MORTA!
{99}
XII
MORTA!
Foi demorada, longa, a agonia da rainha. Os laços que a prendiam ao mundo eram tão recentes, que foi preciso um grande esforço da morte para os fazer estalar. Alem do que, não se vence facilmente o combate travado com um exercito de affectos. O amor defende-se até á ultima barricada. E os duques de Montpensier, que eram paes, estavam alli, á beira do leito, firmes como sentinellas vigilantes; e D. Affonso XII, que era esposo, estava alli tambem, immobilisado na estupefacção das grandes dôres, tendo a mão direita poisada sobre a fronte da moribunda. As irmãs do rei e da rainha faziam{100} das suas lagrimas uma como ultima defeza. Quadro verdadeiramente grandiosa em sua melancolica e commovente sublimidade!
Alvoreceu no céo de Hespanha a manhã do dia 26 de junho. Estava escripto no livro dos destinos humanos, que fosse aquelle o ultimo dia da rainha. Poucas horas poderia viver ainda, segundo o prognostico dos medicos. Então o amor teve de se confessar vencido perante a morte. A esperança na sciencia fugiu; veio substituil-a a esperança na misericordia de Deus.
A familia real orava de joelhos, n'um recolhimento profundo, solemne. Só o rei não podia orar: a dôr paralysara-lhe a intelligencia e embargára-lhe a voz. Conservou-se de pé, pallido e firme como uma estatua, junto ao leito da rainha. Não houve pedidos, instancias, que conseguissem arrancal-o d'alli. Dir-se-hia que o rei desejava que a morte, ao vibrar o golpe decisivo, se enganasse na victima, e o prostrasse a elle...
Entretanto a manhã ia seguindo o seu curso, se bem que no interior do palacio real a manhã d'aquelle dia não fosse mais do que a continuação de uma noite de horrores.
No vestibulo e nas galerias, enxameava{101} silenciosamente um enorme concurso de pessoas, que desejavam informar-se do estado da rainha. E as que alli faltavam, tinham sido attrahidas aos templos pela voz plangente dos campanarios.
Aproximou-se o meio dia, e a vida da rainha declinava rapidamente. Mais um quarto de hora passado, e a rainha expirou. Então o rei pareceu acordar de subito, agitado por uma commoção horrivel. Poisou na fronte pallida de Mercedes o derradeiro beijo, e tirou-lhe do dedo, com uma verdadeira delicadeza de noivo, o annel nupcial, que para sempre o ligará áquelle formoso cadaver.
Todas as pessoas da côrte o rodeiaram, e piedoramente o obrigaram a sahir d'alli. O rei deixou-se ir, como um authomato. Entrando nos seus aposentos, mandou chamar o presidente do conselho de ministros, com quem se demorou conferenciando largamente.
A esse tempo, o canhão annunciava á capital das Hespanhas que a rainha Maria de las Mercedes era um cadaver.
O telegrapho communicava para França, á avó e aos paes do rei, a triste noticia: «Roga a Deus pela alma da minha Mercedes, que está no céo. Teu afflictissimo, Affonso».
Depois de conferenciar com Canovas{102} del Castillo, o rei quizera ficar só; as pessoas que de perto o vigiavam ouviam-n'o dizer: «Pobre Mercedes! que rapida felicidade foi a nossa!»
Era ainda um dialogo com a rainha atravez do invisivel; as duas almas viam-se e fallavam-se, tão distantes uma da outra!
O cadaver da rainha permaneceu na mesma camara em que ella tinha expirado: alli havia nascido o rei Affonso, vinte annos antes. Amortalharam-n'a com o habito de Nossa Senhora das Mercês, como pedira. Para o triste noivado da sepultura não quiz a rainha outras galas. As damas de honor fizeram guarda ao cadaver, durante a tarde e a noite. Eram as mesmas que a tinham acompanhado á bazilica da Atocha, no dia do casamento. Dir-se-ia que o cortejo das nobres damas só tivera tempo de mudar de vestido, e que n'um instante se haviam transmudado em lagrimas de luto as rosas do noivado.
Como que obedecendo a uma horrivel sina de familia, a rainha Maria de las Mercedes alli estava adormecida no somno eterno, ella, a formosa; sua irmã, a infanta D. Amalia, morrera em 1870, de enfermidade analoga, e seu irmão, o infante D. Fernando, baloiçado sobre o tumulo{103} por igual motivo, fallecera um anno depois. Um vendaval de morte parece esperar que a vida dos principes da casa de Montpensier seja chegada á efflorescencia da mocidade para os revessar impiedosamente ao mysterio da sepultura.
Ás duas horas e meia da tarde d'esse mesmo dia, reuniu o congresso hespanhol na sala das suas sessões, sob a presidencia do snr. Ayala, que, depois de lida a communicação da morte da rainha, por um dos secretários, historiou á camara, com as mais encantadoras tintas que a saudade sabe temperar, e como testimunha presencial, os pungentes episodios do passamento de Mercedes. O congresso escutou-o n'um silencio profundo, religioso.
A dôr que essa narração produziu em todos os animos conseguiu adormecer todas as paixões politicas. A identidade do sentimento irmanára os partidos n'essa hora dolorosa. O congresso, nomeando uma commissão que fosse apresentar á familia real a expressão da magua que essa perda irreparavel lhe causára, e resolvendo suspender os seus trabalhos, não fez mais do que interpretar a dôr profunda que salteára o coração da Hespanha.
O senado, que reuniu pouco depois, tomára identicas resoluções.
Á beira do leito funerario d'aquelle cadaver{104} illustre não havia outros murmurios que não fossem os das orações ciciadas por todos os labios. O gigante da eloquencia parlamentar inclinára a fronte em lacrimosa mudez. A politica embainhára as armas de combate, e principiára a tecer a capella de rosas brancas que costuma engrinaldar a cabeça das noivas mortas. O throno de S. Fernando cobria-se de longos crepes. E sobre essa montanha de lucto, que a Hespanha inteira contemplava, elle, o moço rei, na solidão moral da sua dôr, seguia ainda com a vista embaciada de lagrimas a via lactea da saudade que a rainha, ao voar para regiões ignotas, deixára semeada de estrellas, como um traço luminoso das suas azas. Dil-o-ieis um velho chorando sobre ruinas. Ruinas do coração, que são as mais tristes de todas ellas.{105}