Oriente
O trabalho é afinal uma cousa consoladora. Talvez a única felicidade que a vida tem. Trabalhar, trabalhar muito, o trabalho tornado ideia fixa, sem dar logar a outras ideias, sem dar logar ao sonho, sem deixar que a Fantasia arquitecte os seus castelos dourados em douradas bolas de sabão! Invejo os que assim trabalham. Zola invejava o trabalho rude dos operários. Ser marceneiro, ser carpinteiro, chegar a noite, ter a sua cadeira ou a sua cómoda pronta, e descansar! Todavia Zola era como poucos um trabalhador.
Lembro-me de Zola sempre que olho para a estante da minha livraria, onde se enfileira a obra vasta de Blasco Ibáñez. Eu, algures, já lhe chamei o Zola da Espanha. Cada vez que vejo a sua obra me convenço mais de que não errei. Sómente Zola era um rude e esforçado trabalhador, vindo ainda com um plano que nada conseguiu fazer mudar e, à semelhança de Balzac, pondo-o em prática numa série interminável de volumes. Blasco não. É um Zola sem plano. Talento robusto e pasmoso, não tem de Zola a testarudez orientadora nem o gigantesco e sintético sôpro insuflador. Mas para Zola espanhol está bem. Um admirável e correntio estilo, uma ironia às vezes contundente, amável outras vezes e sobretudo um poder pictural assombroso. Colorista intenso são verdadeiramente zolaescas as suas descrições. E até no aspecto humano se parece com Zola. Como Zola êle é um homem de bons músculos, nervos sólidos e uma pertinácia que chega a assombrar.
Vem isto a propósito do novo livro de Blasco. Intitula-se Oriente e é a reunião de crónicas suas publicadas em jornais espanhóis e sul-americanos. Tem êste volume na sua obra um número bastante elevado. No seu género é porêm o segundo ou terceiro. Blasco tem um livro adorável que intitulou Nel pais del arte e o Paris, reunião de artigos. O primeiro da sua viagem à Itália, crónicas maravilhosas de leveza e de transparência; o segundo das suas impressões da capital do universo, como os franceses pomposamente chamam à sua feia cidade. Êste, são impressões da sua estada em Vichy, estação de água célebre, e da sua visita ao Oriente das mil e uma noites, das princesas encantadas, das mulheres de véu na cara, dos serralhos, dos rajás, dos sultões, onde há sublimes portas e séquitos maravilhosos, pedrarias, lendas, desconhecidas floras, mulheres desconhecidas, sensações nunca experimentadas. É por isso que dentro da alma de cada artista uma mulher velada se debruça segredando-lhe—Ao Oriente! Ao Oriente! O Oriente é o desconhecido, será sempre o desconhecido.
Leiam-se embora tôdas as descrições desde as Cartas que os padres jesuitas escreveram do Japão no ano..., e das Peregrinações de Fernão Mendes Pinto até aos mais recentes trabalhos; leiam-se os autores franceses e inglêses que se esforçam por mostrar-nos o Oriente scientífica, artística e mentirosamente; leia-se tudo, leiam tudo o que quiserem, que sempre êsse desejo lhes empeçonhará a existência. Quem não foi a Paris anseia por ir lá. Depois quere ir mais longe. Mas emquanto não foi, Paris é tudo. Há criaturas debruçadas sôbre esta palavra: Paris, a Babilónia, onde a Arte é grande, onde tudo é grande, porque tudo é grande na fantasia. A cidade enorme, onde há esplêndidas mulheres, equipagens faustuosíssimas, nababos, banqueiros, artistas ante os quais o mundo inteiro boquiabre a sua admiração. Porque a criatura que sonha não sonha que as esplêndidas mulheres são ambiciosas vulgares onde só a toilette é alguêm, que as equipagens conheceram e conhecerão múltiplos donos, que os nababos são às vezes postiços, que os banqueiros são quási sempre escrocs, e que os artistas são sempre uns pobres diabos que se matam, que se arruinam, que se gastam a correr atraz duma quimera que com êles se encafua quási sempre dentro do caixão de chumbo ou de casquinha que os leva direitinhos, com a guia de marcha para a Imortalidade, a dormir no Père-Lachaise.
Ao Oriente! Ao Oriente! Chateaubriand foi ao Oriente. Foi lá tambêm Flaubert. Foi lá Maxime du Camp. Gomez Carrillo então quintessencia o maravilhoso nas suas impressões da viagem encantada—blagueur eterno, mixto risonho de fanfarrão espanhol e jornalista parisiense. Já Amicis, êsse Amicis, ultimamente morto, traçara as páginas adoráveis da Constantinopla. Pierre Loti então, postiço, sonhador e desdenhoso, contava as cousas com um ar de quem tinha o Oriente na algibeira. E para dizer que tinha, fizera da loucura realidade. Os seus salões eram orientais. E se alguêm duvidava, êle, correcto oficial de marinha, ciceronando, mostrava um Pierre Loti vestido de Buda, um Pierre Loti vestido de bonzo, ora hierático, ora pontifical, ora mandarinado, ora em uma cabaia de vulgar mortal.
Blasco Ibáñez escutou tambêm a mulher velada.
Tinha lido alêm de tudo isto aquele imortal louco que se chamou Julio Verne. Acreditava pois em maravilhas. Foi, viu e escreveu um livro, o que é uma linda vingança. Antigamente dizia-se chegou, viu e venceu. Daqui os amorudos lamechas fizeram o incomparável—chegar, ver e ser vencido. Isto é de molde dizer-se de joelho em terra, a mão no peito e assim um certo ar patético. Assim um certo ar bironiano, como se o pobre lord tivesse que ver com estas tolices. O escritor, porêm, lê, acredita, faz as malas, compra o bilhete, vai, roubam-no descaradamente em tôda a parte, é comido de percevejos cosmopolitas, percevejos que, tendo vindo da Cochinchina no couvre-pieds dum inglês, embarcam no outro dia na manta de viagem dum tirolês, encontra por tôda a parte caminhos de ferro, patifes, estradas reais intransitáveis, uma ignorância pasmosa e um fedor humano?! Que faz para se vingar? Puxa da caneta, uma caneta com depósito de tinta, puxa dos linguados e zás—sai livro. Em logar de contar o que passou, o que sofreu, as suas aventuras e os seus arrependimentos, as saudades que teve da sua casota e as vezes que torceu a orelha e ela não deitou sangue, não senhor! Conta cousas maravilhosas, fantasia, intruja e passa a balela aos outros. De tudo isto resulta um pouco: que todos os livros de viagem se parecem, exactamente como as cartas de amor, cujo fundo amoroso passional e estilístico está nesse livro de génio que se chama o Secretário dos amantes, tão genial que devia ser obrigatório, e que se não existisse se tornaria patriótico inventá-lo; e que as viagens me são extremamente aborrecidas, com o que ninguêm tem absolutamente nada.
Se o Oriente não trouxesse a etiqueta de Vicente Blasco Ibáñez, eu diria encolhendo os ombros e parodiando o verso célebre de Espronceda: «que haya un libro más que importa al mundo!» Mas não. Tive que o ler, e declaro que não perdi o tempo. O Oriente é curiosamente interessante, e interessantemente curioso. Há nele de tudo. Descrições maravilhosas, ironia fácil, graça, e de vez em quando até gravidade, uma gravidade nada protocolária, porque eu não sei o que isso seja em Espanha, quando me lembro da Marcha da Cadiz e do Morrongo.
Publicado primitivamente em crónicas, recolhidas agora em volume, êste livro nada destôa da obra de Blasco, mesmo se dissermos que Blasco é autor de livros maravilhosos como La Horda, Entre naranjos, Flor de Mayo e outros. E que, alêm disso, está horrorosamente traduzido em tôdas as línguas, como o Máximo Gorki, de quem um entendido me dizia outro dia: «Gorki é um mártir. Imagine que êle, escrevendo em russo, tem sido traduzido em tôdas as línguas e dialectos por aí abaixo». É assim uma cousa parecida com uma história contada aqui e que mil bôcas fôssem passando umas às outras até Alcântara. Cada uma tinha dado um átomo da sua originalidade. Tinha ido substituindo ou transformando. ¿Pois não é uma lei que «na natureza nada se perde, tudo se transforma»? Quando chegou a Alcântara a história está tôda transformada. Deixou de ser do seu inventor para ser duma sociedade anónima. Tal qual Gorki. «O Gorki em russo, diz o meu interlocutor, parece-se tanto com o que aí conhecemos, que foi traduzido do espanhol para onde havia vindo do francês e assim por diante, como uma galinha se parece com uma espada, para não dizer um ôvo com um espêto».
O Oriente deslumbrou Blasco. Foi, viu e publicou o seu livro. Acho bem. Acho bem, tanto mais que deu aos seus 20:000 ou não sei quantos leitores o prazer de ler um livro adorável e desenfastiadamente escrito, que nos põe bem com a arte e com as viagens.
E agora, que fechei o livro e me preparo para fechar a crónica, sempre lhes direi que o trabalho é uma cousa consoladora. Eu penso assim. O meu vizinho,—todo o cronista tem um vizinho pensador ou pensativo,—pensa que o trabalho é bom para preto. Não importa. Eu penso que o trabalho ainda nos põe bem com a vida e que, se assim não fôsse, eu não teria ido ao Oriente em espírito, não teria lido um livro magnífico e não teria gostosamente esportulado os seis tostões que me custou o livro de Blasco.