Goron
Um escritor daqueles que mais considero é êste Goron, antigo chefe da polícia de Paris. E, em verdade, se me dessem a escolher entre qualquer obra de renome universal—a Jerusalem Libertada, os Lusiadas ou o Paraiso Perdido,—e as Memórias, eu não hesitaria um segundo. Seriam as Memórias de Goron preferidas.
Goron, ex-chefe da brigada de segurança, é um dos escritores mais interessantes do seu tempo. O pitoresco e o formidável, o repugnante e o heróico, o vício, a doença, a loucura e o crime, tôdas as loucuras, todos os vícios, todos os crimes, passam nas suas páginas, mesclados, num desfile estranho, numa procissão extravagante e macabra, polichinelesca e terrível. Abro uma página da série das suas Novas memórias—as do Amor. Será a primeira do volume Mercado de mulheres. O que essa página seja não chega a minha prosa para o contar. É a confissão duma rôdeuse detida no boulevard de la Chapelle.
Dostoiewsky não faria uma página mais sinistramente comovida nem mais elegíacamente emocionante. É duma grandeza absorvente. A história duma vida desfila ali em quatro páginas, vertiginosamente.
Se me perguntarem á priori o que é a obra de Goron, eu não saberei responder. As suas personagens, quem são? e terei novo embaraço. Biografias sinistras, silhuetas de criaturas desgraçadas, de criaturas pérfidas, de criaturas míseras, terríveis, alucinadas, ciumosas, soluçantes. Retalhos de vidas, episódios trágicos, misérias, lôdos, confissões patibulares em lábios purpurinos, confissões sentimentais brotando de criaturas putrefactas, sei lá?! Não sei, decididamente não sei dizer. É uma cousa indistinta, é a vida, a vida vortilhão, a vida Maelstroom, a vida abismo, sôbre que alguêm se debruçasse e trouxesse depois nos olhos todo o horror e todo o espanto.
Pelo seu gabinete desfilaram tôdas as manifestações selvagens da fera humana: Arrancaram a máscara tôdas as qualidades de homens e despiu a alma tôda a sorte de mulheres. E então êle pôde ver, a frio, como um bacteriologista em suas culturas e um dissecador no mármore anatómico, os vícios e as paixões que convulsionam, arrastam e perturbam esta mesquinha e egoísta humanidade. A sua obra é a verdadeira Tragédia humana. Ela ficará amanhã, a obra dêste antigo chefe de polícia, como a documentação mais perfeita, o repositório mais eloqùente de factos para a reconstituição da psicologia duma época. E em verdade vos digo que tem comoção para tôda uma literatura, e tão intensificada a sua grandeza que daria filão maravilhoso a romancistas, dramaturgos e todos os buscadores de entrechos se não fôsse tambêm para meditar e para ler, mais com o coração do que com os olhos.
¿Julgarão talvez que sob o aspecto desabrido, rude e solerte do agente não existe o artista e o homem? Enganam-se. O agente comoveu-se muitas vezes e é o artista quem nos transmite essa comoção. Não há ali um coração endurecido. Tanta miséria e tanta podridão tem êste homem visto desfilar ante seus olhos, em tanto lôdo tem mergulhado suas mãos, que, dir-se-ia ter-se-lhe embotado a sensibilidade, tornado incomovíveis tôdas as fibras e de todo já se lhe terem estancado as lágrimas. Mas não. Uma imensa piedade transborda da sua obra. Uma piedade infinita, uma piedade tornada avalanche, que chega até nós ainda avassaladora e convincente.
Querem uma prova? Êste homem forte, que conhece a humanidade por dentro, em todos os seus cinismos e tôdas as suas ternuras, em todos os seus apetites e tôdas as suas ambições, em todos os seus vícios e tôdas as suas virtudes, que conhece o calcanhar de Aquiles de tôdas as almas, que viu empalidecer os maiores homens e cair a cabeça aos maiores criminosos, que conhece a noite e sabe os recantos da miséria, êste homem chegado a certo ponto em que necessário lhe era descrever a enfermaria das mulheres perdidas da Saint Lazare, dos versos de Bruant, pousa a pena e diz com ar sumido: «Repugna-me descrever a enfermaria. É demasiado triste, demasiado feia». E logo nos começa contando outra miséria, como se quisesse arrancar o leitor a um espectáculo doloroso.
A dôr só embota as criaturas rudes. Ás outras estimula-as. Assim, Goron, sob a sua farda de polícia, tem um coração piedoso e sob os olhos inquisitoriais e pesquisantes de perseguidor há muitas vezes lágrimas reprêsas. ¿Porque abandonou êle o cargo? Não sei. Talvez farto de tanta dôr. O espectáculo da dôr contínua, que é hábito para os rudes, para certas criaturas é um suplício. Goron é uma criatura sensível, uma alma de artista apaixonado e sonhador. E quem tal diria? Sonhador, nem menos! Ah! Não julgueis nunca os homens pelas aparências. ¿O que lá está dentro quem no sabe? E creio-o; jamais alguêm o saberá!
A obra de Goron é o mais profundo estudo de bas-fonds que conheço. E olhai que muitos há. Tenho aqui à mão o Paris impur de Charles Virmaitre e os livros de L. Taxil.
Não só profundo êle é. Há muita poesia naquelas descrições e muita arte nesses relatos. Mão cariciosa cinzelou aquela prosa desprendida que não sei que encanto tem.
Dir-me-hão que uma cidade como Paris e um cargo como o de chefe dão para óptimos livros de memórias. De acôrdo. Mas é necessário ser-se artista e necessário saber ver fora da visão profissional. E Goron soube ver.
«Sinto-me morrer longe de ti; tenho um desejo louco de abraçar-te.
«Quero ver-te a todo o custo e quando saia quero que me ames como sempre, que jamais, jamais, sejas doutra mulher. Prefiro ver-te morto que perjuro ao nosso amor, e se me abandonas matar-te-hei!...
«Pensa em mim tôdas as noites, na tua cela, como eu penso em ti, rogando a Deus que nos reúna breve, ainda que seja na Nova...» (Nova-Caledónia, a penitenciária).
Assim escrevia uma mulher pública a um ladrão. Ambos presos. Ela escrevia de Saint Lazare.
E são cartas, confissões, ódios, vinganças, paixões, tôda a gama de humanos sentimentos que ali ruge, e passa em tropel.
Quási poeta nas Novas Confissões, Sherlock-Holmes no Através do Crime, Goron é um apaixonado e um artista. A sua obra é proveitosíssima e lê-se com verdadeiro interêsse.
Quem ainda crê no amor, que se sacie. Tem ali o amor em tôda a sua nudez. Quem crê na sinceridade e não se acostumou a ver o homem como um animal que inventou as luvas para esconder as garras, tambêm ali tem que aprender. E certo é que todos, lendo-a, andarão mais algumas horas na intimidade da alma humana.
Por suas relações, por sua larga experiência—Goron é um cavalheiro edoso—pela larguíssima racolta de documentos vívidos e do natural colhidos, flagrantes ainda e ainda conservando tôda a sua intensidade, mereceram as Memórias o sucesso europeu que desfrutam. Acolhidas com ensurdecedor murmúrio à data da sua publicação—que arquivo de graves cousas, cousas comprometedoras, cousas pícaras, nojentas e terríveis, surdiria?!—elas foram tambêm logo festejadas. É que as Memórias de Goron não eram obra para armar à popularidade, cativando por suas escandalosas revelações, e rocambolizando a meada profissional. Não eram. As Memórias eram sómente isto: o trabalho dum artista, dum homem que sentiu a vida e que vem das regiões misteriosas do crime, dos abismos profundos do vício, relatar-nos o que viu em linguagem comovida.
Falhando pois à ansiosa popularidade do escândalo, a obra de Goron não teve o êxito passageiro das que o teem. Antes continua a ser lida, lida será e sempre com amor. É o estudo dum homem que viu. E só quem viu merece ser acreditado.
Goron, antes de ser agente, era um artista. Quando deixou de ser agente, artista ficou. E pelo contrário: a sua convivência com gente humilde, a sua excursão por essas desconhecidas paragens, deram-nos um documento que será lido emquanto bater um coração e não secar de todo essa solitária flor da piedade.
E porque a sua obra me faz sentir, sentir intensamente, é que eu considero Goron um grande artista.