FESTAS
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VIII
FESTAS
Seguiram-se as festas. Madrid accendeu-se como um só facho phantastico, cujos largos reflexos prysmaticos e agitados faziam lembrar um enorme bouquet de luz, osculado pela viração da noite. O Prado affigurava-se uma montanha de estrellas; as fontes de Neptuno, de Cybele e de Apollo jorravam scentelhas. Os palacios particulares, entre os quaes avultava o do marquez de Campos, pareciam feitos de crystal illuminado. Nas ruas, a multidão fremente ondulava como a superficie de um oceano. Fallava-se, bailava-se, cantava-se ao som dolente da guitarra. Os trovadores populares recitavam{68} epithalamios no velho estylo romantico, cheios de pomposa rhetorica: «Luz que inundas de fulgôres os horisontes da patria; arco-iris da paz, penhor de felicidade, vive feliz e cumpre a tua missão.» Na praça de la Armeria seiscentos musicos e quatrocentos cantores entoavam um côro grandioso. Na Porta do Sol tres focos de luz electrica conservavam uma claridade metallica, prateada. A transição da noite para a aurora não se sentiria, se o sol não parecesse pallido, um sol de noivado, alegremente desbotado e malicioso, a todos os que ainda tinham os olhos habituados aos esplendores das fontes luminosas do Prado.
No dia seguinte, 24 de janeiro, cantou-se na capella real de Santo Izidro o Te-Deum que as auctoridades de Madrid e a deputação provincial tinham resolvido mandar celebrar. Este acto religioso fez despertar a côrte, recomeçar o movimento das carruagens brasonadas. O rei e a rainha faltaram a esta festa, demasiadamente matutina, mas appareceram, radiantes de felicidade, na sala do throno, á hora da recepção: o rei vestido de capitão-general, com as suas gran-cruzes traçadas sobre o peito, a rainha em costume de côrte, de côr de rosa, que é a côr predilecta das noivas.{69}
Na tarde d'esse dia, Luiz Godard, areonauta por hereditariedade, realisou no campo de Móro, em frente do Palacio Real, a ascenção de um enorme balão, que media setecentos metros, e que se elevou desdobrando as alegres côres hespanholas no seu monstruoso bojo de seda.
Na tarde do dia seguinte, uma festa verdadeiramente hespanhola despertára o mais vivo enthusiasmo. Dezeseis mil espectadores affluiram á tourada em que um grupo de moços fidalgos, e outro grupo dos mais famosos espadas de Hespanha, Frascuelo, Angelo Pastor, Gayetano Sanz, realisaram proezas de ousadia tauromachica.
O rei e a rainha, depois de haverem recebido vinte e cinco pares de noivos, que se tinham casado no mesmo dia em que o rei casou, e que vestiam o trajo pittoresco das provincias a que pertenciam, deram entrada na tribuna real da Praça dos Touros, radiantes de uma franca alegria juvenil, cheia de scintillaçoes e de sorrisos.
Então começou a festa, deslumbrante de grandeza, de magestade. Rodaram na arena os grandes carros que conduziam os toureiros amadores, acompanhados pelos seus patronos, grandes de Hespanha. Depois entraram os espadas, impávidos,{70} esculpturaes, preparados para a lucta; os bandarilheiros, traçadas as capas de côres vivas sobre o braço direito; por ultimo os arautos vestidos á Henrique III, e o carro de morte, a tumba, tirada por cavallos que sacudiam cocáres multicores, e fitas variegadas.
Estava alli a Hespanha, nobremente selvagem, a Hespanha que oppõe Tarifa a Tanger e Algeziras a Ceuta, a Hespanha que por sobre o estreito estende um braço para a Africa, como para receber de lá o que quer que seja de rude; esta grande e bella Hespanha que se diverte applaudindo um espectaculo de sangue, como se no sangue ainda quente visse apenas, não a morte, mas a força, a vida dos que morrem pelejando, combatendo; esta ardente e incomprehensivel Hespanha que n'esse mesmo dia, como sempre, passou d'esta festa de morte, do circo romano para o theatro da Opera, da tempestade para a bonança, de Frascuelo e de Pastor, para Chapi, a musica, e para Borghi-Mamo, o canto, da tourada, uma carnificina, para Roger di Flor, uma partitura.
O Theatro Real, n'essa noite em que se cantou o Roger di Flor, tinha um aspecto de grandeza oriental, porque uma facha de diamantes, que scintillavam sobre{71} o peito das damas da côrte, formava um circulo de luz verdadeiramente deslumbrante, phantastico.
No dia seguinte, concerto no theatro Apollo; no dia 27, revista militar em que trinta mil homens tomaram parte; depois... um diluvio de festas ruidosas, soberbas, e, no futuro—quem sabe?—talvez uma sombra, uma grande dôr, o reverso d'este quadro maravilhoso...{72}
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