O Tempo
Representavam os antigos, o Tempo por um velhote de barba branca... Não é com isto positivamente que eu queria começar. O Tempo era um jornal de José Dias Ferreira, e Tempo se chama um jornal inglês de que os inglêses dizem que é o maior do mundo. Será. Mas para bem informar os leitores cumpre-me dizer-lhes que se é ou não, não sei. Nunca o li. À uma, dizem que é muito maçador, muito grave, tão grave que até parece feito por juízes do Supremo; à outra, eu não sei o inglês. Talvez isto pareça ignorância. Pois não é. Aí está o Marquês de Pombal, que, vivendo um ror de anos em Inglaterra, nunca passou do Yes, do artigo The e dos verbos to be e to have.
Mas do Tempo diz o Padre António Vieira que «tudo cura, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba». Não há soberano que tanto poder tenha como êle. A própria Morte é da sua côrte e sua subalterna. «Nada se faz sem tempo», diz-se. Tudo o tempo acaba, direi. Assim, temos, que o tempo faz e desfaz, cria e destrói, forma e arruína. As fortunas gastam-se, a formosura envelhece, a sorte muda, os anos passam, os dias voam e a morte chega. As flores murcham, as ilusões caem, as esperanças dissipam-se, os amores esquecem e de tudo só ficou o Tempo, sombra de tempo, memória de tempo, que até a própria memória o tempo apaga e confunde!
A sabedoria de Salomão, a bondade de Cristo, a dignidade de Catão, a valentia de Cesar e o amor de Jacob, são do tempo. O tempo é que as lembra, o tempo é que as esquece. O tempo é o maior amigo, o tempo é o maior inimigo. Porque se tudo traz, tudo leva; porque se tudo aproxima, tudo afasta; porque se tudo nos dá, tudo nos tira.
Ama-se uma mulher que nos ama. O tempo passa e em breve a sua beleza será fealdade; a sua mocidade será velhice. Culpa de quem? Do tempo. Ama-se uma mulher que nos despreza. Em breve o tempo levará os seus adoradores e transformará as suas faces em rugas e os seus beijos em flores sêcas. O tempo nos trouxe o castigo, o tempo nos deu satisfação. As rosas murcham, e não há grande obra que não esqueça.
Invejas para quê? Ódios para quê? «Sic transit gloria mundi». Oh quão passageira e falsa é a glória do mundo! ¿Quem se recorda hoje do segundo ministro dum rei de há três séculos—um cargo tão invejado!—e do general favorito de Breno—um cargo tão merecido? Quem? Quem hoje lê os vélhos? Quem hoje os aprecia? Vélhos, sombras do que foram. O tempo é velhice e Morte. Mas consolemo-nos. O meu vizinho, homem célebre, tambêm há-de morrer e ser esquecido como eu. Todos serão esquecidos. E se a alguns parece escolher o tempo, deixai. Dai o tempo ao tempo. Êle os esquecerá....
Ora, sendo o tempo uma cousa tão preciosa que cumpria não esperdiçar, antes conservar avara e egoístamente, roubar tempo é um crime, alêm de ser roubo. Os inglêses, dizem que tempo é dinheiro. Eu direi que roubá-lo é uma grande pouca vergonha, digna de muito cacete ou de fôrca, se quiserem. Não há país onde se roube tempo como em Portugal. Em Portugal, país do Amanhã, não há a noção do tempo. Ninguêm sabe o que seja pontualidade. Prometer e cumprir caso é de estranhar, agora prometer e faltar é caso trivial. Senão vejam os senhores em tudo e por tudo. Faz-se um pedido, qual é a resposta? Deixe para amanhã. Procura-se um devedor; amanhã paga. Pede-se fiado: «Hoje não se fia; amanhã sim». Tudo é amanhã, tudo é no outro dia, um amanhã que nunca chega e que só é pretexto para nos extorquir tempo e paciência.
¿Os senhores nunca foram registar uma carta ao correio geral? Pois vão, mas vão com pressa. Isso é que é pândego! Uma pessoa chega: há 15 pessoas agarra-das a um postiguinho muito pequenino, um daqueles postigos que através da distância de quinze pessoas só se vê por óculo. A gente chega e sossega. Póde sossegar à vontade. Ainda agora chegou. Se dá mostras de impaciência, o que está à frente abespinha-se e redargúi: «¿Que está o cavalheiro a fungar? Há uma hora estou cá eu». E a gente curva-se. Passa a olhar o sujeito respeitosamente. Caramba! «uma hora!» E tudo são cogitações. ¿Mas não há quem nos atenda? ¿Não há quem nos despache? Há sim, senhores. Há um tipo que está lá ao fundo chupando uma beatazinha, mãos nas algibeiras e dizendo, para outro matuto sorna como êle: «O cházinho era delicioso! E então os bolos. Os bolos, menino!...»
«Eu estou aqui há duas horas!» diz um escanifrado que agita uma carta. «Espere se quiser, diz o dos bolos. Há muito mais tempo estou eu cá e não faço tanta chiada!»
¿Os senhores nunca foram pagar a décima? Não foram? Felicito-os.
Pagar a décima é tambêm uma cousa divertida, para quem não é cardíaco, nem tem aneurisma nenhum. Eu fui uma ocasião, mas à cautela levei lunch, um couvre-pieds e um romance para ler. Não foram prevenções inúteis. Fui para lá ao amanhecer e havia candieiros acesos. Li o romance todo e comi até as migalhas do lunch. Comeria outro, se o levasse ou não receiasse perder o logar. Porque aquilo é à vez. Uma pessoa, munida do competente papel intimativo e do dinheiro para a ressalva, apresenta-se. Quando chega, há já uma linha de pessoas que vem até à rua. Umas ficaram de véspera, outras foram ainda de noite e as que foram assim quando os galos cantam e a aurora rompe, já encontraram três dúzias delas à espera. Outras vão chegando,—já se sabe, o competente farnel, o cobertor e o livreco—e tomam logar. Ás onze e meia—a repartição abre às 10—chega o garimpo que varre a casa. E é um tropel de gente que se empurra, que toma logar, que se instala. Neste apertão é vulgar perder a carteira ou ficar com um calo esborrachado. Mas tudo vai bem. A gente sentou-se, apara a paciência, abre o livro. Meio dia. Entra o pastinha. Depois entra o outro, depois o recebedor. São as feras. Há uma grade entre elas e o público, e um postiguinho, por onde a gente lhe mete a massa, que é como quem diz o sustento.
Começa a chamada. O patife parece que está a entoar cantochão. Vem ainda estremunhado. Entretanto os que não levaram livro vão contando a vida aos vizinhos. «Eu moro na rua da Ametade. O meu nome é Simão. O meu pai é timbaleiro. Minha mãe era parteira...» Ah!... O meu vizinho ressona de assobio. Um velhote quere dormir mas a conversa dos dois grulhas não o deixa pegar no sono. Bem: ainda há 44 adiante de mim. Eu volto à leitura. «José Ferreira Casmurro!» Pronto, diz o outro. É a chamada que continua. E os outros pensam: «Aquilo é que é um Casmurro com sorte». Ah! quanto falta para lá chegar?!
Aqueles bandidos não teem nenhuma pressa. Vão tranqùilamente zombando do tempo e da paciência dos outros. Passa uma hora, passam duas, passam três. Ao meu lado havia um petiz de ano e meio que mamava como um danado na têta da mãe, quando eu entrei. Quando se chega quási à minha altura alguêm do lado toca-me no ombro. Volto-me. É o petiz que interroga e pede: «¿O cavalheiro não tem por aí um cigarrinho que me dê?» Como êle cresceu, o brejeiro!
Emfim, na rua! Caramba, mas é de noite! Como o tempo passa! E aquilo lá dentro continua. Uff!
Quem diz registos e décimas diz tudo. «Olhe, venha amanhã! Olhe, espere! Se tem pressa, vá andando». Emfim é um nunca acabar. O que se resolveria em qualquer parte num quarto de hora, em Portugal leva um dia, uma semana, um mês, um ano, uma eternidade. Isto é o país das eternidades. Primeiro que as cousas cheguem...
Eu jogo não sei há quanto tempo com uma cautela de três na lotaria. Sempre o mesmo número. Pois para verem como Portugal é o país do amanhã, só lhes direi que é rara a lotaria em que a cautela me não sai branca. Ora não sei se os senhores estão a ver que se fôsse em qualquer outra parte já me teria saído a sorte grande...
Mas o que me consola é que o tempo virá e acabará com o meu dinheiro, com a minha vida, com o número em que jogo, com a grande, com a lotaria, com a Santa Casa e até com a lembrança de tudo isto.
E não sei se os senhores estão a ver que isso será uma felicidade...