Um poema
(Carta ao general Henrique das Neves)
Meu amigo:
Já lá vai mês e meio de silêncio sôbre o recebimento do poema Apoteose Humana, que o meu amigo teve a gentileza de me ofertar em nome do autor. Só hoje lhe escrevo, mas lá diz o ditado... O amigo sabe o que o ditado diz. Pediu-me a minha opinião. Sem embargo dela ser uma opinião a pé, uma opinião infantaria, pacata, modesta e de bons costumes, vou dar-lha. Sou pouco amigo de dar, mas emfim...
Eu podia dizer-lhe cousas muito lisongeiras do poema do seu amigo. Podia dizer-lhe mesmo que ambos eram talentosos, modestos, bem criados, que recolhiam a horas, não fumavam, etc., etc. Mas não. Prefiro dizer-lhe abertamente o que penso, brutalmente, sem transigências nem banalidades. Portanto o que aí vai é rude, com a rudeza dum homem que não precisa para nada dos seus confrades em letras, consagrados, e não consagrados, e que vive «achando a quàsi todos os deuses pés de barro, ventre de gibóia a quàsi todos os homens e a quàsi todos os tribunais portas travessas» como já nos Gatos escrevia Fialho.
Bem se vê que o seu poeta, o sr. M. Joaquim Dias, nunca saiu do Faial. Se saisse não fazia poemas a uma cousa que não conhece senão em teoria:—O Homem. Mantegazza, que o estudou a fundo, sabe o que êle é; eu que lido com êle, ha muito sei o que êle vale. O que lhe digo em verdade é que êle nunca mereceu os versos do seu amigo.
O poeta julga o Homem pelos livros. Livros são, quàsi sempre, gramofones de ideias. Deixe-os cantar. Valia-lhe mais um ano de viagens do que ler todos os livros que tratam do Homem. É o seu amigo, médico? É teólogo? É psicólogo? É legista? Só assim se compreendia que êle conhecesse o assunto do seu poema. Porque o médico conhece o homem em tôda a sua miséria; o teólogo em tôda a sua estupidez; o legista em tôda a sua maldade, e o psicólogo em tudo isto junto. Mas o seu amigo é sómente poeta? Poeta, nada mais? Sim, isso vê-se logo. Poeta é sonhador. Os poetas teem ideias muito diversas de todos os outros mortais. São poetas e basta.
Pediu-me uma carta. A carta aqui vai. Se lha não envio particular, pelo correio, é porque receio que lhe introduzam algum décimo da lotaria espanhola e o amigo sofra transtornos por minha causa. Mais nada.
Logo no prefácio diz o seu poeta: «...Fiz, pois, uma apoteose ao Homem, a êsse ser que triunfou nas lutas terríveis do passado, que compreende os fenómenos e as leis e progride». Ora eu não admiro o Homem. Se algum sentimento tenho por êle ou é desconfiança ou desprêzo.
Deus, criando o homem à sua imagem e semelhança, foi um escultor bem medíocre. E pode limpar a mão à parede, se é essa a suprema manifestação do seu génio. Depois, maravilhosa forma de reclamo, deu às criaturas o poder de reproduzirem infinitamente a sua obra prima.
Ora diga-me, meu caro amigo: ¿Em que devemos admirar essa obra, essa vil e miserável máquina de ossos, nervos, músculos e tendões? ¿Que criou, que inventou ela de produtivo? ¿Inventou a dinamite, a melinite, a himalaíte? ¿Canhões que arrasam cidades, projécteis cataclísmicos, blindagens pavorosas? ¿E isso que vale? ¿Inventou os deuses, os reis, as religiões, os ritos e os dogmas? ¿E isso para que serve?
Antigamente, nos tempos primitivos, o Homem trocava um machado de pedra pela pele dum urso. Agora troca a mesma pele por umas pequenas rodelas de ouro, de prata ou de cobre, com uns números, a que chamou dinheiro, que são tudo, valem tudo e tudo podem.
Antigamente não pagava décimas, nem contribuições, nem impostos. Era senhorio da sua caverna e não necessitava de tomar óleo de fígado de bacalhau. Não tinha botas, mas não sofria dos calos. Com a invenção das botas vieram os calos, e com os calos o rifão que diz «quem tem calos não vai a apertos». Parece que o general vae concordando? Apenas falei em calos, pareceu-me ouvir dizer o meu amigo: «Diga-me cá a mim o que isso é!»
A mulher era nua e mentirosa. O homem era quási urso, porque o urso era quási homem. Ainda não havia médicos, nem boticas, nem literatos, e a poesia, meu caro amigo, tinha muito menos pau de campeche. O ar era de todos, a terra de todos era e cada um fazia o que muito bem queria. Depois é que veio essa pouca vergonha de arregimentar a gente, sob o nome de famílias, tríbus, nações, etc., que fêz com que viesse a praga dos chefes, chefes e mandões de tôdas as castas e feitios, qual deles mais nocivo e funesto: chefes de família, chefes de repartição, chefes de polícia, chefes de estado e até generais, meu caro amigo.
Os enterros eram todos iguais. Não havia enterros de primeira classe. Desconhecia-se o espartilho, a sobrecasaca, o chapéu alto, e as vantagens do algodão, que impinge por boa mulher o arenque mais chupado. Veja lá que temposinho!
Se os povos estavam em guerra era tareia bruta, mòcada de criar bicho. Mas não metia tiros. Era tudo a cacete. Ainda se não tinha inventado a metralhadora, o leque da Morte, nem a baioneta, uma navalha que por não se poder trazer na algibeira do fato, se traz pendurada à cinta, numa algibeira de lata.
Os deuses eram muitos, mas todos súcios, todos pândegos. E apesar de não haver jornais, todos sabiam perfeitamente o que se fazia no Olimpo. Se chovia é que Baco se empiteirara e que o vinho era branco,—que é bebida diurética. Vá vendo!
Caminhamos pois da liberdade para a servidão. ¿Onde está êsse progresso de que fala o seu poeta? Se êle me quere impingir que progredimos, porque mais isto, mais aquilo... temos conversado!
Quere um exemplo? ¿O general não padece de apertos de uretra? Ora suponha que padecia. Se fôsse no tal tempo vertia onde muito bem desejava, que ninguêm tinha nada com isso. Mas nestes tempos de progresso, vá o general fazer isso na rua, e verá o que lhe sucede. São dez tostões de multa. Vá vendo que progresso tão catita!
Mas que o progresso é indubitável... sim... não digo que não. Veja lá se nos tempos em que o homem se cobria de peles podia haver gatunos de carteiras! Isso podia êle. Ainda não havia bolsos! E se antes de se inventarem as casacas se corria perigo de confundir um criado de mesa com um conselheiro de estado!
Eu embirro com o meu semelhante. É, por via de regra, cínico, trapaceiro, mentiroso e velhaco. Li algures que êle era meu irmão... em Cristo. Deve ser intrujice, porque eu não conheço Cristo nem seu irmão.
Quando me estende a mão lá tem a sua fisgada. E eu desconfio logo que, se já me não embarrilou, está para me embarrilar.
Nestes tempos de progresso, tenho pena de não ser troglodita. Teria tudo que não tenho e sobejar-me-ia muito do que tenho. Seria feliz. Dir-me-há o general que hoje se sabe. ¿Mas que diabo de felicidade dá o saber que êles foram muito mais felizes do que nós? Olhe que saber alguêm feliz faz sangue mau. ¿E pode por acaso ser-se feliz, hoje? Não. E então podia.
Aí tem. Antigamente havia liberdade. A de hoje é só poética. O homem de hoje é um escravo e a sua carta de alforria é a morte. Se o general contesta lembro-lhe se não tem por desventura alguma décima relaxada. Não tem? Não tem, mas pode ter.
Como vê, não concordo com o tema da Apoteose Humana. Êle é de tal ordem que, se o poeta não merece que o general lhe dê oito dias de detenção, tambêm não é caso para louvor na ordem do dia.
Eu não concordo. Sou novo e conheço já um número avultadíssimo de patifes. O general é velho, deve conhecer muitos mais. O diabo então, que é velhíssimo, deve conhecer um pavor deles.
Já vai longa esta. Eu não sou maçador de profissão e já me ia tornando impertinente.
Desculpe-me e creia-me
um soldado raso de letras, bastante
insurreccionado.