O Carnaval
Eu não posso folhear atentamente a obra de Rafael Bordalo sem me demorar nessa página suprema, traçada num minuto de tédio e feita num instante de aborrecimento: A última máscara. A última máscara é, escusado dizê-lo, a máscara da Morte. Se a do feto é a primeira máscara, a da caveira é a última. A última máscara, de Rafael Bordalo, representa pois a caveira.
Esta vida são três dias, diz-se. Êsses três dias simbolizam as três idades. O Carnaval são três dias, que tantos são os da vida. Esta vida é pois um carnaval. Murger chamou-lhe uma «máscara de forçados» outros lhe teem chamado o que melhor lhes tem parecido. Não inquiramos. Assunto complexo, se se quiser explicar, traz consigo complexas deduções. E não há assunto mais complexo do que a Vida.
O carnaval que a gente vê, ou por outra que a gente viu, é bem pior do que aquele de que a gente se lembra e bem melhor do que aquele que se verá. O carnaval tende a desaparecer. A graça foliona, travêssa, doudejante, morreu. O que por aí anda é outra graça, uma graça que sorri nos intervalos de tosse e nos intervalos do riso mendiga dez-reisinhos.
Se não, é ver-se como a fôlha mais bem escrita do Carnaval é a de quarta-feira de cinzas, esta quarta-feira em que vos escrevo, satisfeitíssimo por ter visto as ruas despejadas de mendigos enfarinhados, mendigos pierrots, mendigos chechés, e mendicidades ambulantes, danças, paródias, filarmónicas e tutti quanti. Passou a época das tremoçadas. Chapéu alto que passava era penante dado ao criador. Ninguêm se aventurava a sair. Despejavam-se barricas de tremoço sôbre o desventurado que ia assim mais asseadinho.
Uma criatura saía. Á saída da porta levava logo com uma luva cheia de areia pela cara que ficava azul. Andava mais um minuto e era uma assuada. Cada minuto cada nova aventura. Algumas de que saía mal-ferido. Á hora de jantar, quando a criatura recolhia e se inventariava, via com desgôsto que o chapéu estava inconcertável. A farpela cheia de farinha, com um ovo feito em estrêla nas costas, seis farpões de rabos postos e arrancados. Um ôlho a menos. O colarinho zebrado com uma longa lista de pós de sapatos. A camisola cheia de areia, a guedelha cheia de farinha e as botas—ah! as botas!—cheias de lama—porque soe chover quási sempre pelas entrudadas,—e a chuva é o protesto do infinito.
Vejam lá hoje. Tantas são as leis publicadas sôbre o Carnaval que a gente se vê na absoluta necessidade de consultar um advogado sôbre se será prejudicial atirar uma serpentina.
O advogado consultado promete estudar. Estuda e apresenta a sua resposta quarta-feira de trevas, ao mesmo tempo que apresenta a conta da consulta. São pelo menos 2$500. Vejam lá se há cousa mais interessante.
Antigamente a criatura, depois de borrifada com urina, zurzida de tremoços, mascarrada de pós de sapatos, enfarinhada, maçada e enlameada, recolhia num bolo, mas alegre. E resumia para a família:—Aquilo é que foi divertir! Agora não. Sai de chapéu alto, escovada, correcta, exactamente como se fôsse para aquelas
recepções da embaixada
em que há uma duqueza que sorri, «tão branca, tão decotada» que até dá vontade de a gente resumir, ao recolher a casa:—Ai, filha, que papança, o que traduzido em vulgar quere dizer:—Ai, filha, que maçada!
Ah! o Carnaval civilizado! ¿Já viram maior pouca vergonha? Antigamente a gente não saía. Agora, sabendo que volta com o arranjinho como foi, sai. Sai, e volta abrindo a bôca, espreguiçando-se, moída, sem ânimo, farta de ouvir baboseiras e de ver misérias ambulantes. As ruas são tristes. Os bailes são quási macabros. As mascaradas são lúgubres:—¿O cavalheiro dá licença que eu lhe atire êste saquinho de bombons?—Pois não! ora essa! O cavalheiro atira. A gente guarda. Chegando a casa abre o saquinho. Não são tal bombons. São feijões, são tremoços, é grão de bico. Comentário—Que intrujice!
Se abstrairmos do Carnaval e volvermos os olhos misericordiosos sôbre esta mascarada em que todos entramos, uns mascarados de sinceros, outros de cínicos, uns vestidos de moços fidalgos, outros de moços de fretes, uns vestidos de archeiros, outros de par do reino, a desilusão resulta pior. Porque, bem considerando, tudo na vida é mascarada e tudo são máscaras. ¿Por que razão é que, tendo um homem nascido nu e entrado na morte como a mãe o depôz cá neste mundo, essa súcia inventou que um bocado de galão dourado pôsto num braço provoca um gesto de submissão, e pôsto num caixão nos faz pensar nas vaidades de todos os galões e de todos os gestos? ¿Por que razão é que quem «rouba um milhão é barão e quem rouba um pão é ladrão», como diz o poeta? Tudo se mudou. «¿Antigamente não eram os ladrões pregados nas cruzes e não se pregam agora as cruzes nos ladrões?» Fala certo Junqueiro:
E não estala um ai de dôr em cada peito.
E não submerge o monstro a cólera do mar,
E a terra continua em seu girar perfeito;
Ó Chimera, ó Tristeza, ó Justiça, ó Direito,
Providencia onde estás, que te quero insultar!
A indignação passa, a miséria fica. E para que há-de a gente considerar em tanta miséria?!
É fatal. Se a gente scisma e se ensimesma, pobre dominó sentimental! Dominó lunático, sonhador escarnecido! Se a gente ama, pobre tolo, que anda na lua. Se acredita, que assuada! se considera, que filósofo! E não há que scismar, que sonhar, que amar, que acreditar e que considerar. É deixar-se ir no vortilhão, como quem aborrecido vai na onda, empurrado, sem sentir os empurrões, escarnecido sem ouvir os escárneos, apupado sem ter ouvidos para os assobios. Em resumo: É a vida um baile de máscaras muito aborrecido. Entra-se julgando a gente divertir-se imenso, e, quando se chega a quarta-feira de cinza, encontra-se, depois de muita maçada, morta de aborrecimento e de tristeza com êsse dominó embuçado, misterioso, que tem um riso eterno e que é o porteiro da saída. Êsse dominó é a última máscara. É a ultima máscara que mudamos e é o último mascarado que encontramos. Como Rafael Bordalo deveria estar morto de tédio para fazer a síntese duma filosofia num quarto de papel—a síntese da filosofia do riso, porque o riso é uma filosofia em que sempre se acaba a chorar.
Mascarada! Mascarada eterna! Mascarada que veio através dos séculos até nós e de nós irá por êsses séculos sem fim. Mascarados que todos nós somos. Quando falamos mentimos, quando juramos mentimos. Quando tentamos falar verdade ainda mentimos, porque a verdade não é mais do que uma mentira menos mentirosa. E, senão, que nos mostrem algum amor que o seja, algum amigo que não falseie. O amor—uma Colombina e um pierrot—Mas livra-te de amar, porque serás o pierrot traído. A amizade—uma espada que se quebra ao sair da baínha para nos defender. E entre outras desilusões, de vez em quando passa por nós sorrindo a última máscara, de Rafael Bordalo.
Eu invejo os que se divertem. ¿Como serão feitas lá por dentro as criaturas que se divertem? Não sei, e creio que nunca ninguêm o saberá. Invejo-as, porque não sei se elas existem. Acho mesmo que as criaturas nessas condições estão em igualdade com a do feliz, que Manuel Bento de Sousa pôz em quadras. O sultão, para se restabelecer da sua grave enfermidade, precisava nem mais do que da camisa dum homem feliz. Embaixadas, expedições, o demónio e nada. O homem feliz não aparecia. Interrogados os súbditos dos seus estados, à uma todos responderam que não, que não eram felizes. Só um pobre, que puxava a uma nora e cantava, respondeu que sim. Êle possuia essa cousa tão rara como o amor e como a amizade. Êsse era feliz. Foi o pobre diabo amordaçado e conduzido sôbre um camelo à presença do régio doente. Era a cura. Mas logo que o despiram se verificou com espanto que êle,—o homem feliz,—nunca tivera camisa.
É bonita a história, ¿mas quem nos diz se não será mentira? ¡Sucedeu há tanto tempo e num país distante!
E com estas e outras histórias, umas cómicas, outras trágicas, se passa a crónica e a vida. E depois à saída do baile, lá espera o dominó fatal.
É por isso que eu me demoro, sempre que folheio a obra de Rafael Bordalo, nessa página que representa a última máscara.