Gabriéllo d’Annunzio
Mão carinhosa e amiga manda-me de longe a última tragédia de Gabriéllo d’Annunzio. A edição é luxuosa e o livro chama-se La Nave.
Exactamente no momento em que o correio me bate á porta, leio eu Fradique Mendes na sua Correspondência. Não sei que destino mau nos pôs frente a frente de novo. Os livros são conhecidos vélhos e tambêm entre os livros, como entre os conhecidos, há íntimos. Pois encontrei-me de novo com Fradique aquela manhã em que dava uma volta pelas estantes, como se Fradique viesse Chiado acima, neurastenizado e aborrecido e eu lhe propuzesse uma cházada em comum. Devo declarar porêm, que Fradique não é meu íntimo. Fradique é um aristocrata, snob um pouco, e muito pretencioso. É tambêm um vencido da vida que se dá ares, mas confesso-lhes, prefiro aos vencidos os vencedores. Ia eu exactamente quando Fradique se revolta contra as «ideias feitas,» fala daquelle Cornuski, ou que o pareça, e diz das angústias críticas do russo. Diante das mais belas obras, Cornuski sentia a dúvida que o minava. ¿Não seria êle que não sabia ver? ¿Pois era lá possível que todos se tivessem enganado? E duvidando, achando as grandes obras sofríveis borracheiras, ou quando muito toleráveis banalidades, o desgraçado repetia para aturdir-se um pouco:—«Como é belo!»
Agora estou eu assim diante do livro do escritor italiano. Eu não tenho paixão por d’Annunzio.
Acho-o cabotino até ao infinito. O seu cabotinismo não se pode medir. O seu talento êsse sim. E duvido. ¿Será d’Annunzio o grande escritor que eu ouço dizer a todos? Debalde busco as suas obras, debalde leio os seus livros. Que demónio! Não me admiro, não me comovo, não rio, não choro, não sinto. Sim, porque nenhum dos livros de d’Annunzio nunca me fêz chorar ou me fêz sentir. São bem feitos, não resta dúvida. Mas que diabo! E dão-me ganas de o correr das minhas estantes. Desconfio muito que seja um intrujão.
D’Annunzio é para mim um belo decorador. A sua arte é scenografia pura. Há sempre flores e perfumes nas suas páginas. O lilaz é talvez a sua flor preferida. O poente a sua hora predilecta. Os seus heróis não amam, lirizam. Os seus personagens não falam, murmuram; não sentem, representam. E, para que ocultá-lo, apesar da sensualidade capitosa que os inunda, iria apostar que são todos castrados.
Para d’Annunzio o amar é assim como que uma oração, como que uma doce e suave embriaguez. Não é a rajada que passa, dominadora e perturbante, não é um cataclismo, não é uma tempestade. Não é. O amor nele é leve, muito leve, imaterial, bizantino e todo espiritualizado. Há sempre luar e sempre músicas celestes vibram psicologias profundas.
Mas eu leio d’Annunzio. Leio-o mesmo muitas vezes para ver se o percebo. E no meu espírito fica uma impressão muito vaga de tudo aquilo, muito vaga e muito dolorosa. Porque, decididamente, não tenho olhos para ver aquelas belezas tôdas e o meu espírito não pode, sem Bœdecker, penetrar naquelas regiões encantadas da prosa.
Um livro há que eu guardo, que leio com prazer e tenho como óptimo. É o seu Episcopo & C.ª e os seus contos. Êsses sim. Ponho-o a par dos deliciosos de Guy de Maupassant. Ali há sinceridade e eu sinto quando os leio. A operação feita a bordo do lugre Trindade e o seu São Pantaleão de pedra, que esmaga a mão a um dos condutores, que depois lha vai oferecer, são prosas magistrais. Mas, declaro: O Fogo é qualquer cousa de ultra-humano, de divino, do demónio que os leve, que não sei o que êle quere dizer. Não me falta vontade para o compreender. Mas aquilo ainda não é para mim. Linguagem para deuses só a deuses é compreensível. E, à hora do poente que êle tanto prefere, o céu lilaz, lilaz a terra tôda, a treva abraçando o mundo, vindo a curvar-se num beijo sôbre o dia que morre, eu volvo desanimado:
-Deve ser essa a razão!...
D’Annunzio representa o homem para quem o nó da gravata todos os dias é uma tortura. Tenho a impressão de que êle se perfuma e é incorregívelmente, viciosamente dandy. Da sua vaidade não falemos. Deve ser infinita a vaidade dêste pobre diabo, contou-me uma vez o Eclesiastes.
A sua prosa é tambêm assim. Não tem arestas. Tão harmónica, que parece ter cópula com a música. Ricamente vestida, mas só isso. É mesmo o que a caracteriza. Se o desideratum é agradar às mulheres, d’Annunzio deve ter conseguido, porque às mulheres agrada-lhes sempre o que não percebem. Depois, a feminagem perfumada que impregna os seus livros faz com que seja buscado com prazer e com prazer deixado. Daudet, na minha estante, está perto. E, devo confessar-lhes, eu adoro Daudet. Daudet é o poeta da vida. Objectam-me que d’Annunzio é um poeta. Mas Daudet faz a poesia da prosa, com princípio, meio e fim. D’Annunzio é indiferente. Leiam os senhores os seus livros por onde quiserem e encetem a leitura por qualquer página. Isso não fará diferença. Faz sempre sentido. Há lilaz em tôdas as páginas. Poeta foi Gauthier e eu ainda hoje o leio com prazer. Tem muito de misticismo êste Gabriéllo! diz uma dama. Pois bem, minha senhora, o lugar dos místicos é no céu. Queira dizer ao seu d’Annunzio que mude de feitio senão perdeu um freguês. E é que nunca mais o compro!...
Uma cousa curiosa que eu tenho notado é que entre os artistas que não teem gravata e aqueles para quem o nó da dita é uma preocupação, os primeiros teem sempre mais talento. Não sei porque, mas creio que entre um Verlaine que morre no hospital e um Gabriéllo que manda fazer o mausoléu em mármore, o do hospital vale mais. Mas eu não discuto! Os senhores não se zanguem, ou zanguem-se embora, que eu nada lhes levo por isso. Isto é comigo sómente. Se eu lhes digo que prefiro o Baudelaire ao Torquato Tasso!
Se d’Annunzio é poeta, é um parnasiano. Se é prosador, a sua prosa talvez seja poesia. Pela abundância de imagens, pelo colorido pouco vulgar, decoração e o não descrito, seja embora um poeta, como prosador gosto dele nos contos. As suas novelas não as entendo. Eis o que eu penso. De resto qualquer dos franceses ou dos espanhóis mas dá iguais. E se querem experimentar já lhes não digo que leiam d’Annunzio e logo Gauthier. Leiam por exemplo d’Annunzio e Suderman. Se vos não der a impressão que os livros de d’Annunzio são escritos por uma mulher, não sei que diga!
Tolstoi quando começou às punhadas a Shakespeare devia sentir a tortura do russo do livro de Eça. E todavia Tolstoi com tôda a sua mansidão, a sua paciência sofredora, a sua resignação passiva e néo-cristã não pode compreender a tempestade de paixões que é Shakespeare. Porque Shakespeare é o colosso do Ódio e do Amor, o Céu, a Terra e o Inferno. E eu penso que é preciso ser-se um vélho bruto para não compreender Shakespeare.
Outro tanto dirão de mim. Não compreender d’Annunzio? ¿O poeta do amor subtil, dos perfumes, dos lilazes, da volúpia perene, capitosa e aristocrata; o prosador imaterial, cheio de doçura, magistral, ilustre, divino, mirífico; a pena de ouro que traçou o Fuoco, o Crime, as Virgens? Eu sei lá! Mas é um crime! E estou repêso de confessar o meu pecado. Eu não sabia... E ponho-me a querer entender d’Annunzio. Tomarei um explicador. Porfiarei. A minha ignorância é lamentável. Mas, quando estou envergonhado e confuso um diabinho irónico vem e segreda-me ao ouvido que os outros, que o adoram, que o admiram, percebem-no tanto como eu.
Compreendo agora. É uma «ideia feita», o culto de d’Annunzio. E como o desgraçado Cornuski, eu, torcendo as mãos, na minha impotência de o compreender terei que murmurar desconsoladamente o meu:—«Como é belo!»