ELLE

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II
ELLE

O rei de Hespanha faz lembrar estas plantas mimosas que, nascendo no topo de um outeiro batido dos ventos, se tornam fortes. Creado nos regalos da côrte, educado sob a influencia da tradição religiosa do seu paiz, parecia unicamente destinado a ser algum dia um simples rei catholico e constitucional, como os seus antecessores. Como elles, seguindo as praxes da primogenitura, depôz o seu vestido branco no altar da Virgem da Atocha, e vestiu um uniforme militar para cumprir o velho estylo tradicional, que, desde os primeiros annos da existencia, rouba toda a originalidade, annulla todas as disposições naturaes aos principes destinados ao throno.{18}

O sentimento poetico, que tanto dulcifica os costumes, e que prepara a alma para a concepção do bello, bebeu-o certamente com o leite da robusta camponeza das Asturias, a quem a sua amamentação foi confiada. Mas esse germen de poesia, tão necessario á alma de todos os homens, especialmente de um rei, devia aniquilar-se na atmosphera dos paços reaes, na temperatura abafadiça das pragmaticas anachronicas, longe do espectaculo da natureza, e das grandes correntes do pensamento humano. Um rei, como uma flôr muito resguardada, é um producto meio artificial, por um vicio de educação, que já seria tempo de banir. Faltam-lhe as commoções profundas, as eloquentes lições da sociedade, a aprendizagem casual que robustece o espirito e o torna apto para a lucta. Recebe a instrucção como recebe a luz, o sol, e o ar: em pequenas doses regradas, systematicamente, para que o não molestem. Podia ser um bello espirito, mas a tradição faz d'elle um espirito vulgar. É pouco mais ou menos como seu pai; seu filho será como elle.

Mas ao rei Affonso estavam reservados acontecimentos que deviam modificar completamente a acção enervadora da educação palaciana. Passou os primeiros annos da vida no exilio, para onde a revolução{19} arrojou sua mãe. Não viajou como um principe, como o futuro rei de Hespanha, sob as vistas de aulicos vigilantes e aduladores. Era então um simples particular, uma creança que podia vêr e ouvir, mediar e fallar, viver, n'uma palavra. Passando de paiz em paiz, esteve n'um collegio de França, depois n'outro de Vienna, por ultimo no de Sandhurst, em Inglaterra. Tratou de perto, deixem-me assim dizer, muitas ideias differentes, porque é forçoso convir em que as ideias da França não são precisamente como as da Austria, e as da Austria justamente como as da Inglaterra. A natureza, variando de contornos de paiz para paiz, varia tambem a sua lição. As creanças, que são, no fundo, a mais completa manifestação da natureza, porque são a natureza n'um estado de puresa immaculada, como que impregnam quem as conversa do espirito das nacionalidades que representam, sobretudo se quem as conversa é igualmente creança, porque n'esse caso a sua alma recebe profundamente as impressões, que ficam gravadas como caracteres alphabeticos sobre uma camada de cera. Ora o moço Affonso, em qualquer dos tres collegios, viveu sempre entre creanças, que não só representavam ideias differentes, mas tambem genios e classes differentes. Magnifica lição para qualquer{20} principe que tivesse de occupar um throno! Ao pé do alumno fidalgo, o alumno burguez: ao pé do pergaminho, a riquesa; o alumno estudioso ao pé do alumno madraço: a força ao pé da inercia; o alumno intelligente ao pé do alumno estupido: a gloria ao pé da indifferença. Cada classe e cada genio equivalia a uma nova lição, porque, por mais estupida que seja uma creança, ella sabe sempre encontrar argumentos para desculpar o estado do seu espirito. «Não sou eu que não aprendo; é o professor que ensina mal; são os livros que não prestam.» O joven filho da rainha exilada habituou-se, portanto, a conhecer as individualidades atravez de todos os veus. Estudou os homens nos homens, o que é muito differente de estudal-os nos cortezãos, que são uma contrafacção. Não aprendeu exclusivamente para rei; aprendeu a sciencia da vida, praticamente, como se fosse um simples vassallo, porque o throno era para elle uma coisa muito incerta...

Foi assim que os vendavaes do exilio fortaleceram a planta mimosa. O que nascêra principe fizera-se homem. Teve, portanto, razão o duque de Miranda, quando photographou Affonso XII com uma simples phrase: É um homem.

O maior elogio dos reis está precisamente em serem homens. Assim pensava{21} uma antiga rainha de Castella, quando, fallando de D. João II de Portugal, dizia que elle havia sido um homem. E foi.

Mais do que qualquer outro throno da Europa, o de Hespanha precisa de reis que sejam homens. Ser rei em Hespanha é luctar. A historia falla eloquentemente. Carlos IV morreu no exilio; Fernando VII atravessa vinte annos de revolução; Izabel II é ainda hoje uma illustre exilada; Amadeu I deve conservar, como a vaga lembrança de um sonho, a ideia de ter reinado em Hespanha. N'esta serie de reis falta ainda uma nodoa de sangue entre Carlos IV e Fernando VII: É José Bonaparte. O herdeiro de tão revolta monarchia precisava ser um espirito forte, um homem perseverante, energico, mesmo audacioso. «Io no soy de los reyes que se van. De muerte natural ó violenta moriré sobre el trono.» Estas palavras de Affonso XII dão a medida da justa comprehensão que elle tem do seu dever. Cesar morreu em pleno senado; Molière agonisou sobre o palco. Cada um no seu logar. A vida é uma batalha; cada soldado no seu posto.

Quando Affonso XII entrou em Hespanha para reinar, tinha aproximadamente vinte annos. Veio por mar, entregue aos caprichos da onda, porque um rei, desde{22} que principia a sel-o, precisa de se entregar cegamente ao destino. Mas, logo que desembarcou em solo hespanhol para tomar o caminho de ferro de Madrid, em vez de uma chuva de flôres, esperava-o uma chuva de balas. O desespero carlista queria enviar a D. Affonso XII uma saudação de morte. Mas o rei passou impunemente, e o carlismo continuou a debater-se nas vascas da agonia. Era uma serpente que se revolvia entre chammas.

Então a Hespanha viu sobre o throno um rei profundamente hespanhol—no animo e na physionomia. Um dextro torero, um valente caçador, um cavalleiro eximio. Figura esbelta, salerosa, rosto moreno, cabellos pretos, bocca expressiva, dentes alvissimos. Um adolescente de serenata, um trovador de vinte annos sobre um throno de seculos.

Para completar o typo peninsular, um coração amante. Toda a vida de um hespanhol está no amor ou no ciume. O rei amava. Facto verdadeiramente extraordinario e ousado: um rei amar! Para um principe de vinte annos, uma princeza de dezesete. Mercedes, sua prima, era uma creança idealisada pela formosura. O rei amava-a em segredo, com um culto sagrado. Adorava-a.{23}