Academias
Não sei se os senhores teem reparado que muito ao contrário da eterna verdade que Ibsen apresenta, no seu Inimigo do Povo,—«o homem mais forte é o que está mais só», que tambêm pode ser traduzida «vale mais só do que mal acompanhado»—o homem tem uma extraordinária tendência para se reunir e dizer asneiras de sociedade. E é fatal. O homem, alêm de tudo quanto é, ia eu dizendo, Homo sapiens de Linneu, «o animal implume que ri» de Platão, é tambêm palrador. Palrador, sim, meus senhores! Prometam-lhe uma libra para estar calado uma hora. Ou diz ao fim de meia, como o outro, que «meia hora já está passada», ou pedirá ao fim de dez minutos de experiência, que guardem a libra porque se não fala rebenta.
Tem uma certa razão, valha a verdade. «Para viver só, é preciso ser bêsta ou Deus» disse Aristóteles. Nietzsche concluiu que há tambêm um terceiro caso; ser as duas cousas: filósofo. Ora nem todos são deuses, se bem que as bêstas abundem. Filósofos, não vai o tempo para êles. E a um ou outro que vem, quási sempre por engano, sucede-lhe a mesma cousa que ao Misantropo de Castilho, aquele
«Severo Tristão de Matos»
que, depois de clamar, de se indignar e de ter estado não sei quantas vezes em risco duma apoplexia ou duma congestão
«Saíu da vida presente
por farto de ver sómente
falsos, vis, ladrões e ingratos».
Provado, pois, que o homem tem necessidade de se assembléar, para viver, logo foi inventar mil nomes para justificar a reunião. E então chamou-se-lhe, de soirée—sociedade onde a gente se aborrece, tendo ido para se divertir,—até Academia, sociedade onde a gente se diverte, tendo ido para se aborrecer. Não é das Academias recreativas familiares da rua onde a gente mora. É das outras. Cousa séria, grave, ponderada, onde se discute ou se dorme, mas quási sempre se dorme. Isto vem a propósito de termos agora mais uma Academia.
Ora há muitos anos que a gente tem outra—ali para as bandas de Jesus, que se chama, creio, Academia Real das Sciências. É uma sociedade onde os sócios teem fardamento tal como a Incrível Almadense ou a banda dos bombeiros de Chão de Maçãs. Fardamento, chapéu armado e espadim. Para que serve, não sei. Que tem feito? Quási nada. Um dicionário que ficou em azurrar. Ora eu entendo que em vista de nunca ter passado do A, sendo já tão crescidinha, se lhe dê outro ofício. Está provado que não nasceu para aquilo. E o que é mais, não tem vergonha nenhuma. ¡Sempre é uma tamanhona sem préstimo!
Bem visto, ela está no seu papel. As academias não se fizeram para fazer cousa alguma. Academia é para a gente se reunir, fumar a sua cigarrada, jogar a sua partidinha de dominó, com a municipal à porta, mandar para a mesa duas cartas que o ilustre sócio escreveu ali ou trouxe escritas de casa, dizendo—«Peço ao ilustre presidente o obséquio de dar essas cartas ao contínuo para as deitar no marco quando sair!» Ás tantas levantam todos a gola, dão as boas noites e desandam para vale de lençóis.
Teófilo Braga disse uma ocasião em público: «Academia é uma colecção de sábios, que caminha para o pedantismo». Foi muito amável. Foi muito amável porque se alguêm quiser saber o que é a nossa Academia Real, etc., consulte o Cancioneiro da Vaticana no seu prefácio. Ali verá que nunca o Cancioneiro seria impresso se não fôsse êsse benemérito sábio que foi em vida Ferraz de Macedo, o antropologista. Porque para ser impresso pela Academia não havia dotação e um dos membros da classe de literatura de quem dependia a aprovação do Cancioneiro julgava que o texto era latim!
Mas há mais. Não havia dotação para o Cancioneiro, mas houve perto de dois contos de réis para gastar com o embelezamento das salas para a celebração duma sessão real, uma sessão solene. Com o dicionário já se gastaram algumas dezenas de contos de réis e não serve para nada, o estafermo. Não é caso para dizer «não estala um ai de dôr em cada peito», mas «e não há um arrocho que os desanque!»
Depois, ¿para que servem as academias? Que préstimo teem? Eu não lhes conheço nenhum. Nunca de nenhuma Academia saíu um homem de talento, e em compensão os que o teem e entram para elas perdem-no logo. Senão digam-me a obra grande, de utilidade ou de valor, que as academias tenham fomentado! Qual? Nenhuma. Crer-se-ia na plausibilidade disso se Academia não fôsse um vaso de víboras como o de Carlyle, víboras desdentadas, invejosas e pequeninas, e que, para não deixar entrar nenhuma ideia nova, nenhuma ideia grande, até pôs guarda à porta, exactamente como à porta dos parlamentos se põe tambêm guarda, que é para que a Justiça fique de fora.
Plauto, o cómico, não foi da Academia Real das Sciências. Cervantes, tambêm não. Shakespeare tambêm não. Camões, idem. Ora aqui estão uns mágicos que não precisaram, para entrar na imortalidade, de apresentar o cartão de visita tendo por debaixo do nome «da Academia Real das Sciências, da Sociedade Filarmónica Capricho Recreativo, da Sociedade dos «tacões ao domingo, etc.». E estou até desconfiado de que o porteiro, ao ver tal, e ter olhado bem para a cara do sujeito, lhe diz com um risinho e uma palmadinha no ombro: -«O amigo está enganado! Tem que descer. Isso é na cave!»
Porque a imortalidade é o único logar para que a farda não serve de passe de livre trânsito.
Malheiro Dias diz, nas suas Cartas de Lisboa, que «a mais alta categoria social não vale uma farda de simples adido de embaixada, com plumas de avestruz no bicórnio e folhagem de vinha e oliveira, bordada a ouro, na gola»; pois com êste simples fardamento os polícias fazem continências, os municipais abrem filas e a multidão comprime-se para dar passagem. Isto ao subir a calçada da Ajuda.
Será verdade. Mas agora aqui me ponho eu a pensar que talvez a farda não valha para a imortalidade, porque para ir para lá a Ajuda não é o melhor caminho. Sim. Deve ser isso. Assim é que Plauto foi moço de padeiro, Camões foi soldado e Cervantes soldado e pobretão, e entraram. Camões tinha farda, mas quando morreu estava no prego. Em compensação, dos ilustres fardados da Academia, o porteiro não deixa lá entrar nem três. Vejam lá se vale a pena gastar dinheiro no alfaiate quando o que é preciso é gastar noites a fritar os miolos.
«Cá e lá más fadas há». Isto não é de nenhum dos escritores que eu costumo citar. Isto é da sabedoria das nações. Os senhores já sabiam?! Pois em França é tambêm assim, quando não pior. A Academia dos Goncourts, fundada para dar um prémio ao melhor romance, não tem estimulado nada o talento dos bichos que concorrem. Tem-lhes estimulado mas é o apetite e a solércia. Não os podendo fazer mestres em romance, fá-los mestres na empenhoca. E por isso o premiado é sempre o que mais empenhos tem. Pois então.
Não se desconsolem os que não são académicos. As academias não são para todos. Isto é dúbio, bem sei, mas entenda-o cada qual como quiser. E estou escrevendo e está-me lembrando a caricatura de Zola feita por Gilbert Martin: Zola vestido de mineiro, cachimbo, botas altas e lanterna, oferece o braço à Academia, uma vélha esganiçada e tôla, ao mesmo tempo que lhe pisa a cauda. É claro que a vélha escama-se e não dá o braço. E a propósito da Academia e de Zola há outra publicada na Silhouette: Zola, com os seus livros às costas, puxa o cordão da campainha da Academia. Puxa, quebra o cordão e a porta não se abre. Zola não entrou. Objectar-me-hão: mas queria entrar! Queria por estar a porta fechada para êle. Por teimosia, por pirraça. Se lá entrasse o mais certo era... vir embora.
Maupassant disse que três cousas desonravam um homem: a Academia, as condecorações e a Révue des deux mondes. Depois, passados muitos anos, prestes a morrer, escrevia na Révue, estava para entrar na Academia e creio que era condecorado. Ironias do Destino. ¿Quem sabe lá se eu um dia tambêm serei sócio da Academia? Tudo é possível. Então serei um velhote grave, ponderado, sério, terei óculos, um grande horror ao galicismo, um poucochinho de pancada na mola, e uma coleira ao pescoço com a chapa da casa. Todos êles teem. Pancada na mola e um bocadinho de imbecilidade. Vai daí, a Academia forneceu-lhes a chapa para os distinguir da outra gente, e para que as prendas se não percam.
Pois quando eu lá chegar, ia dizendo... Mas emquanto não chego, ¿os senhores dão-me licença que acenda um cigarrinho?...