Gomes Leal

De Gomes Leal se anuncia para breve um novo livro, êsse antigo, ruidoso e singular Antí-Cristo, completamente refundido e aumentado. Gomes Leal é sem dúvida uma das mais curiosas, extravagantes e originais figuras da nossa literatura contemporânea. Sitando longe da baixa, num modesto segundo andar lá para os sítios da Graça, necessário é, se o quisermos encontrar, ter de procurá-lo no seu gabinete de trabalho, uma sala alegre e clara onde há um canapé, uma bela cadeira de vêrga, uma secretária e uma cómoda, ambas estas cobertas de livros, de brochuras, de cartas e de papeis. Das frinchas das gavetas entreabertas surgem agressivos pedaços de manuscrito. O poeta é um concentrado, vivendo muito pelo espírito, lendo tudo e tudo sabendo. Gomes Leal, convêm dizê-lo, é um paladino da Arte, um D. Quichote de quem a Arte é Dulcinêa; como aquele—aventuroso; como aquele—sonhador e louco; porque—diz-me aqui do lado um malcriado que está vendo o que eu escrevo—é preciso ser-se louco ou sonhador para ter veleidades de Arte em Portugal.

Gomes Leal nasceu poeta. É inútil insistir. Podia ter nascido Coimbra ou Amieiro, bibliotecário da Ajuda ou parvo, e então a sua sorte seria mais compensadora. Ter nascido Amieiro, para dar a sua autorizada opinião sôbre se o rei vestia ou não camisa! Ter nascido bibliotecário para, pelo telégrafo, lhe dizerem que dissesse o que o outro dizia de Turgot! Ah! é admirável! Então se tem nascido parvo, tinha a sua fortuna feita. Em verdade te digo, amigo Fernandes, tinha a sua fortuna feita.


«Balzac e Baudelaire avançavam em sentido contrário sôbre um cais da margem esquerda. Baudelaire parou em frente de Balzac e pôs-se a rir, como se o conhecesse há dez anos. Balzac parou por seu turno e respondeu dando uma gargalhada, como diante dum amigo tornado a encontrar. E depois de se terem reconhecido num relance e cumprimentado, ei-los caminhando juntos, conversando, discutindo, encantando-se, não chegando a espantar-se um do outro».

Eu não conheci Gomes Leal como Baudelaire conheceu Balzac. Mas, antes de o conhecer, já de côr sabia algumas das mais belas e indignadas estrofes da Traição, alguns dos mais artísticos trechos do Hereje, as comovidas quadras da História de Jesus e os mais belos e originais pedaços das Claridades do Sul. Assim, antes de tudo acostumara-me a ver em Gomes Leal a indignação e a revolta, a arte e a comoção, a sátira, o riso, a lágrima, todo o íris do sentimento, emfim.

Gomes Leal é um poeta, disse. Um poeta lírico, um enternecido lírico. É um poeta que vibra amorosamente. Sabe muito menos odiar do que amar. Iria fazer a revolução com um ramo de cravos sangrentos na lapela. Iria para uma barricada com a cartucheira cheia de violetas. E é assim em tudo. No entanto, dentro do seu peito há oceanos de amargura, de revolta; tempestades de ódio, clamorosas vozes invectivantes. Tôdas as cordas do humano, do riso à lágrima, do raio de sol à Júlio Diniz até à tempestade à Shakespeare, da calma ao furacão, vibram dentro dele rugidoramente. Gomes Leal é um peninsular. Ora penedia agreste, rochedo a prumo, fragas sem fim, ora verdura sem par, céu sem rival, vegetação sem equivalência.

Para conhecer Gomes Leal atravessei, pois, meia Lisboa. Conhecia-o dos seus livros, conhecia-o das suas prosas, conhecia-o dos seus artigos, conhecia-o dos seus retratos, conhecia-o do Cancioneiro Alegre de Camilo. Nunca tinha visto êste homem ora lendário, ora macabro, ora sonhador; apóstolo e pedagogo símplice hoje, sectário de estranhos cultos e misteriosas religiões amanhã. Os seus retratos davam-me uma vaga ideia. Mas o seu nome tinha no meu ouvido a orquestração bizarra, ora da marcha da Carmen ou da Marselheza, ora da trombeta de Jericó! Era qualquer cousa de extravagante, qualquer cousa de outro mundo, porque tôdas as bizarrias, tôdas as extravagâncias, tôdas as alucinações, todos os mistérios se esperam dêste cérebro—de quem um amigo meu diz, que tem telefone com o infinito.

O Edgar Pöe da península lhe chamou não sei quem. O que êle seja afinal não sei eu. Baudelaire e Jesus, Pöe e Sancho Pança, D. Quichote e Homero, Camões e Goya, reuniram-se um dia para formar um espírito. O que saíu foi Gomes Leal. Junqueiro disse que os génios combinaram um dia um encontro e se reuniram na cabeça de Vítor Hugo. Talvez fôsse verdade. Os génios podem reunir-se onde quiserem. Ninguêm tem nada com isso.

A Gomes Leal deu Baudelaire o satanismo desatinado e histérico; Jesus a bondade, a comoção; Pöe, o desequilíbrio; Sancho Pança a farçolice, o humour; D. Quichote a crença, e a crendeira ilusão; Homero, a cegueira do mundo de patifes em que caíu; Camões, a indignação e o clamorar rutilante e patriótico; Goya, o claro escuro, ora muito claro, branco de leite, ora negro, negro, noite fechada. Destas dádivas tôdas saíu êsse conjunto monstruoso e formidável, ora comum, ora topetando os astros; um grão de loucura, outro de génio, e os restantes como o dum louco e como o dum génio.

Gomes Leal é uma alma extraordinária.

Se os génios se quiseram reunir para pensar e buscaram o seu cérebro como em Hugo, os músicos e os poetas quiseram fazer um concêrto e buscaram o seu coração. É por isso que, se no seu cérebro marulha um mar como à volta do túmulo de Ossian, no seu coração ecoam tôdas as melodias como na rabeca de Paganini. Parece que Gomes Leal não é um poeta, é um panteão. Não da beleza morta, mas da beleza viva, porque os espíritos como o seu são telescópios com que a gente olha através do infinito.

O que o novo livro de Gomes Leal será não o sei eu. Calculo o que êle seja. O Anti-Cristo, que era na primeira edição um bom livro, sairá considerávelmente melhorado. Anos passaram sôbre a primeira edição. Anos passaram sôbre o espírito do poeta. O Anti-Cristo sairá e não somos nós, não é o público, nem a crítica, nem a imprensa, quem dele dirá de sua justiça. Ela será feita pelas gerações futuras «visto que é preciso morrer para que nos façam justiça», como disse Zola e como disse o Camilo.

Gomes Leal é ainda um exemplo a apontar a novos e vélhos. A vélhos que se gá-gáisaram e a novos que se vão gá-gáisando. E nesta época resulta precioso. Nesta época de lamentáveis Ortigões, Ortigões mais do que lamentáveis, deploráveis. Nesta época em que os vélhos perderam o silêncio e a vergonha, e os novos, pingando máguas, veem, sem vergonha nem silêncio, fazer versinhos insípidos e cantatas inspiradas. Novos a quem o poeta odeia:

É o ódio contra ti, fraca geração nova,

que amas sómente rir, e não tens convicções,

nem ideal, nem fé, nem nervos, nem tendões

não sabes venerar, não sabes ter respeito

rugir, nem arrancar as lágrimas do peito,

nem rir como Voltaire, amar como Romeu

sofrer como Jesus—nem odiar como eu.

Que não sabem venerar quem devem, nem castigar quem o merece. Ora Gomes Leal, com tôdas as desigualdades do seu talento, é honesto, não é oportunista, visto que não é interesseiro, está-se manguitando para tôdas as sinecuras, ucharias, fardas e logares. Ama a arte sôbre tôdas as cousas e o próximo,—exactamente como a mim,—nada lhe interessa. É por isso, por êle se manguitar, nada lhe interessar o próximo, e não se parecer nada com os vélhos que entonteceram, que eu o considero. E considero-o porque são raros os vélhos que tenham a sua mocidade, tanto como são raros os novos, que, como êle, saibam ser dignos.

E à procura dum homem digno andou Diógenes com a sua lanterna e afinal teve que a apagar por inútil...