NOIVANDO
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X
NOIVANDO
No mais profundo da floresta architectam as avesinhas o seu palacio de amor: afofam-n'o de plumas soltas, e de folhas verdes. Escondem-se assim das vistas curiosas, e celebram na profundesa do bosque o idyllio da sua felicidade.
Em deredor ouve-se ás vezes um cantico, uma nota perdida; é uma phrase, uma estrophe do poema do noivado. Por esse som, que o vento vai levando de arvore em arvore, comprehende-se a sublimidade do mysterio que se occulta dentro de quatro musgos entretecidos em abobada.
Tambem o palacio dos reis de Hespanha se convertera em ninho de amorosos{84} segredos. Alli se escondia o par venturoso, alli vivia no remanso da sua felicidade
De dia em pensamentos que voavam,
De noite em dôces sônhos que mentiam.
Á volta d'esse éden de alegrias nupciaes ondejava Madrid, a inquieta. Rumorejavam os cafés, projectando sobre as ruas a sua viva claridade provocante; estrondeava nos theatros, em explosões de enthusiasmo, a ardente sensibilidade peninsular, agitada pelas fundas commoções dramaticas, quando a alegre vivacidade hespanhola não se desatava nas francas gargalhadas e nos ruidosos applausos de uma comedia, temperada com o sal malicioso da Hespanha. Nos circulos politicos discutia-se, apostrophava-se, e envolvia-se no fumo azulado de um bom havano uma theoria administrativa ou uma questão financeira. No Prado rodavam as carruagens da velha nobreza, corcoveteavam os finos cavallos andaluzes, sob o acicate dos nobres cavalleiros. A manola passava agitando o mundo com a sua ventarola travessa, a mocidade com o seu olhar magnetico. Canovas del Castillo discursava brilhantemente no parlamento; Campoamor sonhava doloras{85} encantadoras; Peres Escrich projectava romances tão desejados pelos editores como pelo publico; Echegaray planeava talvez um bello drama: a Hespanha, especialmente Madrid, respirava o seu ar subtil, como diz a canção, e espanejava-se sob o seu formoso sol resplendente.
No paço real, os noivos gorgeiavam as suas dôces confidencias. A primeira familia das Hespanhas vivia na concentração das familias obscuras e ditosas. Na camara nupcial, o grupo de bronze, que se osculava, lia no livro do amor, a cada hora que o relogio marcava, aquella deliciosa phrase cheia de promessas: Para sempre. As flôres do dia das nupcias estavam frescas, rescendentes, quasi orvalhadas: se esse dia ainda estava a tão pequena distancia! De vez em quando, como um reflexo d'esse sanctuario de luz, partia do palacio real um sorriso da caridade, que enchia de reconhecidas lagrimas os olhos da pobreza. Começára a primavera, que é em toda a parte alegria. A formosura das noites augmenta a felicidade como um microscopio feito de luar. Por noites embalsamadas e serenas, os mais receiosos do futuro devaneiam sonhos de vaga, de incomprehensivel esperança; que fará quem já se sente feliz, quem já está no alto, e póde, por isso, vêr melhor o céo!...{86}
Se D. Affonso XII não fôra um rei, mas simplesmente um hespanhol, divagaria ao luar pelas ruas de Madrid, Mercedes ao lado, os braços enlaçados; procurariam as ruas mais solitarias do Prado, fallariam do futuro, arrulhariam como dois pombos namorados. Madrid vel-os-hia, e elles não veriam Madrid. O rumor da inquieta cidade, que parece accordar á noite, não os incommodaria; porque o amor sabe fazer silencio á volta de si para se ouvir melhor...
Mas, rodeiado das prisões da côrte, impedido, como todos os reis, de ser completamente livre, fechára no seu palacio as suas alegrias. Não era rei senão por amar a Hespanha, que era tudo o que ainda lhe fazia lembrar do mundo. Mercedes, contemplava a sua corôa de larangeiras, e não se lembrava da outra de rainha. Murillo, se resuscitasse, não saberia copiar aquella felicidade tranquilla.
Entretanto a aguia negra, que roçára a sua aza pelo tumulo de Prim, trouxera-a de lá impregnada de uma poeira de morte, que sacudira sobre o palacio real das Hespanhas. Essa poeira, como se fôra uma chuva de fogo, crestára lentamente, invisivelmente as flôres do boudoir de Mercedes. Quem sabe se a pobre rainha, ao vêr languescer a primeira flôr do seu noivado, não{87} lêra nas pétalas desbotadas um vaticinio horrivel! Essa flôr não podia ser por modo algum um symbolo do amor do rei; que esse amor, tão profundo, tão ardente, tão raro, era indubitavelmente do amor que fica quando as flôres emmurchecem. Mas, como sempre, essa pequenina flôr era a imagem da morte: hontem sorrira ella no bouquet nupcial de Mercedes, hontem lançára sobre o vestido roçagante da rainha o reflexo colorido da sua formosa corolla. Hoje derramára no ar a sua alma de aroma, e passára. Porque não seria Mercedes como ella? Flor pela formosura, tambem vivera hontem, hontem principalmente, no templo, ao lado de Affonso, e aos pés de Deus. Essa grande commoção bem sentia a rainha que devia ter consumido uma parte da sua alma; porque as commoções são de fogo, queimam. Portanto, que lhe restava? Deixar-se aniquilar como a flôr. Dar o seu ultimo olhar a Affonso, a sua derradeira lagrima á Hespanha, a sua alma ao céo. Emquanto o amor e a morte se digladiavam n'um duello terrivel, sangrento, talvez Mercedes dissesse comsigo mesma: «Ha cinco mezes que ouvi nas ruas a um pobre trovador popular que me saudava: Vai, rainha, tão bella como a flôr, sua irmã pelas graças da formosura. Se é verdade o que elle disse, que Deus receba{88} a minha alma e proteja Affonso.» Depois, olhando por ventura para o relogio da sua camara, pela primeira vez acharia uma significação horrivel, atroz, n'aquella phrase outr'ora tão doce: Para sempre! Para sempre, a eternidade, a separação completa, o cerrar dos olhos nas trevas do sepulchro, o esfriar do coração para não mais aquecer.
De repente, os jornaes de Hespanha annunciáram que a rainha Maria de las Mercedes havia enfermado gravemente.{89}