Mercedes Blasco
(A propósito do seu livro «Memórias duma actriz»)
Antes, muito antes mesmo, de ter lido as Memórias, já pensara da sua autora o que Vítor Hugo escreveu de Cláudio Frollo: «¿Que fogo interior é êsse que por vezes lhe brilha nos olhos, a ponto de se assimilharem a uns buracos feitos na parede duma fornalha?» ¿Que brilho mau trazem êsses olhos, que pesa como o coturno dos gladiadores que vencem? Mas foi um pensamento só. Não psicologizei do brilho nem do fogo. Já Plínio, o antigo, no ano 79 de Cristo, morrera no Vesúvio vítima da sua lamentável curiosidade...
Mas é dum livro que se trata. Mercedes Blasco, actriz e escritora, acaba de publicar as suas Memórias, quási ao mesmo tempo em que Sarah Bernhardt publica as dela e Júlia Fons em Hespanha, sorrindo, nos mostra a capa do seu Lo que yo pienso, ao mesmo tempo que sorrindo tambêm nos pede pelos seus pensamentos duas pesetas. Não me admirei nada de que Sarah publicasse Memórias. Apesar da enormidade da maçada que elas são, e do volume, achei até que ela deva ter ainda muito que contar. Mas admirei-me tanto da Fons ter pensamentos, como da Mercedes ter Memórias. As memórias são dos vélhos. Ora não sendo Mercedes vélha, não podia ter Memórias. Ou a lógica era uma cantata. E era. Mercedes é nova e tem memórias. E bem interessantes que elas são, ainda que a muitos peze.
Confesso que sentira tambêm «ao boato de publicação do livro» um «aperto de coração». Não houve motivo para isso. O livro dessa criatura, cuja figura Silva Pinto tão bem silhuetou—essa «Mercedes que tão bem oculta, sob uns exteriores de gentil frivolidade, a mais fina sensibilidade, a lealdade mais correcta e a mais impressiva alma de artista—na elevada e luminosa esfera da arte pura»—é um grande livro.
É um volume curiosíssimo, escrito invejávelmente num estilo de ideal simplicidade, numa prosa que tem o encanto duma espirituosa conversação. Nenhum esfôrço, nenhuma tortura ela apresenta. Essa simplicidade da prosa, correndo como a água dos regatos, que é o ideal de todo o artista; essa simplicidade, que foi a grande tortura do autor das Viagens na minha terra, e que fêz os cabelos brancos ao autor da Madame Bovary e ao Daudet da Sapho, encontra-se no livro desta travêssa criatura, senhora da prosa, de dois olhos terríveis, abismais, duma cabeleira agarotada e dum corpo de boneca voluptuosa.
É o livro mais curioso dos últimos anos, e então curioso como nenhum, se considerarmos que raras são as criaturas de teatro, em Portugal, capazes de alinhavar um livro de memórias. Quer como subsídio para a história do teatro nacional, quer como obra literária, quer como documento íntimo para o estudo duma alma e duma vida, êle é um trabalho absolutamente inédito, completo e modelar. Como arte, as suas descrições maravilhosas, o aroma das suas páginas, a flagrância das suas scenas, a intensidade dos seus momentos passionais e a sua travessura inquietante, revelam-nos obra da grande artista que é Mercedes,—uma artista gloriosa e privilegiada, cheia de talento, de graça, de originalidade e de imprevisto.
No teatro tem Mercedes Blasco o seu logar marcado entre as nossas primeiras actrizes; se me objectarem que a opereta, de que ela é a nossa primeira figura, é um género inferior, eu redarguirei parafraseando Teófilo Gauthier, que dizia que em literatura não havia géneros inferiores mas sim escritores inábeis:—No teatro não há géneros inferiores, o que há é artistas que o são e artistas que o não foram, não são, nem serão nunca.
Se ela, em logar de enveredar pelo caminho do couplet, tem tomado pelo caminho do drama, seria hoje uma extraordinária actriz dramática. Pela sua intensidade de sentir, pela extraordinária vibratilidade dos seus nervos, onde parece que existem amassadas tôdas as loucuras, tôdas as paixões, tôdas as bondades e tôdas as emoções humanas, e pelo seu modo de ser artista, tão probo e tão grande que a obriga a dispensar aos papeis de galhofa que tem feito todos os seus cuidados e lhe faz sentir em cada noite de estreno a intranqùilidade artística que acometia o Bongrand da Obra de Zola diante de cada quadro novo.
A razão porque esta criatura é guerreada numa guerra surda feita de picuínhas irritantes, não a explico. Vieira diz que «um grande delito muitas vezes achou piedade, mas nunca a um grande merecimento faltou inveja». E aí está como o padre António Vieira explicou. É essa a razão.
Mercedes Blasco nasceu actriz. Nasceu actriz, como Gomes Leal nasceu poeta e Gavarni, caricaturista. O teatro foi a sua quimera, o seu deslumbramento. Ela julgou sempre que no teatro se fizesse teatro, quando ali sómente se faz pela vida. O desengano veio breve. Ela hoje sabe bem que «tudo ali é falso: o beijo das amigas, os galanteios dos apaixonados e os protestos dos amigos, que desaparecem mal supõem que podemos precisar deles». Disse-o nesse esplêndido e impecável trecho de prosa, que é a sua Carta aberta, em tempos publicado. Acreditou no amor e afinal não encontrou no seu caminho mais do que gozadores banais e ressêcos egoístas. Hoje tem perdidas as ilusões, o que não admira, pois tôda a sua vida tem sido a epopeia do desengano. Restam-lhe dois filhos dessa travessia. É deles que a sua alma está cheia, porque é sôbre o seu berço que ela se tem visto forçada a afugentar as lágrimas, servindo-se da sua linda voz, para, nas ocasiões de maior tristeza,—triste ironia do Destino—os adormecer, cantando-lhes alguma bela serenata napolitana, das suas noites de glória.
Noutro meio, noutro meio onde as criaturas que teem algo para dizer são escutadas com amor, Mercedes teria uma fortuna. Poderia fazer loucuras sarahbernhardthescas. Aqui a sua fortuna não é para que a invejem. Eu admiro-a e admiro a bondade com que ela indulgencia as torpezas que a calúnia vulga e borda, a energia e a vontade com que ela combate, desamparada de todo o auxílio, e o seu talento de escritora que tudo originaliza, que a tudo empresta vida e nos deu êste livro de memórias.
As Memórias duma actriz, ora publicado, é o livro das suas paixões, dos seus triunfos. É o livro da actriz. Mas, exactamente como Guerra Junqueiro dizia de João Penha, Mercedes deve ter outro: o livro das suas lutas, das suas agonias, dos seus desânimos; o livro da mulher. O que êsse livro seria, dada a sua hiper-sensibilidade e o encanto íntimo da sua prosa, nem eu sei dizer-lhes. Seria espantoso, em verdade, se ela arrancasse a máscara e nos viesse contar a história dos seus dias, o sabor dos seus momentos amargos, os sobressaltos do seu sono, a inquietação das suas horas, a guerra de insídia, de calúnia, de inveja que se tem feito à sua roda; se ela nos dissesse os porquês e as causas de muita história reticenciada, ou que no seu livro publicado só se lê nas entrelinhas.
A verdadeira Mercedes não é a que conhecemos das Memórias, sublinhando gaiatamente uma cançoneta, cheia de rapazices adoráveis e publicando cartas de amor para mostrar que nunca amou. A verdadeira está por detrás da máscara desta chorando. Se às vezes lhe vem espreitar aos olhos, quando sucede entristecerem, é sómente pelo geito que teem os comediantes de vir olhar pelos óculos do pano de bôca.
A Mercedes das Memórias é a actriz. Certo é que, aqui e alêm, a caracterização deixa ver a mulher. Mas logo, num geito, ela recompõe a máscara—que tem o público com as suas tristezas!—e aí a temos outra vez a rir maliciosa, com aqueles dois olhos, que são enormes, que são profundos e em que por vezes parece cachoar, revolver e estorcer-se uma labareda criminosa.
Certo estou de que as suas Memórias encontraram em cada leitor um espectador deliciado e ávido; o outro livro encontraria, em cada, um coração. E por isso é que, se tenho pela Mercedes das Memórias sómente uma curiosidade agaçante, tenho pela outra uma devoção profunda, um infinito amor. Com esta deplorável mania de tragediar tudo, até as cousas que não teem tragédia, eu vejo em Mercedes Blasco uma criatura a quem tem pontapizado o orgulho, estrangulado a ambição. Não ha vileza que lhe não tenham assacado, intriga em que a não tenham envolvido. Julgo que tenha chorado muito, mas para dentro, não fôssem as lágrimas deixar-lhe sulcos na pele. Só o martírio, o martírio infinito de recompor a máscara tôdas as manhãs, não vá a gente com o espectáculo da nossa dôr dar prémios gordos de alegria aos safardanas que nos espiam e nos invejam!...
Se cada homem ou cada criatura soubesse fazer um livro, um diário da sua dôr, quando não soubesse fazer dela um poema como queria Goethe, a vida resultaria inaturável. Tôda a gente tem em si a sua tragédia, disse Sienkiewicz. Pois bem. Mercedes, escrevendo o livro da sua tragédia, teria feito o livro mais humanamente intenso, mais doloroso e mais interessante que se poderia escrever. Teria concorrido para se desvendar a vida de aparências que todos somos obrigados a viver. E então, ah, então, veriam os que nos invejam, que as aparências não são mais do que as máscaras de que nos servimos, comediantes, para que ninguêm saiba a mágua que nos consome.
Um seria o livro da cómica. Outro o livro da trágica. O livro de aparências e o livro de realidades. Então ver-se-ia como um completaria o outro. Porque se as Memórias são para o público, o outro seria para seus filhos, «o maior e único amor do seu coração». E seria o maior legado que lhes poderia deixar no dia em que a Morte viesse cerrar-lhe os olhos piedosamente, porque a Morte é o pano de ferro que inevitávelmente correrá sôbre a tragédia e a comédia de nossas vidas.