Estátuas e comendas

«Decididamente Portugal é um país de ingratos», escrevia-me desolado um estrangeiro que há uns bons vinte anos se esforça por tornar conhecidas no seu país a nossa história e a nossa literatura. Há vinte anos que trabalha por nós, tem 15 volumes publicados sôbre as nossas letras, e ainda não recebeu de Portugal um agradecimento sequer. Sucede até escrever a portugueses, escrever a estações oficiais e não receber resposta. E, desoladamente enumera-me o que outras nações da Europa, por quem êle tem feito menos, lhe teem concedido, comendas, cruzes, medalhas, o demónio.

Não me chegou o homem a perguntar se em Portugal havia fitas, cruzes e comendas. Não perguntou. Eu porêm é que lhe disse que as havia, mas que eram para... os barbeiros. E que não tivesse pena de não ter nenhuma, porque isso em Portugal não valia absolutamente um caracol. Valia tão pouco que era até frequente ver aguadeiros, comendadores, e capatazes da limpeza, grandes-oficiais.

O que êle, na sua ingenuidade de homem do norte, reputava uma honra, era, afinal e sómente, a marca da mediocridade.

Fizeram João de Deus grande-oficial de S. Tiago. Pois bem: João de Deus, para se evadir à honra... morreu. E então S. Tiago, uma cousa que se dá aos sapateiros, um hábito relaxado de todo. Que os outros regulam pela mesma cousa. O da própria Tôrre e Espada já por vezes tem sido recusado e o de Cristo é para os abastados, criados de mesa, moços de esquina e... archeiros da casa real.

Tão desconceituado êle anda, que até o Baptista, o vélho criado do Carlos d’Os Maias, o recusou sob o pretexto de que não havia cão nem gato que o não tivesse.

As comendas em Portugal são a paga dos badalos para sinos, das eleições ganhas, da galopinagem activa, e de muitas outras cousas que se não podem precisar. Guy de Maupassant disse um dia que três cousas em França desonravam um homem: a Academia, as condecoraçõese a Révue des deux mondes. Isto em França onde a Academia é uma cousa de préstimo, e a Révue des deux mondes é a Révue des deux mondes. Que faria se fôsse em Portugal, onde a Academia é um retiro de tatibitates e as condecorações são o que se sabe.

A um caso assisti que me mostrou bem qual a ideia que o povo faz de como elas são adquiridas: Quando nos visitou Afonso de Espanha, sucedeu passar pelo local onde me achava um ilustre desconhecido, cujo peito era couraçado por tôda a sorte de condecorações. Uma se avantajava e impunha o seu destaque, rebrilhante e majestosa. Dois operários conversavam ao meu lado e quando o ilustre passou, um deles, apontando ao outro a venera, explicou-lhe: «¿Vês aquela medalha grande? aquilo abichou-a êle uma ocasião em que tinha que se levantar às dez horas e só acordou ao meio dia». E estava certo.

Ora eis aqui a razão por que o estrangeiro, com os seus anos de trabalho e os seus livros publicados, não apanhou ainda nem uma sêde de água.


Outra das grandes pragas nacionais é a das estátuas.

Fervilham as condecorações, a ponto de se confundirem com a placa dos moços de esquina. Não há cidadão que não possua o seu habitozinho, dado quási sempre em recompensa do trabalho que teve para o conseguir. Alguns, os coleccionadores, tem-nos às dezenas, de tôdas as qualidades, de todos os feitios, de tôdas as ordens, desde a ordem da Pontinha de oiro, fundada por João Lourenço da Cunha até... à Ordem Terceira, ou qualquer outra ordem que quiserem.

As estátuas são como as urtigas. Rebentam por tôda a parte e são quási tôdas iguais, para não escangalharem a simetria da sala. Não há em Lisboa jardim que não possua estas três cousas indispensáveis a um passeio que se preza: Um water-closet, um marco fontanário e uma estátua.

Quási tôdas elas teem o ar dum castiçal e há de todos os tamanhos e para todos os paladares. Desde a minúscula do Largo da Biblioteca até à de Belêm, onde Afonso de Albuquerque boceja de tédio ao ouvir dizer à volta de si que Baptista Diniz é o maior dramaturgo português.

Há bem pouco tempo que um silfo bom obstou à perpetração dum dêstes crimes. Erguerem uma estátua ao maior, ao mais glorioso e ao mais desgraçado dos romancistas portugueses, Camilo Castelo Branco, como se êle fôsse aí qualquer burguês enriquecido ou qualquer director geral. Chegou-se a armar uma comissão, que não levou os seus trabalhos avante por se ter levantado grande controvérsia sôbre se Camilo foi ou não escritor célebre que floresceu no século XIX. E até o dr. Libório de Meireles fêz um discurso, verdade seja que plagiado quási todo ao sr. Aires de Gouveia, tendente a provar irrefutávelmente que não foi Camilo o autor dos Lusíadas, ideia assente no espírito do seu colega na comissão, sr. António José da Silva. Como ninguêm se entendesse, porque todos tinham uma ideia muito remota de quem fôra o escritor, de que nenhum deles conhecia escritos, as sessões, que pareciam ou uma tourada de curiosos ou uma sessão da Academia Real das Sciências, não se repetiram e deixaram felizmente em paz o romancista.

O crime não se consumou e foi melhor. As estátuas não nobilitam ninguêm e não servem senão para vertedouro dos cães. O honroso é não ter estátua. E tão difícil é hoje encontrar um homem que não tenha a sua condecoração ou a sua estátuazinha, pelo menos em projecto, que Diógenes, se voltasse a êste mundo à procura dêsse mortal, «apagava a lanterna como cousa inútil» e voltaria pelo mesmo caminho sem o ter encontrado.

Camilo não necessita de estátua. A sua maior glória é não a ter. Os estrangeiros perguntarão por ela como outrora pela de Catão, que não teve estátua no Capitólio.

¿Quere a comissão um conselho? A comissão não sabe quem fôsse Camilo, mas sabe de-certo quem foi o Palma Cavalão. Pois bem. Assembléem outra vez e botem estátua ao Palma Cavalão. Êsse sim. Êsse é que precisa dela e grande crime é ainda não a ter. Pois compreende-se lá que nesta terra de Palmas Cavalões, Palma Cavalão não tenha uma estátua ou ao menos uma rua, uma avenida, um beco, uma travessa com o seu nome!

Palma Cavalão é um símbolo; Palma Cavalão assim chamado para se distinguir dêsse outro benemérito Palma Cavalinho, é uma instituição nacional.

Quem o não conhece?! Palma Cavalão, director da Corneta do Diabo, o que fazia o High-Life na Verdade, ainda não ter estátua! Aqui está uma cousa que não se compreende.

Dir-me-hão que êle não escreveu uma obra, que não escreveu livros. De acôrdo. Mas tinha lógica! «Lisboa está caríssima, e a literatura neste desgraçado país...» Não tinha Livros? Mas esta frase, meninos?! Que filosofia! A filosofia dos Palmas Cavalões!!

Depois, ¿o que é preciso para ter uma estátua? Sim, o que é? Damaso, o nosso distintíssimo sportman Damaso Salcede, só o acusou dêle ter «pedido o relójio ao Zeferino para figurar num baptizado e pô-lo no prego!...», e isso numa hora de indignação. Para estátua bem sei que é pouco, mas lembrem-se de que Palma Cavalão foi tôda a sua vida um tímido, e isto, aqui à puridade, é porque o Zeferino lhe não emprestou tambêm a corrente.

Aqui está uma criatura que, a-pesar de todos os paradoxos, merece monumento na praça pública.

A comissão do monumento a Camilo que olhe para isto, e pense maduramente nesta pretendença. Deixem lá o outro. Palma Cavalão é afinal quem a merece. A comissão que envide todos os seus bons esforços e levante uma estátua ao «malogrado jornalista». Se a comissão não souber quando ele floresceu, consulte Os Maias. Se, ao lê-los, se não sentir tocada e não levantar o castiçal em nome da «pátria reconhecida» então, decididamente, é que isto é um país de idiotas e de refinadíssimos ingratos.