A decadência do jornalismo em França
Um articulista parisiense, parisiense pela finura da sua expressão, pelo subtil da sua análise e sobretudo pela leveza scintilante da sua prosa, Ibels, acaba de declarar decadente o jornalismo francês. E vem, com uma santa ingenuidade, uma destas ingenuidades para medalha de ouro, e um espanto nada correcto, nem do mundo, dizer que o jornalismo francês decai porque o que lhe falta são jornalistas; porque os artigoleiros são muitos e os articulistas são poucos e porque finalmente êle é o eco de tôdas as chantages, o eco de tôdas as calúnias, o gramofone de tôdas as mentiras e o acusador de tôdas as reputações. E, indignado, prossegue: «O periódico moderno pratica a medicina ilegal, recomenda venenos, serve de intermediário entre donas de casas suspeitas e jovens de menor idade. Insere e entretêm a correspondência amorosa e adúltera e vai mais longe, publicando um boletim financeiro em que milhares de môscas caem prisioneiras vendendo os seus títulos porque acreditam na sinceridade do periódico que lêem». E diz mais, que isto, que aquilo, resumindo que é tudo uma pouca vergonha desaforada. A propósito, para não perder pitada, ferra uma tunda no Le Matin, que na sua opinião é um intrujão que já de há muito deveria ter a redacção instalada numa das celas da Penitenciária de lá.
Eu não conheço Ibels. As suas conclusões parecem-me acertadas. Mas o que acho interessante são os seus espantos. Admira-se. Admirar-se a gente é mau sinal. O Eclesiastes tinha dito que nada de novo há debaixo do sol. Ora a pouca vergonha é mais velha do que o Eclesiastes. É talvez mais vélha do que o sol. Mais vélha do que o sol, do que os deuses, do que a terra e do que tudo quanto existe. A pouca vergonha é eterna. Não tinha pois de que se admirar. Eu é que me admiro (oh, santa incoerência!) do seu espanto.
A decadência do jornalismo em França vem de longe. Balzac já lhe estudou as causas nas Ilusões Perdidas. E caso curioso, nas Ilusões havia tambêm um Luciano que se admirava. O articulista de agora é o Luciano de ontem. Está escrito: «Hão de existir Lucianos em todos os tempos!»...
Quem quiser saber destas cousas sem o tom acre de censura e lamento que perfuma o artigo de Ibels, antes com o tom risonho de quem está muito à sua vontade—como quem está em sua casa, por exemplo—deve ler um curioso artigo em tempos publicado na imprensa espanhola. Chama-se Esplendores y miserias del periodismo. Assina-o Gomez Carrillo, cronista do Liberal, creio eu, literato de Espanha vivendo em Paris e artista urbi et orbi onde vá a língua de Quichote ou a respectiva tradução. Aí é que se diz tudo! Tudo e ainda mais o que disse Paul Pottier, homem lido e sabedor.—Ora diz Carrillo, e escreveu Paul Pottier, que «para 600 empregos no jornalismo há 3.000 jornalistas». ¡E se êles, todos êsses pobres concorrentes, soubessem o que os espera! Uma vida sugante e angustiosa. Nem horas de comer. Dormir incerto. São os cavalos de posta da notícia. É preciso lutar, lutar sempre. O que chega a Paris cheio de vontade leva um dêstes abanões que quási o deitam a terra. O jornalismo é uma luta. Não há jornalistas, há cavalos de corrida. ¿Qual dará o artigo, a notícia, o comentário mais desenvolvido, mais agaçante de pormenores, mais chorudo de minudências, mais dramatizado de bagatelas? O público quere. O público aguarda. Quere cousas novas, cousas inéditas, cousas imprevistas. Um assassínio? Isso é vélho. É preciso achar novo. Não há? inventa-se. Saber inventar, eis a questão em ocasiões difíceis.
Ao cabo de três anos num logar subalterno, tendo dado tudo o que trazia na cabeça, tendo gasto todos os seus nervos, puido tôda a sua vontade, sem nada no estômago porque se alimentou mal e irregularmente, com uma neurastenia aos ombros e o vácuo no cérebro, a criatura é corrida a pontapé do jornal e vai direitinha a um manicómio onde nunca mais a endireitam.
Os grandes jornais baixam as suas tarifas de pagamento. Quási todos desceram a linha a 15 cêntimos, com excepção de Le Temps que paga 30, Le Figaro que dá 25 e Le Gaulois e Gil Blas que não dão mais do que 20. É certo que Catulle Mendés cobrava de Le Journal quarenta mil francos anuais, sejam sete contos e tal. Mas Le Figaro, que ontem dava a Huret 2:000 francos, não dá hoje a Serge Basset pelos teatros senão 1:000.
Harduin no Le Matin recebe 1:500 francos, com obrigação de escrever todos os dias um minúsculo artigo. Sarcey recebia de Le Temps 1:000 francos mensais pelos seus artigos. Octave Mirbeau e Severine, que no Le Petit Parisien recebiam importantes honorários, foram dispensados da sua colaboração. E os contos que Fernand Xau pagava a 300, 250 e 150 francos baixaram a 25, e últimamente a 15 francos. E isto em jornais que tiram milhões de exemplares.
Os nomes cotados fazem-se pagar bem. Porêm para os que veem sem nome, para êsses, o caminho da imprensa é um calvário. São recebidos com duas pedras na mão; exactamente como no tempo em que Luciano queria o logar de redactor no periódico que tinha por Cerbero o vélho militar. E devemo-nos lembrar de que todos os citados são os bem pagos: os da fôrça de Mirbeau, por exemplo, que só com um artigo fêz o nome a Maeterlinck...
Considerai o que não será agora nos subalternos?!...
Um escritor que viva de escrever e que tenha já uma pequena voga vê-se obrigado a rebentar com trabalho para cobrar um estipêndio rasoável. As revistas não lhe publicam um artigo senão de três em três meses pelo menos, para não repetirem o nome do colaborador; os grandes jornais, de que êle vive, baixam-lhe dia a dia a tarifa. Os artigos reunidos em livro dão uma bagatela. Os livros que são enviados ao periódico, para criticar, vendidos e regateados não dão para o alfaiate. De maneira que a criatura vê-se e deseja-se.
Isto é tendo certo nome, porque de contrário nem as revistas lhe aceitam artigos, nem os grandes jornais lhe abrem a porta, nem os livros lhe chegam à mão.
E a tanto chega o descaramento que Magnier, senador, que largos anos possuiu L’Evenement, dizia aos seus redactores: «O que preferem os senhores? ¿Que lhes marque um ordenado de 500 francos por mês e não o pague ou que lhes dê 250 para os pagar?»
Quer o redactor aceitasse uma ou outra proposta, sabido era que não via cinco réis. E a maneira de alguma cousa receber era negociar com êle uma parte da página dos anúncios. Se não andava depressa na cobrança ficava sem real, porque o director mandava tambêm cobrar. E quantas vezes o redactor ao chegar não soube que os anúncios já estavam pagos...
Êste Magnier era caloteiro contumaz. Conta-se que Aurelien Scholl, a quem êle devia certa soma e não tinha maneira de a receber, uma ocasião ao ver passar o seu trem correu para êle, desprendeu os cavalos e foi vendê-los ao Tattersall. Foi uma inspiração divina. Senão podia dizer adeus ao débito.
A imprensa francesa explora o escândalo, explora o público, explora todo o explorável. Até aqui muito bem! Que há nisto de estranho? ¿Pois não é natural que meio mundo explore a outra metade? E Ibels, indignado, cita o Panamá, cita mil casos em que o «periodismo» tem sido nefasto. E deixa, o maroto, ficar no tinteiro a questão Dreyfus.
O jornalismo tem bons e maus. Que êle esteja decadente, não acredito. Êle é o reflexo do seu tempo. Exigir jornais sãos numa sociedade podre parece-me exigir de mais. De acôrdo que os maus sejam mais do que os bons! Mas isso que importa? Se às vezes um jornal só, um homem com uma pena na mão, fica nos séculos, sobreleva acima de tôda essa podridão, de todo êsse enxurro, de tôda essa vaza, cujo mau cheiro só o tempo purificará?!
Que importa, se um brado de Justiça vale mais do que uma multidão berrando, e se um jornalista de consciência vale mais, tem por si só mais fôrça do que um grande exército?!...
Que o jornalismo está decadente? Embora. Êle é ainda a árvore onde de tempos a tempos se empoleira uma criatura para dizer que o manto, o celebrado manto de el-rei da fábula não passa duma hipocrisia ou duma cegueira.