AGONISANDO
{91}
XI
AGONISANDO
Era entrado o estio. Os grandes calores iam queimar as ultimas flôres que estrellavam os campos. Uma febre terrível prostrára effectivamente a formosa rainha de Hespanha. Nem as flôres do throno escapavam ao ardor da sazão.
A Europa ficou dolorosamente surprehendida, alvoroçada com essa triste noticia. Quando a vida de uma noiva corre perigo, parece que sente a gente a oppressão de um dia de inverno em plena manhã de primavera. E essa noiva era ao mesmo tempo uma rainha: tinha o triplice prestigio da sua posição, da sua formosura e da sua virtude. Pertenciam-lhe tres corôas:{92} uma de ouro, porque era rainha; outra de larangeiras, porque era noiva; a ultima de rosas, porque era bella. Profanar tres corôas de uma só vez, affigurava-se uma impiedade, um crime. A enfermidade que prostrou a rainha Mercedes pareceu desde logo um attentado da natureza contra a natureza, um facto horrivelmente extraordinario.
No dia 24 de junho, porém, dia de festa para os povos da peninsula, a rainha sentiu-se mais alliviada por noite dentro. Supposeram os medicos vêr chegar um periodo de reacção favoravel. Pareceu que a natureza havia comprehendido que não podiam os reis chorar nos dias assignalados ás festas do povo.
Deslisou tranquilla a noite, e sobre a manhã pôde a rainha ser transportada, nos braços dos que mais amava, para outro leito. Rodeiavam a doente o rei, os duques de Montpensier, a princeza das Asturias, a infanta Christina, a marqueza de Santa Cruz. Parece que os doentes querem fugir á morte mudando de leito. O rei comprehendeu o que se passava n'aquella alma gentil. Luctando pela vida, a rainha pensava mais nos outros do que em si. Queria salval-os, sabia quão fundo pungiria no coração da familia real a dôr de a vêr morrer.{93}
Quando o corpo da rainha pendeu alquebrado sobre os braços de Affonso XII, quizera o rei ser mais forte do que nunca. Não pôde. As lagrimas brotaram em torrente. A rainha viu-as, e disse: Vamos, Alfonso, no llores ó me enfadaré. Singular coragem do amor! O fraco tornara-se forte.
A doença do corpo e do espirito sopitára a rainha, que adormeceu serenamente. Sobre o seu bello corpo adormecido pairou o sorriso de uma esperança. Então alguns dos seus nobres enfermeiros foram descançar; ficaram outros, de atalaya ao leito, seguindo com a vista o menor movimento da physionomia, a menor alteração do semblante. Eram o marido e a mãe. Não podia haver no mundo mais dedicados enfermeiros.
Um correspondente de Madrid, dando noticia do doloroso alvoroço que ía na camara da rainha, dizia: «Os aposentos contiguos pareciam um acampamento: a princeza das Asturias descançava no quarto de toilette da rainha, o duque de Montpensier no salão carmezim, o cardeal Moreno no salão amarello, o patriarcha das Indias no gabinete azul; e as pessoas do serviço da côrte descançavam por differentes salas em fauteils e divans.»
Verdadeiro acampamento assestado contra{94} a invasão da morte. Ao menor gemido, despertavam os defensores d'aquella vida preciosa. A batalha era de lagrimas e orações. Combatia-se pedindo; luctava-se chorando.
Começou a declinar a tarde, e o estado da rainha pareceu tornar-se grave. Correu no acampamento a voz de alarme. Acudiu cada soldado ao seu posto. A gravidade dos symptomas denunciou que era aquella uma lucta a todo o transe. A cada passo que a morte dava para o leito oppunha-se-lhe uma barreira de lagrimas, uma muralha de orações.
Um raio de sol poente doirava a camara real, animava muito a furto o perfil das estatuetas, e dos retratos. Affigurava-se que tudo tinha olhos para vêr, mas com um olhar nublado, afogado em lagrimas. Uma photographia de Mercedes, voltada para o leito, parecia chorar a sorte d'aquella noiva desventurosa, tão outra, tão demudada, que se não conhecia a si propria...
Era aquelle o dia de S. João, o dia das trovas, dos risos, dos vaticinios amorosos. Esse raio de sol era, portanto, como que um pensamento de amor que penetrava a medo na camara de uma noiva moribunda.
Como se a morte estivesse esperando pela noite para atacar melhor, o estado da rainha peiorava á medida que as horas passavam.{95} Vem, combatente traiçoeiro, pela calada da noite, pé ante pé, imprime o teu beijo de gelo na fronte de uma pobre mulher, que tu prostraste no leito. Fere, mata, sê impiedosa á vontade, mas sabe que não entras despercebida, ó morte. Ha muitos olhos a espionarem-te nas trevas, muitos corações a adivinharem-te no silencio. O leão de Florença foi mais clemente do que tu: mostraram-lhe uma creança, e deteve-se. Aqui tens tambem uma creança, dezoito annos apenas, e não páras, e não te movem orações, e não te entristecem as lagrimas!
Nos botiquins, cheios de gente até hora muito avançada da noite, porque a anciedade era geral, a noticia de que o perigo augmentára, deixára todos assombrados. Um povo essencialmente poeta, como o de Hespanha, não póde vêr morrer uma noiva com olhos enxutos. Madrid chorava áquella hora.
No palacio real, emquanto o conselho de ministros reunia para deliberar em tão grave conjunctura, o patriarcha das Indias ministrava a santa uncção á moribunda, e, fallando-lhe de Deus, perguntava-lhe se lhe custava morrer: Si, por Alfonso e por mis queridos padres, respondia a rainha. E havia apenas cinco mezes que aquella mesma voz solemne saudava a noiva, e na noiva{96} a rainha, na grande bazilica da Atocha, cheia de flôres, de canticos, de scintillações...
A hora extrema pareceu chegada. Os medicos desalentaram. D. Affonso participava pelo telegrapho a seus pais que a vida da rainha se julgava perdida; os duques de Montpensier faziam igual participação aos condes de Paris.
A doente parecia querer luctar contra a escuridão que lhe obumbrava o cerebro. Aproveitava os raros instantes de lucidez para achegar a si a cabeça do rei, para lhe beijar a mão.
E todavia já não podia fallar.{97}