A Deliciosa Mentira
Tomando uma pitada de simonte, e sacando do bôlso o lençolesco e portuguesíssimo tabaqueiro de Alcobaça, ao ser-lhe perguntado qual era optável, se uma mentira deliciosa, se uma terrivel e forte verdade, o padre engatilhou logo o seu eterno e favorito: Distinguo. Explicou; e, como a mentira deliciosa era o Amor, perguntaram-lhe após o que faria se se visse perseguido por uma mulher bonita. Esteve o tonsurado um momento suspenso e ardilosamente se esquivou, citando, entre outra pitada e uma fungadela, a resposta de S. Tomaz d’Aquino: «o que eu devia fazer, sei: mas o que eu faria, só Deus o sabe».
Isto se passou em tempo de frades, porque tambêm os frades amaram. O amor é vélho como a maldade e forte como aí qualquer teia de aranha. Não resconstituo o sítio. O leitor, compulsando a História de S. Domingos, o fantasiará à sua vontade. É até mais bonito. Não pictorizo a indumentária, nem com enxundiosas côres me permito ressuscitar as figuras. Basta de patranhosa inventiva. Só no recontar da história pus, como o leitor vê, uma discreta referência ao lenço de Alcobaça—reclame úrgico à indústria nacional em crise.
Creio que, depois, a conversa se generalizou. E, como a sabatina ameaçasse eternizar-se, logo um frei noviço propoz, para desempate, que se consultasse os mestres.
O frade, pitadeando gravemente, aduziu razões, carretou argumentos, fulminou sabenças e confundiu os adversários. Santo Agostinho, S. Isto, S. Aquilo, foram chamados a capítulo e até basta cópia de autores gentílicos vieram provar ser o Amor cousa nefanda e temerosa. E, depois de ter aduzido, carretado, fulminado e confundido, o padre resumiu que se guardassem de amar. O amor é o mal e o amar o inferno. Com outra erudita pitada os despediu, e vélhos e novos recolheram às suas celas vencidos, mas não convencidos. Que, não sei se convencido iria tambêm o fradinho cheirador.
Parou a discussão aí por alturas do século passado. Já os controversistas estão feitos em pó—pó caído, diz Vieira—dentro do pó dos seus hábitos. Mas eu, que mais com os mortos vivo do que privo com os vivos, ressuscito o claustro pleno e entro na discussão. Trago tambêm os meus anátemas e argumento com autores modernos. Concordo plenamente com o frade e se venho é porque a turba parece rebelde, e disposta a ceder. Oh! as freiras! O eterno feminino...
Mentira deliciosa, o Amor é a mais mentirosa das mentiras. Anacreonte conta que, uma noite em que se albergaram juntos o Amor e a Morte, ambos armados com suas setas e aljava, de ouro as do Amor, de ferro as da Morte, ao levantar, como ainda fôsse escuro, as aljavas se trocaram.
«Daqui vem que, dali por diante, como o Amor trouxesse as setas da Morte, as suas feridas foram mortais». Considerai pois que as suas feridas são mortais.
¿E vale a pena amar? Não, não vale. O amor não é dêste mundo e isso que vós julgais amor é mera ilusão dos sentidos, fátuo deslumbramento dos olhos, passageiro encanto dos ouvidos. «É quimera, é mentira, é engano, é uma doença da imaginação, e por isso basta para ser tormento», diz Vieira. Eu concluirei que, se o cuidais um paraíso, olhai que tambêm tem um purgatório. E afinal não é sempre senão caminho para o inferno. O amor tem tambêm o seu inferno, e onde há, como no outro, o perpétuo ringir de dentes—stridor dentium—que é, dizem, o ciúme.
Alêm disso, de que vale iludir-vos? «Pinta-se o Amor sempre menino, porque ainda que passe dos sete anos, como o de Jacob, nunca chega à idade de uso de razão. Usar de razão, e amar, são duas cousas que não se juntam». Mas novo ou vélho, ela linda como estátua ideal ou doce como uma carta de amor, nunca o amor vale o afecto que se ponha nele. É um ruim companheiro, o amor. Tira o tempo, gasta o dinheiro, aumenta os cuidados, muda as intenções, inimiza os amigos, semeia ódios, leva a vinganças, muda, transforma, arrasa e nada nos dá. Ainda se alguma cousa de bom deixa, isso não é mais que uma saudade, o cilício da imaginação.
Mas remédio para tamanho mal, perguntarão? Quatro são conhecidos e êsses os disse, púlpito abaixo, o nosso padre António Vieira: o tempo, a ausência, a ingratidão e, sôbre tudo, o mudar de objecto. «Dizem que um amor com outro se paga, e o mais certo é, que um amor com outro se apaga». O tempo o esvaece. Como um perfume, como uma recordação, como uma flor cara, o tempo o faz desaparecer; como na morte, longe da vista, longe do coração, a ausência faz seu efeito, a ingratidão o faz mudar de objecto, e o mudar de objecto apagar de todo. Um amor com outro amor se apaga, lembrai-vos!
De resto, o amor é um aleijão comum, um mal secreto, de que todos se sentem e poucos se queixam. Para ser feliz, não amar é tudo. A vacina do amor é a indiferença. O amor é um mal de raça. Urge combater êsse mal. Abel Botelho diz que o amor actual ou é «hipocrisia, ou cálculo, ou simonia, ou deboche» e disso não vou longe.
Oh! o amor! Padecem disso as crianças e os poetas. Os outros... os outros são os felizes. Vale pois muito mais ser feliz. Irmãos! Rezai pois um pater-noster pelos inocentes, porque não sabem o que é amor, e outro pelos poetas, porque o são. Pater noster...
É o amor adversário perigoso. Não se lhe deve dar combate. Napoleão, o maior capitão do seu tempo, opina, que no «amor a grande vitória é a retirada». Combatê-lo é uma tontaria. Evitai-o, evitai-o sempre. Quem um dia amou um dia foi vencido.
¿Lembram-se da Notre Dame, de Hugo? ¿Lembram-se de Jehan Frollo, o estudante, no assalto à catedral? O estudante foi ao combate carregado de armas. Por véste uma armadura, por defesa uma bésta, uma espada, punhais, um arsenal. Dir-se-ia invencível, não é verdade?
Subiu a escada, entrou na galeria. Quasímodo mal o viu, ocupado como estava em balancear a escada, apinhada de escalantes. Quando se voltou, dum salto achatou-lhe a armadura contra a parede. Tirou-lhe uma por uma as peças da sua casca de ferro; a espada, os punhais, o capacete, a couraça, os braçais. Depois, com uma só mão, agarrou nele pelos pés e volteou-o no abismo. Do cavaleiro de antes viram as turbas um cadáver, quebrado em dois, o crânio vazio, suspenso de uma saliência da arquitectura da catedral.
O amor é Quasímodo, o sineiro, porque o sineiro fêz como o amor. Despojou primeiro, e só depois é que deu a morte. Primeiro expoliou, depois arremessou ao abismo. É assim sempre. E como amor é Quasímodo, guardai-vos de o procurar, para que não vos suceda o mesmo que a êsse inditoso Jehan Frollo.
O amor é o pior dos males. Que nos deixa êle? «Ridículo, amarguras, ou nada...» responde Octávio Mirbeau. «Que loucura terrível que é o amor! No fundo é sempre triste», continua.
Não amem nunca, ouvem! Sendo o amor um negócio, «quem é generoso é mau comerciante». Nada de ilusões. Nada de amores. Mulheres nunca uma. Uma é perigoso. Se fôram forçados a amar, porque o amor é uma doença como o sarampo ou como a meningite, repartam-se em pequenos quinhões.
Quem teve um só amor na vida foi desgraçado. É ver a história de todos os livros de amor. Quem muitos teve, não amou nada. Quem amou uma foi infeliz, quem amou cento viveu satisfeito. Reza um assento da Tôrre do Tombo, que pelos anos de 1220, o padre Fernando da Costa, presbítero do hábito de S. Pedro, prior da Egreja de Tarouca, pedira perdão a el-rei D. Afonso III por se julgar ter dormido com «sete irmãos, nove comadres, uma tia, nove afilhadas, e com António da Cunha, alêm de cincoenta e uma mulheres, das quais houve cento e noventa e sete filhos, quarenta e sete fêmeas e cento e cincoenta varões».
Mas não reza a história que êste amoroso fôsse desgraçado como o Armando da Dama das Camélias, ou como o Werther se suicidasse.
Por mim, em verdade lhes direi, que me creio o mais imune dos bípedes, porque o mais egoísta me julgo. De resto o amor é para os raros apenas. Deixá-los lá amar. São êsses que fazem depois os belos livros que a gente gosta tanto de ler. Que em verdade, irmãos caríssimos, admito o amor, a deliciosa mentira, mas só em teoria. História remota, cujos heróis já morreram, e que sucedeu nalgum país distante. Porque se é triste e eu entristeço, logo me põe bem com a minha digestão e com a minha consciência,—duas cousas que se parecem—o comentário clássico e absoluto: ¿Quem sabe lá se ela não será mentira?