d'esta berlinda encantada destacava o busto gracioso da princeza, que cingia o manto de côrte sobre um vestido de velludo vesuvio, bordado a cravos de varias côres. Esta visão encantadora, que o sol parecia rodeiar de reflexos phantasticos, não tinha ainda desapparecido, e já outra, verdadeiramente féerica, attraía o olhar.
Era a carruagem do rei.
As esplendidas librés á Luiz XVI, ostentando as côres dos Bourbons, quatro parelhas com jaezes cuja riqueza só podia competir com a das librés, os homens das maças, os picadores, os criados a pé, que se affiguravam barras de ouro a andar, como disse por esse tempo um jornalista, eram como que uma muralha transparente, tecida de ouro e de sol, atravez da qual os procurava com a vista a figura esbelta de rei dentro da sua carruagem olympica.{61}
Excede tudo o que se possa imaginar esta velha carruagem real, que já tem dois seculos de existencia, feita de acajú, com ornatos de bronze dourado, encimada por um grupo de figuras mythologicas, que se enredemoinham aos abraços n'uma lucta confusa, sob o peso da corôa, que remata esse zimborio de um trabalho cellinesco. A caixa do trem arquea-se sobre laminas douradas, á similhanca das carruagens de gala da côrte portugueza. O interior, acolchoado de setim, cheio de paizagens, de figuras bordadas, emmoldurava o perfil do rei, que vestia a sua grande farda de general, com o tosão de ouro sobreposto.
Mais tres carruagens, de um esplendor levantino, completavam o numero dos coches de gala: uma de ébano e de lapis-lazuli marchetada de ouro; outra de marfim, e a ultima de crystal de rocha, uma especie de barquinha de vidro, que tremeluzia ao sol, como se se fosse movendo sobre uma onda azul do mar Jonio.
Uma escolta numerosa encerrava este cortejo phantastico, que passava deslumbrando como no fundo de um kaleidoscopio.
Tudo havia sido dirigido em tão exacta conformidade com o programma, que a carruagem do rei chegou á bazilica da Atocha ao mesmo tempo que a da princeza Mercedes.{62}
Sob O arco de triumpho, o cardeal Benevides, patriarcha das Indias, acompanhado pelo nuncio apostolico e por quinze bispos, esperava os noivos.
Affonso XII foi recebido debaixo do pallio de velludo vermelho bordado a ouro, ondulante de grandes plumas brancas, que faziam lembrar o adejar de um bando de pombas irrequietas.
Atraz do rei seguia o conde de Paris, que vestia a farda de tenente-coronel do exercito hespanhol; os duques de Montpensier, trajando a duqueza um vestido de setim amarello e preto; as infantas irmãs do rei e da rainha, que levavam mantos de côrte e vestidos de faille azul celeste, guarnecidos de crepe liso, estrellejados de perolas finas, e arregaçados por bouquets de rosas brancas e de myosotes.
Empós este coro nupcial que rodeiava Mercedes, este bello grupo de princezas, e de damas nobres como a duquesa de Sexto, que vestia de setim vermelho com rendas de Alençon, e a condessa de Guaqui, que trajava vestido de setim branco guarnecido de pennas de abestruz e perolas finas, entraram no templo o senado, os deputados, e o corpo diplomatico.
O rei subiu ao throno, onde a sua gentil figura se conservou de pé alguns momentos, e desceu depois para ir ao encontro{64} da sua noiva, que vestia de tafetá branco, bordado com innumeros bouquets de rosas nevadas, roçagando sobre o tapete do templo, entretecido por cem senhoras da primeira sociedade hespanhola, a sua immensa cauda.
Então celebrou-se a missa, que foi expressamente escripta pelo compositor cubano Villate, author da opera Zilia, e o patriarcha das Indias cruzou sobre os noivos a benção nupcial. Este acto foi acompanhado por uma allocução do patriarcha, depois da qual, subindo a rainha ao estrado, o patriarcha fez ouvir esta solemne saudação: «A Egreja sauda-vos rainha de Hespanha.»
Cantado o Te-Deum, D. Affonso XII e a eleita do seu coração subiram á carruagem real. O magnificente cortejo atravessou as ruas de Madrid por entre nuvens de pombas, que, lançadas das janellas, n'um numero prodigioso, esvoaçavam ás doidas por sobre as carruagens.
Nos labios do rei desenhava-se um fino, um doce sorriso de felicidade, cuja expressão se póde traduzir n'uma só palavra: «Emfim!»{64}
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