ELLA

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III
ELLA

A princeza Maria de las Mercedes, filha do duque de Montpensier, Antonio de Orleans, e da infanta hespanhola Maria Luiza, irmã de Izabel II, realisava, pelo nascimento, uma seductora consubstanciação, o enlace de duas fascinações. Por seu pae, francesa, por sua mãe, hespanhola, ella reunia em si as duas nacionalidades que maior relevo dão aos encantos femininos. Juntai a graça francesa ao salero hespanhol, a alegria da França á vivacidade da Hespanha, juntai Pariz a Madrid, e tereis uma figura encantadora: Mercedes.

Ide aos parterres das Tulherias, que foi um jardim de principes, colhei uma rosa d'aquellas com que outr'ora a imperatriz{26} Eugenia enflorava os seus bellos cabellos, e deponde-a sobre uma fina jarra de Triana n'um palacio de Sevilha: havereis conseguido copiar a graciosa individualidade de Mercedes.

A França e a Hespanha começaram a disputar, á beira do berço da princeza, o direito de lhe conceder dons. Dou-lhe um raio de sol para os cabellos, disse a França. E eu os reflexos sombrios do azeviche, accrescentou a Hespanha. E da reunião d'estas duas dadivas nasceu a côr das tranças castanho-claras de Mercedes. Tratou-se de colorir-lhe as faces. Que façam inveja á perola, disse a França. Sim, mas os olhos pertencem-me, replicou a Hespanha; eu quero que os olhos sejam hespanhoes. Faces côr de mate; os olhos como os de Affonso, côr de noz. Era preciso animar a bella estatua. A França chamou Pariz, e disse-lhe: Derrama sobre o corpo d'essa gentil princeza as ondas d'esse fluido mysterioso a que em toda a parte se chama—a graça pariziense. A Hespanha chamou Madrid e disse-lhe: Temos n'uma só mulher uma princeza e uma hespanhola; extrae a mais fina essencia do teu salero e concede-lh'a. Animada a formosa esculptura, disse a França: Pertence-me; é neta de um rei francez. Perdão, contestou a Hespanha, é neta de um rei hespanhol.{27}

Quanto a educação, Mercedes havia sido creada como seu primo: no meio da sociedade. Os habitos democraticos de Luiz Filippe fizeram impressão em França; o rei quiz que seus filhos frequentassem as escholas publicas. D. Antonio de Orleans seguiu, n'este ponto, a tradição paterna. Como seu primo, Mercedes foi uma simples collegial. Usava, como as outras creanças, chapéu de palha com grandes abas, vestidos curtos, botinas sem saltos. Como as suas condiscipulas, associava-se ás pequenas rebelliões de classe; como as outras, soffria castigos, os enormes castigos femininos, passeiar meia hora n'um corredor, para que quem passasse a visse... Tambem como as outras, ou talvez mais do que as outras, brincava no recreio. Faltava ás suas companheiras a vivacidade hespanhola que a animava a ella, a pujança com que annos depois havia de fatigar ao crocket um dos mais destros jogadores, o duque de Baños. N'outra coisa se distinguia ainda: tratavam-n'a por madame. Achou a superintendente do collegio que seria desarrasoado chamar menina a uma princeza, e princeza a uma menina. Cortou-se o nó gordio dando-lhe um tratamento que representasse uma certa superioridade moral: madame. Os quatorze annos da princesa, que os{28} tinha então, riam-se alegremente por entre as velhas arvores da cerca, quando ouviam gritar: Madame!

Mas o que é certo é que madame atravessando o collegio, como o principe das Asturias, adquiriu o conhecimento pratico da sociedade, aprendeu principalmente o valor que teem as lagrimas, porque as chorou nas horas de correcção ou de saudade pela sua familia, em particular por seu primo, e porque as viu chorar em circumstancias identicas. Ora uma boa rainha, para que não deixe de amparar os desgraçados, precisa de saber quanto custa o chorar. Tambem o collegio lhe deu por ventura uma exacta comprehensão do amor. Quasi todas as collegiaes tinham um primo ausente, idealisado pela saudade da terra natal e do tecto paterno; um companheiro de jogos infantis, um Paulo que, por sua vez, pensava áquella mesma hora em Virginia... Por elle choravam, fallavam d'elle baixinho, umas com outras. N'essas horas de intimidade desapparecia a madame. «Ó Mercedes, tu tambem tens um primo da tua idade...» «Tenho». E córava, e sorria.

Era o principe das Asturias.

De repente apparecia a preceptora. Então as dissimuladas confidentes modificavam-se: Madame d'aqui; madame d'alli.{29}

E a gentil madame de vestidos curtos afugentava com uma alegre risada sonora a lembrança saudosa do nobre priminho, e agitava os seus pequenos braços para suster na queda uma folha solta que vinha descendo do arvoredo, ou para cortar o vôo a uma borboleta iriada.

Quando o duque de Montpensier residiu em Lisboa, Mercedes, com suas irmãs, continuou a viver na sociedade, que era a primeira de Portugal, a gozar, no meio das regalias fidalgas, a desoppressão das etiquetas cortezãs. Ao mesmo tempo ia estudando o mundo atravez da sua ventarola sevilhana. E quem sabe? quem sabe se este céo de Portugal, este bello céo que é naturalmente quem nos faz amorosos, tão amorosos que até no extrangeiro temos fama de o ser, quem sabe se elle não emprestou para os idyllios de Mercedes os seus reflexos azues e as suas aureas radiações, se elle não contribuiu para divinisar na alma da gentil princesazinha a imagem adorada de seu primo?!{30}


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