Naufrágios
(Carta a Felipe Trigo)
Lembra-se, meu caro amigo, daquele seu oficial reservista que a bordo, durante a tempestade, guardava o salva-vidas de navalha em punho, crendo que a cousa estava por um instante? Lembra-se?
¿O que faria êsse homem na ocasião em que o barco se afundasse e a multidão se precipitasse sôbre o salva-vidas, atropeladamente? Defendê-lo-ia a navalhadas. Mulheres e crianças não seriam poupadas, não é verdade? Leio-lhe a intenção. O meu amigo, como conhecedor dos homens e da sua ingénita cobardia, pois que é um psicólogo, e da sua miséria profunda, visto que é médico, deixou em meia página um tipo imortal.
E creio-o bem. Nunca o homem durante uma tempestade deixará de vigiar o seu salva-vidas de navalha em punho.
Talvez lhe tenha já esquecido o personagem. A mim avocam-mo agora bem intensivamente os telegramas do afundo do Larache. E dizem êles com o seu laconismo em que verdadeiramente o silêncio é de ouro, pois é nos telegramas que se aprende a calar, porque o palrar se paga: «Os passageiros disputavam os salva-vidas à punhalada e a tiro». Aí tem o meu amigo o fim, e o que faria o oficial reservista para defender o seu: o numero 30.
O mar atrae-me, muito mais do que a terra. Creio que no mar a porção boa, dose mínima, que cada homem tem, aparece mais freqùentemente.
Exceptua-se, é claro, o naufrágio. Então o homem alija a porção boa e busca uma navalha com que defenda o seu jaleco ou a sua coroa fúnebre de cortiça. Não há pais, nem filhos, nem amantes, nem irmãos. Cada um governa-se. E só em ocasião de naufrágio cada um conhece o seu vizinho. Tambêm, às vezes em terra assim sucede. Quando uma criatura busca, à sua roda, já atolada até ao pescoço, uma abnegação, um auxílio, vê então todos egoístamente cada qual tratando de se defender e safando-se à cautela. De resto no mar ou em terra, ai de ti se não defendes a tua cortiça à navalhada.
Quando me lembrei do personagem episódico do seu Del Frio al Fuego não deixei de me recordar tambêm daquele comunista de D. Emília, a D. Emília Pardo Bazan. Não sei de tipo mais fielmente descrito. Meu caro amigo: Devem ser assim, são fatalmente assim todos os comunistas.
Um amigo meu não conhece a história. E abro aqui um parêntesis para êle. (Ora o caso foi que havia a bordo um socialista-comunista, muito ardente, persuadido, de boa fé e demais propagandista. Sucedeu-lhe ir a bordo e o barco ser colhido no mais brutal duma borrasca desfeita. Escaleres ao mar. Um deles, o mais pequeno, ia cheio de mulheres e crianças, porêm, tão cheio que se começava afundando. Idearam sustê-lo com cabos emquanto se passava gente para outro escaler. O comunista foi encarregado de suster um cabo. Traduzo agora: «A princípio agarrou-o com afinco e só notou um ligeiro ardor; mas logo começou a arder-lhe a palma da mão, como se a tivesse cheia de brasas. Se soltasse, perdiam-se os do escaler: havia que sofrer, que deixar arrancar a pele e a carne. Mas a dôr crescia, a sensação era tremenda e o comunista, soltando um grito, afrouxou o cabo e viu que o barco como uma pedra descia para o abismo. Ficou triste—e para que negá-lo?—Mas confessou que, se cem vezes lhe arder assim a mão, outras cem deixará afundar-se o bote»).
Todos farão como êle e todos o confessarão.
Para mim só o mar tem beleza. O mar profundo, intérmino, sem terra à vista. E, não sei porquê, atrae-me «aquela fria e inquieta sepultura», como se diz na História Trágico Marítima. Uma saudade muito profunda, cresce, avoluma-se e evola-se lentamente pela memória de todos os mortos no mar, afogados ou Ofélias, amantes perdidas ou simples labutadores da vida.
Morrer no mar! Há lá maior beleza?! Longe de terra, sentir através das paredes de ferro dum estreito barco o mar iroso batalhar, entoar rouquenho as suas cóleras, cóleras de água que na bonança se desfarão em espuma! Em terra tudo se deixa. No mar tudo vai connosco. Lá em baixo, fazendo companhia aos galeões de Vigo, caldeiras apagadas, as escadas solitárias, a sala de música emudecida, a biblioteca tôda por ler, as viandas por manjar, o nosso barco será indiferente de-certo até ao próprio Nautilus do capitão Nemo, das arrojadas fantasias de Júlio Verne. Navio da morte que ao fundo foi com todos os seus. E é consolador dizê-lo. Não nos esmigalhará o crânio a enxada do coveiro ao fim do nosso primeiro sono, nem sôbre a nossa campa a mulher que dizia amar-nos colherá um cravo rubro para colocar, entre o parêntesis dum beijo, na boutonnière do amante.
Já não falo no consolador prazer que haveria em duas criaturas que se estimassem morrerem abraçadas, sentindo o vélho Oceano galgar por ali acima à sua procura, para as separar, e não conseguindo mais do que fazê-las abraçar com maior amor; ou do capitão que imperturbávelmente, como o capitão da prosa de Vítor Hugo, que ordena a salvação de todos, primeiro as mulheres, depois as crianças, depois os vélhos; a maruja no fim, e todos salvos, na ponte de comando o vélho comandante afunda-se nas águas com o seu navio. Já não falo disso. Mas morrer longe de todos, tranqùilamente, fumando um cigarro, ou ouvindo uma música ideal, recordando alguêm ou alguma figura dos nossos livros preferidos, sem levar saudades nem as deixar sequer. No meio da grande solidão imensa do Oceano! Depois as almas de mestre, as aves que no mar alto dão longos e sentidíssimos pios, iriam lembrar à superstição dos que passassem que um pouco nada bastava, uma vaga às vezes, para que quem escutasse fôsse meter-se no corpo dos passarocos e por sua vez fôsse ouvido.
Mas, divagações à parte, aí tem o meu amigo o último acto da tragédia que só esboçada foi. E se o seu passageiro não empregou a navalha, agradeça-se ao Oceano que não sacudiu mais violentamente o seu corpo em fúria. Os passageiros do Larache mostraram-nos o homem. Da Medusa sairam antropófagos; do Larache bandidos. Ah! meu amigo, não o enganou a sua visão. E deixe-os falar, os optimizados. Eles não sabem da vida senão uma teoria confusa e abstracta. É necessário ter visto reluzir o aço da navalha do reservista, verdad?
¿Mas para que, afinal, aquilo tudo? ¿Para que disputar a tiro um adiamento de morte? A morte é uma letra a pagar, diz um negociante meu amigo, que tem suas tinturas de filosofia. Para que a reformar, direi eu. Isso que vale?
Depois, no mar, a-pesar-de tôda a sua monotonia, há muito mais poesia, muito mais grandeza do que em terra. A terra é pequena, com seus egoismos, suas sepulturas, suas recordações, lembranças de gerações que foram, pó, pó sempre, eternamente erguido para constantemente derrubado ser.
Decididamente, meu amigo, a terra é banal. Nada me prende a ela, nada. E se alguma vantagem ela tem, é só a que lhe encontrava o capitão Nemo, a de vir buscar livros, muitos livros para ler, para saber, distante, quais as paixões, as cegueiras e os vícios que fazem os homens dar-se caça como a lobos e odiarem-se com um ódio profundo, secular, que irá até que, da terra, os dois últimos mortais, já tombados, larguem da mão as navalhas com que disputaram o último bocado.
Que, decididamente, meu amigo, diga-mo a sua luminosa inteligência, ¿vale acaso a Vida essa labuta, essa fadiga, ou sequer o gesto de puxar a navalha para defender a cortiça, refúgio da morte? ¿Vale acaso a vida, essa ambição de reformar a letra a tiro, à navalhada e a murro?