O passado

Desejar a morte é ainda querer voltar ao passado. E assim como há dias em que ser morto é a ânsia que me lança um baraço ao pescoço e me afoga, outros há em que uma ânsia regressiva me faz voltar atrás para tornar a viver sôfregamente os dias já vividos. Hoje é um deles. Lá fora o céu pôs o seu «plúmbeo capacete». Por vezes uma chuva miudinha e intérmina envisca tudo da sua frialdade. E as almas, ressentidas de tanta fereza, voltam-se a viver o Ontem, queimando o Hoje gélido na lareira das mornas recordações.

Recordar não é só privilégio dos vélhos. Lembrar, é ainda na vida o único lenitivo.

Ai! o que seria a vida para aquele que não tivesse a memória e a fantasia,—o Passado e a Ilusão.

Com a memória vive-se, com a fantasia sonha-se. Mas vive-se deliciosamente e sonha-se um sonho ainda mais delicioso. Por isso em dias assim,—um chuvisco frio minando as energias,—as almas vivem e sonham. Lá fora há lama e frio. Cá dentro, acesa a fogueira, principia o desfile.

Então não há recordação, carta de amor, beijo dado ou passado dia, que não traga o seu quinhão. São pequenas cousas, cousas mínimas que se transfiguram. A saudade vê sempre por vidros de aumentar. Aí começa a gente a viver com fúria dias maus, que, comparados com os de hoje, nos parecem bons, dôres sofridas que cotejadas com estas, nos parecem verdadeiros prazeres. Ao fim, quando aquela galopada furiosa desfilou, quedamo-nos encolhidos scismando: como a gente envelheceu! E a saudade manda recomeçar a sessão, como num animatógrafo em que a fita recomeçasse a passar.

Como é verdadeiro o dito do poeta: «e saudades até doutras saudades!» Sim! eu sinto isto. Não há dúvida. Uma grande ânsia de ser pinheiro, de ser oliveira, árvore perdida, rocha bruta, me atormenta. E a chuva cai.

O passado atrai-me. Os livros novos não me dão novidades, com o seu papel de alvura fatigante e a sua sorna monotonia. Não, os livros novos não são novos. Lembro-me de ter já lido isto! Aonde, não sei. Mas de-certo tudo isto eu senti, tudo isto eu vi já.

Estes amores, assim rasos, assim secantes, já por mim passaram. Estes versos já eu os ouvi. Tudo hoje à minha volta me deixa frio. Hoje não há senão aridez e sequidão. É o simoun que turbilhona, arrasta e sepulta.

Os vélhos livros, com suas páginas amarelentas e os seus grossos caracteres, dizem-me não sei quantas vélhas saudades inolvidadas. Assim compreendo a paixão dos bibliófilos avaros, dos numismatas soberbos, de todos os coleccionadores e de todos que, estranhos ao seu Hoje, ou chocados pela brutalidade dele, se evadem da realidade pela porta do sonho e se deitam a correr atrás da fantasia.

Os vélhos livros contam histórias encantadas e escândalos sem par; sabem cousas que são o encanto dos vélhos e o deslumbramento dos novos. Oh! se vós soubésseis cousas que andam em vélhos livros?!...

Criaturas há que nem saudades teem. Saudades de quê? Nem saudades, nem queixas, nem esperanças. Tudo se lhes foi diluindo dia a dia. A miséria não deixa saudade: pode deixar lembrança. Deixa às vezes no esqueleto, no macerado das faces, na pele por colorir, sinais indeléveis da sua passagem. De resto, todos os seus dias são iguais. As suas noites parecem medidas pelo mesmo compasso. O ontem foi amargo, o hoje é tão amargo como o ontem. Olhando em roda, ninguêm. E em verdade, um ninguêm é sempre só, e não vale uma unidade um bilião de zeros. Se a criatura vive a vida bruta de animal, a sua única felicidade é êsse covil—o sono—onde as necessidades todos os dias a vão espancar, até um belo dia dele não voltar mais. É por isso até que chamam ao sono irmão da morte, como a Bíblia, ou primo, como o nosso Eça de Queiroz.

Outras há para quem o sono é sómente «o aquário da noite», como quere Vítor Hugo. Para essas o sono não é um covil tranqùilo onde se possa descansar. No sonho se continua a vida e quem morre a sonhar não chegou ao fim do seu romance. Essas, que nem no sono teem prazer, votam-se a viver a vida já vivida e quando a não teem para viver—gente há que não viveu nunca!—imaginam-na. Outras ainda vivem a vida lida. Não é a sua nem o seu mundo que habitam. É o mundo dos livros que leram, das personagens que idearam, das criaturas que só em sonhos são reais.

A vida de hoje, para as almas sensíveis, é duma brutalidade exorbitante. Daí a debandada ser cada vez maior. Uns evadem-se para não voltar; outros deixam só o corpo. A alma—o que em nós pensa, sente e quere, da filosofia antiga,—essa não anda dentro de muitos corpos, evadiu-se tambêm. Recordar, recordar! ¿há lá cousa mais pungente e mais deliciosa? Felizes os que sabem e podem recordar!

Ora imaginem que a velhice, o inverno da vida ou o que quiserem de mais amargo chamar-lhe, não tinha êsse brasido longo e aquecedor da recordação?! Imaginem-na agora sem memória?! Porque cruel é já arrancar-lhe a destreza no jôgo das armas, a agilidade nos músculos, o calor nos beijos, o entusiasmo na palavra; roubar-lhe a beleza, a fôrça e o amor; roubar-lhe a aventura e o garbo. Cruel é dar-lhe o reumatismo que lhe emperrou as articulações, a razão que lhe moderou os entusiasmos, a experiência que lhe roubou calor aos beijos, e o abandono de vida que lhe tirou o garbo e a beleza. ¿Que nome não teria, que inédita crueldade não seria a de lhe roubar tambêm a memória—a única mocidade dos vélhos? «De vélho torna-se a menino», diz o adágio. E a única felicidade é lembrar. Tornar a sentir os mesmos beijos, tornar a viver os mesmos dias. Povoa-se-nos a vida de espectros. Vivemos com mortos. Vive com mortos quem vive de recordações. Todavia, que delicioso não é?!

É por isso que hoje, dia em que o céu se forrou das mais escuras côres, e a chuva toca marselhezas de spleen nas vidraças, eu busco vélhas lembranças, lembranças de outros dias, lembranças de outras lembranças, «saudades de outras saudades.» E da minha estante tiro um livro poeirento e antigo onde se lê, quási apagada, uma vélha história de amor...

¿Qual de vós não sentiu já, por vezes, esta ânsia de recomeçar novamente? ¿Fazer de novo a obra já feita, ganhar de novo o já ganho, de novo sofrer o já sofrido, beijar o já beijado, amar o já esquecido, e tornar depois, ainda, a recomeçar? Todos, de-certo. Êste desejo sentiu-o tôda a gente. Mesmo sem sêr vélho, mesmo sem ser gasto. Um dia de chuva basta para nos lavar dos egoísmos e desenterrar em nós amargas recordações. O inverno desperta sempre saudades para nos dar lágrimas. O sol, o «claro sol, amigo dos heróis» se nos dá vontade de partir é consoladoramente, como quem nunca sentiu saudades, porque a saudade, sendo o único mal, é o único bem da vida. Quem tem saudades não deseja a morte. A morte é o fim e só se chega ao fim quando não há mais nada.

Pois bem. Recordo hoje. Tôda a minha vida desfio, lentamente, como as contas dum rosário em dedos de monja crente. Busco, rebusco e, como alguêm, que, buscando, volta as fôlhas dum livro, não encontro nada. Nenhuma saudade, nenhuma recordação. Quimeras não tive nunca, e esperanças não tenho já. De tanto esperar, desesperei.

Se alguêm, como a Job, me perguntasse, na hora extrema, na hora derradeira em que as memórias se reunem em volta do frio leito, como no soneto de Antero, se quereria recomeçar de novo, fazer de novo a obra já formada, beijar de novo os beijos já beijados, crer de novo os sonhos já mentidos, eu, a-pesar do meu amor ao vivido, virando-me para o outro lado havia de responder, juro-lhes:—como é triste o dia, lá fora!—Que não, que não valia a pena.

Entrado na agonia, não voltaria os olhos. Não fôsse a Saudade querer, a-pesar de tudo, entrar comigo a larga porta que dá para a eternidade.