Religiões
As religiões, ia você dizendo?!... E como o filósofo erguesse o focinho em ponto de interrogação, eu volvi solene: «Sim, amigo Tibério: Essa cousa de religiões é uma cantiga. Positivamente uma cantiga. De resto, não me julgue você ateu ou pedreiro livre. É certo que não vou à missa, não sei o padre-nosso, não trago sermões, nem sou papa-hóstias. Isso não. Mas tambêm não faço bolas de sabão, nem deito papagaios, nem quero saber da vida alheia. Ora daqui a ateu, amigo Tibério, que diferença?! E você, se duvida, escute: Eu acredito que, quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que o paga. Emquanto a religiões, dir-lhe-hei, muito à puridade, que acredito. Acredito e como é sempre bom estar bem com Deus e com Satanaz, tenho para meu uso uma data de deuses. A todos respeito, tiro o chapéu a todos, se êles me estendem a mão não lhes recuso a minha, se os encontro, inquiro solícito como vão lá pelo céu a mulher e a pequenada—isto aos deuses casados; aos outros pergunto-lhes que tal vão da figadeira, se passaram bem a noite, emfim, cuidados de gente bem educada.
Assim, como trato bem a todos, êles vão-me deixando viver tambêm, na paz do Senhor.
Respeito o urso, o deus dos siberianos, mas não lhe estendo a mão. Respeito as serpentes, como os africanos, mas não me chego muito. E para ser um bocadinho descrente, valha a verdade que não acredito muito que seja grande fortuna ser morto por um leopardo, como acreditam os nossos irmãos do Dahomé.
Dou-me óptimamente com Ilâh ou Shamsh, o deus Sol, e tenho em minha casa um gato chamado Marau, que deve por certo ser descendente do gato sagrado de Heliópolis, no tempo de Rã. E quantas vezes, quantas vezes olhando para êle eu considero;—para êle que só reconhece, na sua irreverência felina acima de si o carapau.—«E é isto descendente do sagrado Rã, a quem os sacerdotes daqueles tempos oravam: «Tens a cabeça do deus-sol, tens a fauce de Thut, o que é duas vezes poderoso e senhor de Hermópolis! As tuas orelhas são as de Osíris, que ouvem tôdas as preces; a tua bôca é a do deus Tum, o deus da vida, que te manteve impoluto; o teu coração é o de Phtah, que te lavou os membros de tôda a nódoa! Tens os dentes de Chunsu, o deus da lua, e as coxas de Horus, o que vingou seu pai Osíris!»
O gato de Heliópolis teve um santuário, um bosque frondoso, e fiéis. Fiéis como tem agora às sextas-feiras o Senhor dos Passos da Graça.
Não era assim meia dúzia de fidalgotes. Eram aos seis, setecentos mil, fora os bandos de crianças levadas pela mão ou ao colo pelas mães, diz o nosso Oliveira Martins: «Aschoreas de fiéis subiam, os gritos da flauta convidam os deuses, as castanholas, como a antiga matraca selvagem, excitavam o fervor das danças sagradas. Balouçavam-se as barcas no rio, levando, trazendo gente; sussurrava a turba e um côro de orações obscuras enchia o ar de evocações fantásticas. Os talismans de Bast afugentavam os maus espíritos; por isso os romeiros levavam ao pescoço uma cabeça de gato, como bentinhos». E mais se diz que a pintura da lua de Bast e a imagem do gatarrão «enchiam de contrição os romeiros».
Aquilo é que era. Naquele tempo a vida estava para os gatos. É claro que não explico ao meu o que foi o avô dele, porque, estou certo que êle ignora que tem parentela tão distinta. Deixemo-lo viver na sua ignorância. Quem sabe! Podia tornar-se exigente.
Depois, gosto das vacas. Uma foi deusa, a vaca de Hathor. Dos bois não gosto muito, mas tenho-lhes respeito. Já alguns atrevidos se teem atrevido de mais e o resultado é êles marrarem. Depois ainda, pondo de parte os paus marrantes, êles teem na família Mnévis, boi louro ou branco que se venerava em Heliópolis—uma espécie de jardim zoológico da antiguidade; e Apis, boi negro, parente não sei em que grau do Capirote, aquele célebre que entrava em corridas e comia à mão, coitadinho.
Respeito Astarte, a divindade de Sidon, e Milkom, deus dos amonitas; Kamosh, deus dos moabitas e Moloch, deus de outros povos. Respeito Jeová e Baal, Cristo e Confúcio, Maomet e até o seu profeta. Respeito-os a todos para que todos me respeitem. Respeito Santa Bárbara para que leve as trovoadas para onde não façam perca nem dano; S. Marçal, para que nos livre dalgum raio de ao pé da porta, e todos os santos e santas da côrte do céu.
Aqui tem você, Tibério, uma restolhada de deuses e de religiões. Há mais, que tenho em casa com a etiqueta conveniente. Veja você qual a que mais lhe convêm. Parecem-se tôdas um pouco. Que você adore a Senhora das Dòres, ou Apis, o boi negro; que você adore o Sol ou a chuva, um manipanço ou um bentinho, tudo é adorar, amigo Tibério. Quere você um conselho? Quere? Pois bem, trate-os bem, mas não acredite neles. Nunca lhes peça nada. Porque; nesse ponto, os deuses são como os homens, e como os homens conhecem-se nas ocasiões. Não peça, porque os irrita. A gente, para viver bem com os deuses, deve mostrar que não precisa deles. Depois, se você tem lido, deve saber que esta cousa de ser Deus está muito por baixo. Deus foi Mercúrio e era um larápio; Deus foi Júpiter e era um transformista; Deus foi Saturno, aquele vélho Saturno de barba branca, e comia os filhos, o ladrão!
Plutão era tão mal encabado para Deus que o mandaram para as profundas dos infernos; Baco sempre era um Deus que dormia pelas tabernas. Rara era a noite que a polícia o não levava para a esquadra, donde, quando êle acordava, o mandavam embora, não sem lhe terem dado uma valente descompostura: «Que tomasse juízo; que se emendasse, que era indigno dum Deus; que era a vergonha da cara do Olimpo». Mas qual! O patife reincidia. Está já reformado, mas tem ainda muitos fiéis.
Ora que quere você, amigo, com Deuses desta ordem?! Tão bons são uns como os outros.
O próprio Cristo foi um pusilânime. ¿Você lembra-se da bofetada? Só teve génio quando agarrou no chicote e bateu nos vendilhões, uns pobres velhotes, que, chatinando, levavam a vida como Deus era servido.
S. Pedro, o guarda-portão, foi pescador nos seus tempos, e por isso, já sabes, os pescadores vão todos para o inferno.
É por isso, amigo Tibério, é por eu estar bem com todos que os conheço. Exactamente como os farmacêuticos que preferem sempre as drogas feitas em casa dos vizinhos. Não os aturo. Talvez sejam bons os que não conheço. Duvido e não me tenho dado mal. E por mais que parafuse, não chego a perceber porque razão é que Deus não se zanga por um padre ter o chapéu na cabeça na sua presença e dá o cavaco por ver o chapéu na cabeça de qualquer mortal. Altos desígnios!
Ah! mas no outro mundo é que são elas. Deus envia-me para Satanaz. Mas êste, que não pode ver Nosso Senhor nem pintado, sabe que é por vingança que êle me faz aquela partida e, em logar de me frigir, encarrega-me de escrever a crónica do seu vizinho do andar de cima. Então é que eu direi o patife que êle é.
Estou desconfiado de que em morrendo nem Jesus Cristo me vale. E como a viagem não é das mais pequenas e incerto o destino, ou recomendarei nas minhas últimas vontades que, à semelhança do que faziam aos defuntos na Suécia, que lhe metiam no caixão o cachimbo, a bôlsa de tabaco, os fósforos e algum dinheirito para a viagem,—encerrem no meu tudo isso, uns volumesitos para ler, papel, pena e tinta para escrever as minhas Memórias. Não quero confiar êsse encargo ao snr. Fernando de Lacerda, porque temo que êle diga que são dele, as Memórias. E estou certo de que em sucesso—como se diz à francesa—não ficariam muito àquem das Memórias duma actriz, de Mercedes Blasco.
Se, alêm disso, quiserem meter mais um chapéu de sol e umas galochas, como se faz em Reichenbach, na Alemanha, e uma certidão de baptismo com o meu nome e sinais, atestando a bondade dos meus costumes e a pureza da minha fé, como se faz na Rússia, tambêm não será mau.
E, amigo Tibério... Aqui, Tibério, que está quási a dormir, espreguiça-se e com aquele olhar inteligente e vivo, que todos lhe conhecem, diz-me irónico:
«Mas isso é o que se chama não ter religião nenhuma!...» ao que eu redargúo abespinhado—exactamente como Gérard de Nerval no salão de Vítor Hugo:—«Não ter religião nenhuma? Pois se tenho pelo menos dezassete!?»